«Portei-me bem, mereço todos os presentes.» Como lidar com a expectativa das crianças?

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A publicidade entra casa a dentro e os brinquedos são a montra de várias lojas e hipermercados. Pode a oferta (em demasia) e as elevadas expectativas condicionar o desenvolvimento dos mais novos? Como devem os pais gerir os pedidos de Natal para evitar birras e deceções? Questionámos a pediatra Sandra Afonso, especialista em neurodesenvolvimento infantil no Hospital CUF Descobertas, sobre a melhor forma de lidar com as crianças no Natal.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia ShutterStock

Os argumentos não acabam: «tive boas notas», «portei-me bem este ano» ou «se ele tem eu também tenho que ter». Tudo serve para pedir mais presentes no Natal. Pais, tios e avós não resistem e, por vezes, dão tudo aquilo que as crianças pedem na sua longa lista de desejos.

Sandra Afonso, responsável pelo Núcleo de Neurodesenvolvimento Infantil do Hospital CUF Descobertas, diz que é importante para o desenvolvimento das crianças explicar o conceito do Natal, que vai além da troca de presentes.

«Tudo depende da forma como cada família vivem a época natalícia. Podem ser mais religiosos, podem ainda encenar a chegada do Pai Natal. Mas não devem viver a época pelo seu valor comercial. O Pai Natal não deve ser imaginado apenas como um entregador de presentes», começa por dizer a especialista.

«O fator surpresa pode ser benéfico e é um incentivo à criatividade deles, porque muitas vezes já conhecem o objetivo do jogo ou do brinquedo que estão a pedir», diz a pediatra.

«Nesta época deve-se fomentar a união familiar também, incentivar à partilha e viver como se fosse um momento mágico para estas crianças», diz a pediatra. «Os pais podem até aproveitar para visitar algumas instituições onde os seus filhos possam entregar brinquedos e conhecer outras realidades. Isto vai não só contribuir para o desenvolvimento pessoal das crianças, como também emocional», acrescenta a pediatra.

A lista de presentes, por vezes demasiado preenchida, também deve ser gerida pelos pais. De acordo com a especialista, é possível, em conjunto com as crianças, perceber que brinquedos podem ser excluídos da lista. «Podem ir dizendo que certo brinquedo é muito parecido com outro que já tenham, outro podem explicar que não faz tanta falta e, desta forma, conseguem adequar a expectativas».

«No caso das crianças mais velhas, sem que eles entendam que viram a sua lista de Natal, podem dar sinais que certos desejos são mais supérfluos, por exemplo, ou que apelam demasiado à violência. Este tipo de conversas ajudam a explicar porque não lhes vão dar aquilo que querem», explica Sandra Afonso.

«Nesta altura, os pais podem dar algo que seja útil para o quotidiano dos seus filhos»

«Mais do que presentes, os pais devem dar algo que seja útil para o quotidiano dos seus filhos. Por exemplo, dar-lhes um sítio onde eles possam guardar dinheiro, seja para irem para um campo de férias ou para fazerem alguma atividade especial, é uma forma de lhes dar alguma responsabilidade e ajuda-os no seu desenvolvimento. Mesmo que ainda não entendam o real valor», aconselha a especialista da CUF Descobertas.

«Por outro lado, não corresponder à lista de desejos que elaboraram também pode ser bom. O fator surpresa pode ser benéfico e é um incentivo à criatividade deles, porque muitas vezes já conhecem o objetivo do jogo ou do brinquedo que estão a pedir».

Tecnologia: para quando?

Na lista de desejos do Natal vem muitas vezes produtos tecnológicos: o telemóvel que o colega da escola já tem, o tablet em que o pai trabalha ou a consola nova no mercado.

No entanto, Sandra Afonso considera que se deve respeitar as considerações da Associação Americana de Pediatria, que indica que até aos dois anos as crianças não devem ter contacto com produtos tecnológicos. A partir dessa idade o máximo que deve estar é até uma hora por dia, recomendação «exagerada», segundo Sandra Afonso.

«As crianças não devem ir dormir mais tarde porque estão a jogar ou comer mais depressa para irem ver televisão»

Finalmente, a partir dos seis, não há um limite recomendado. No entanto, a pediatra considera que os pais não devem permitir que a utilização das tecnologias «interfira no dia-a-dia» das crianças. «Não devem ir dormir mais tarde porque estão a jogar, comer depressa para irem ver televisão, deixar de fazer atividades físicas ou de brincar com os amigos», avisa a especialista.

«É também muito importante, principalmente com os jovens, falar sobre os riscos e perigos associados à Internet».


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