Porque nos tornamos umas bestas?

Fazemo-lo no futebol, no trânsito, no trabalho. A vida stressante que levamos encarrega-se de nos fazer perder a paciência e, às tantas, deixamos sair o pior que há em nós por dá cá aquela palha. Uma coisa é certa: a expressão “passar de bestiais a bestas” tem razão de ser.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Nenhum verniz do mundo resiste àqueles momentos (especialmente intensos na vida de uma pessoa) em que nos salta a tampa. O parceiro acaba connosco porque diz que “queria que resultasse mas precisa de estar sozinho”. “Querias o tanas, grande estupor, vai-te lixar!” O condutor da frente trava de repente e quase nos enfaixamos? “Aselha! Asno do caraças! Sai mas é do carro para ver se és homem, labrego de um raio!” Todos sofremos de transtornos de humor assim: num ápice, vamos de bestiais a bestas. Mas porquê?

Sentir que alguém põe em causa aquilo que valorizamos pode gerar medo, frustração e um contra-ataque.

“É difícil encontrar uma única razão mas, à partida, sentir que alguém ou algo põe em causa aquilo que valorizamos pode gerar medo, frustração, até mesmo sensação de invasão de privacidade”, explica Vítor Rodrigues, psicólogo clínico e psicoterapeuta. Por ele, procura justamente a origem nessas três áreas: a da frustração (física, mental, emocional, laboral); a da perda de privacidade (se nos invadem, mexem em nós ou nas nossas coisas, ocupam o nosso espaço); a da dor (seja física ou emocional).

“Se acumulamos uma ou mais delas, torna-se fácil andarmos irritáveis e potencialmente violentos para enfrentar a ameaça”, diz. As feras feridas são as mais perigosas e parece-lhe que os humanos feridos – no corpo, na autoestima, nos seus direitos e crenças – também. “Tanto o instinto de sobrevivência como o instinto agressivo ou de proteção do território fazem parte da nossa base genética”, aponta o psicólogo, lembrando que a isso se juntam emoções básicas como aversão, receio, alegria, tristeza, espanto, zanga. “Ao sentirmo-nos ameaçados, invadidos, humilhados – em que o medo e o instinto de sobrevivência se juntam ao tal instinto territorial –, partimos para o contra-ataque.”

Algumas pessoas tornam-se violentas aos poucos, na tentativa de lidarem com ambientes hostis ou predatórios.

E sim, é verdade que algumas pessoas foram treinadas para bestas ao viverem num meio social e familiar que recompensa a violência, ao passo que outras se tornaram violentas aos poucos, na tentativa de lidarem com ambientes hostis ou predatórios. Contudo, em situações pontuais, a maioria pode perder subitamente a paciência e ser cruel. “No trânsito, por exemplo: algumas pessoas fazem coisas que não fariam noutro contexto”, sublinha o médico psiquiatra Vítor Cotovio, para quem a nossa personalidade é uma combinação de caráter (a matriz mais genética que predispõe para o bem ou o mal) com o temperamento (resultante do processo de desenvolvimento sociocultural).

Se podemos todos perder as estribeiras? “Podemos, já que em termos evolutivos o ser humano só conseguiria sobreviver tendo o espetro emocional completo, que lhe permite identificar uma ameaça para então fugir, paralisar ou atacar para se defender”, adianta o especialista. O que difere de pessoa para pessoa, fazendo com que uns se passem mais dos carretos do que outros, é este equilíbrio precário entre o cérebro executivo (no córtex pré-frontal), capaz de avaliar cenário, riscos e implicações, e o sistema límbico (a zona mais primitiva em nós), que ativa os impulsos e as emoções básicas.

No caso de Frederico Galinho, benfiquista ferrenho, a única coisa no mundo que lhe faz saltar a tampa é o clube. Nem trânsito, nem competições desportivas em geral, nem provocações de gente parva no trabalho o desconcertam – nada de nada. Com o Benfica, pelo contrário, vira animal. Deixa de ser possível chamá-lo à razão seja como for. “Se perdem, discuto com toda a gente. Tive que deixar de ver jogos em cafés porque me desentendia a sério com os desconhecidos que mandavam bocas”, conta o adepto, incapaz de explicar o descontrolo seletivo. “Sinto-o e pronto.”

Práticas meditativas em geral ajudam-nos a criar distância face aos mecanismos e estados de espírito que nos tornam potencialmente mais desequilibrados.

Isto porque a paixão pelo futebol é um tipo de amor tribal, que mexe com sentimentos de identidade e inclusão num grupo – o clube – e a rivalidade face aos clubes adversários, sustenta Ana Cristina Martins, psicóloga social do ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida. “Influencia as nossas ações, emoções, pensamentos.” Afeta-nos a autoestima, que é a avaliação positiva ou negativa que fazemos de nós mesmos. “E quanto maior a identidade clubista de uma pessoa, maior a falta de racionalidade e mais fortes as reações”, conclui a docente.

É AQUI QUE RESPIRAR ENTRA EM CENA PARA ACALMAR OS ÂNIMOS.
Isso e meditar, confirma Gonçalo Pereira, conhecido como Sagara, um dos formadores de mindfulness mais experientes do país. “Situações enervantes fazem parte, porém muito desse stress resulta de leituras e respostas automáticas que não são o que está, de facto, a acontecer”, explica o responsável pelo Centro Upaya, em Lisboa. É como quando estamos no trabalho e nos pedem um projeto em tempo recorde – algo que faz saltar a tampa à maioria das pessoas.

“Tendemos a ir por ali afora, envolvendo uma elaboração catastrófica que só existe na nossa cabeça, e de repente estamos desligados da razão”, afirma Sagara. Às tantas só pensamos que nunca vamos acabar aquilo a tempo – o que nos deixa ansiosos ao infinito –, barafustamos com os outros – de cambada de incompetentes para cima – e connosco – sou um nabo a fazer isto, raios me partam! “O que o mindfulness nos ensina é que entre o estímulo e as minhas reações existe um espaço que não tem que ser automático, e nesse espaço reside a minha liberdade de decidir como vou responder”, adianta o formador.

Do lado oposto da bestialidade, também não é bom engolir frustrações, humilhações e contrariedades sem se expressar emocionalmente.

Esse é justamente um dos pontos fortes das práticas meditativas em geral: ajudarem-nos a criar distância face aos mecanismos e estados de espírito que nos tornam potencialmente mais desequilibrados, confirma Vítor Rodrigues: “Quando deixo de me identificar com uma folha de pagamento, os resultados do futebol, o meu automóvel, o meu estatuto e assim por diante, o número de coisas que considero extensões de mim, e que podem ser postas em causa pelos outros ou pela vida, diminui”, traduz o psicólogo, considerando que com elas decresce também a agressividade.”

E não, não é bom engolir frustrações, humilhações e contrariedades sem se expressar emocionalmente: quem tudo cala, desenvolve mais depressões e sintomas psicossomáticos persistentes que prejudicam a saúde. Ainda assim, diz, passar de bestiais a bestas não é solução: “Bestializa-nos, isso é sempre mau. Não podemos dar-nos ao luxo de reagir uns aos outros como macacos inteligentes desesperados por protegerem as suas bananas, agarrarem as bananas dos outros, invadirem as tocas alheias ou guardarem as das suas tribos.” A agressão nunca pode ser uma opção fácil.

Por via das dúvidas, tire essa energia negativa de cima dos ombros com as dicas que lhe deixamos na fotogaleria.