Há quem acredite em pragas e maus-olhados. E isso pode ser um bom negócio

Males de saúde, males de amor, falta de dinheiro, desemprego, acidentes. O rol é imenso e conta com tudo o que não corre de feição a alguém. Muitos atribuem os problemas ou azares da vida a pragas que lhes rogaram, mau-olhado ou inveja. E é por isso que não faltam clientes a astrólogos, espiritualistas, cartomantes e outros profissionais do esoterismo.

Texto de Catarina Pires

“Tenho pessoas que não dão um passo sem me consultar. Metem a vida delas nas minhas mãos. Estou a falar consigo e estão 20 e tal pessoas à minha espera lá fora. Vêm do nada”, diz Luz Ana, 41 anos, ao telefone.

Aos 16, conta, começou a ver luzes e estrelas, o que a perturbou, até que lhe apareceu em espírito o Dr. Sousa Martins (célebre médico e benfeitor do século XIX, considerado santo milagreiro por alguns) para lhe anunciar “que tinha um dom e que ia ajudar muita gente”. Nesse momento, a sua vida mudou. “Nunca mais tive sossego, chego a trabalhar 24 horas por dia, a minha vida está entregue a Deus. Tenho três filhos, mas não tenho vida própria. Felizmente, tenho uma empregada interna que cuida deles.”

O dom de Luz Ana, diz ela, é tirar as pragas das pessoas, e há 25 anos que se dedica a praticá-lo, em Aveiras de Cima, terra natal. Pragas, maldade, mau-olhado, bruxaria, mal feito. As pessoas não precisam de dizer nada, assim que chegam à consulta, a curandeira vê logo o que as apoquenta.

Cá ou no estrangeiro, Ana diz não ter mãos a medir. Conta histórias de milagres, de gente que chegou doente e saiu curada. “É o meu dom. Não faço publicidade. As pessoas vêm ter comigo.»

“O purgatório não existe, é aqui na terra, onde andam os espíritos perdidos, que são usados para fazer mal. São os espíritos negros que se prendem à pessoa para a apoquentar e afetam a saúde e tudo à volta”, explica, esclarecendo que as pragas podem até matar porque armar uma praga é cortar o caminho à pessoa. “O meu trabalho é o de abrir o caminho e curar males espirituais. Os espíritos da luz falam comigo e dizem-me se a pessoa está amaldiçoada e o que fazer.”

Cá ou no estrangeiro, Ana diz não ter mãos a medir. Conta histórias de milagres, de gente que chegou doente e saiu curada, de gente que estava arruinada e que em pouco tempo recuperou o que perdeu. “É o meu dom. Não faço publicidade. As pessoas vêm ter comigo. Dão o que quiserem dar e nunca me faltou nada. Tudo o que quero tenho.”

Há quem faça publicidade. Em pequenos quadrados de papel, colocados nos vidros dos carros, nas caixas do correio ou colados nas paredes dos prédios e nas caixas multibanco. E parece não faltar procura para a oferta deste tipo de serviços.

Não revelando métodos ou procedimentos, Mestre Seco tanto tira pragas como as lança, mas com critérios. “Quando tiro mau-olhado, nunca digo quem o lançou porque isso faz ódio e pode ser coisa muito perigosa, está a compreender?”

Que o diga o astrólogo Mestre Seco, que se apresenta num desses papelinhos como “grande espiritualista curandeiro especializado em astrologia e espiritualismo com poderes absolutos e rápidos em soluções com mais de 21 anos de experiência. Trata e resolve qualquer que seja a gravidade ou a duração dos seus problemas em apenas sete dias. Como amor, doenças físicas e espirituais, impotência sexual, justiça, negócios, inveja, mau-olhado, vícios, concursos, exames, reconciliações, emprego, promoção, atração de clientes, desenvolvimento da inteligência nos estudos, etc… Lê a sorte, faz previsão do futuro, faz consultas na presença.”

Apesar de viver em Portugal há mais de duas décadas, segundo nos diz, o português deste natural do Mali não é fluente. Atende na Amora, de segunda a sábado, das 08.00 às 21.00 e promete que pagamento é só depois do resultado positivo. Clientes não lhe faltam, “graças a Deus”, entre portugueses, africanos e muitas outras nacionalidades, garante.

Não revelando métodos ou procedimentos, adianta que tanto tira praga e mau-olhado como a lança, mas ressalva que o faz de acordo com determinados critérios. “Quando tiro mau-olhado, sei quem o lançou, mas nunca digo quem foi porque isso faz ódio e pode ser coisa muito perigosa, está a compreender?” Do mesmo modo (como quem diz), se lhe pedirem para lançar uma praga ou um mau-olhado, faz mas não de ânimo leve. “Se você quer, faço, mas primeiro falo com você, para aconselhar, para ver se tem razão para isso, está a perceber?”

No fundo, para Mestre Seco, que diz cobrir muitas áreas – pragas, invejas, amarrações, aproximações, mas também doenças, nomeadamente do estômago, para as quais tem muita procura –, trata-se de haver uma razão, algo que justifique.

«Na cartomância e na vidência tradicionais segue-se o princípio de que é o cartomante ou vidente, quem decide a vida do cliente e lhe dá orientações sobre o que fazer. Eu não faço isso», diz a taróloga Fernanda Brito.

A taróloga Fernanda Brito, que tem uma página no Facebook chamada Nas Minhas Mãos O Futuro, através da qual dá consultas online gratuitas, respeita as opiniões, as crenças e as práticas de cada um, mas é muito cética relativamente a pragas e maldições e sobretudo à forma como alguns charlatões se aproveitam da vulnerabilidade das pessoas.

“Uma das coisas que os clientes mais querem saber, além das perguntas sobre o amor, que estão no topo, é se têm alguma praga rogada, algum mau-olhado, se alguém lhes quer mal. Se eu vejo nas cartas que não tem qualquer mal ou qualquer energia negativa à volta, porque eu resumo muito as coisas à energia, não alimento.”

O mesmo não acontece com “colegas” seus astrólogos, videntes, clarividentes, media, espíritas ou outros profissionais do esoterismo, que utilizam aquilo a que Fernanda chama de profecia autorrealizada tendo como objetivo criação de uma dependência e à obtenção de trabalhos para resolver a praga ou o mau-olhado.

“Se se diz a uma pessoa que alguma coisa vai correr mal, o cérebro, sugestionado, realiza essa profecia porque entra em ação a amígdala, que gera as reações mais primárias, as mesmas que são ativadas nos ataques de pânico, que são os três éfes – fight, fly, freeze – lutar, fugir ou paralisar”, explica a taróloga, que garante que a filosofia espírita que a inspira luta contra isto.

“Acreditamos que assim se está a manipular voluntária ou involuntariamente a mente humana e a aproveitar-se de alguém que tem um problema, porque quando alguém nos consulta é porque tem um problema. A minha regra é que a pessoa saia melhor do que entrou e mantendo sempre o livre-arbítrio. Na cartomância e na vidência tradicionais segue-se o princípio de que é o cartomante ou vidente, quem decide a vida do cliente e lhe dá orientações sobre o que fazer. Eu não faço isso, de acordo com os ensinamentos do meu mestre, José Prudêncio.”

Para Fernanda Brito, que diz que lhe tem custado cara esta atitude entre os seus pares, o destino de cada um a cada um pertence. “A evolução espiritual pode passar pela vivência das dificuldades. Não se trata de tirar todas as pedras do caminho da pessoa, mas, se este tiver pedras, ajudá-la a percorrê-lo de forma assistida para que sejam ultrapassados os problemas com maior clareza, luz e felicidade”, diz a taróloga, que se vê também um pouco como uma espécie de “psicóloga”.

“Muitas pessoas têm dificuldade em gerir o absurdo da vida. Pensar que forças ocultas são responsáveis pelos seus males pode, assim, fazer-lhes mais sentido do que pensarem que tudo é aleatório, imprevisível e incontrolável», diz o psicólogo Vítor Rodrigues.

Vítor Rodrigues, que é mesmo psicólogo, não descarta a existência de fenómenos paranormais, mas tem uma explicação racional para a crença em pragas e maldições.

“Muitas pessoas têm dificuldade em gerir o absurdo da vida. Pensar que forças ocultas são responsáveis pelos seus males pode, assim, fazer-lhes mais sentido do que pensarem que tudo é aleatório, imprevisível e incontrolável. Acresce que algumas pessoas são dadas à superstição justamente porque esta, parece-me, pode dar-lhes a ilusão de controlarem, de certo modo, os acontecimentos da vida se desempenharem certos ‘rituais’”.

Certo é que mesmo que pragas, maus-olhados, invejas ou maldições não passem de maldade vã sem quaisquer consequências na vida de quem quer que seja, a simples ideia de que se pode ser alvo delas é condicionante para muitos.

“Paranormalidade à parte, muitas pessoas podem ficar fortemente impressionadas e assustadas se alguém as amaldiçoa de modo efetivo. Ao saberem disso, pelo menos em algum grau podem temer que a praga seja eficaz. Ou o facto de alguém expressar o ódio na forma de praga pode, em si, ser psicologicamente traumático para a vítima. Alguns feiticeiros fazem questão de informar a vítima de que tencionam fazer-lhe mal, produzindo o efeito psicológico negativo conhecido como nocebo. Acresce ainda que não devemos excluir a possibilidade de algumas pessoas conseguirem, ainda assim, ‘projetar’ algo de nocivo sobre outras, mesmo para além do choque psicológico e da sugestão”, diz Vítor Rodrigues, que defende que uma das formas eficazes de ajudar alguém que acredita ser alvo de uma maldição é “sugerir práticas em conformidade com a religião da pessoa (se a tiver), como algumas orações de proteção ou, em geral, procedimentos de visualização e foco mental com fins de proteção. Mal não fará e talvez possa fazer bastante bem.”