E se o seu prato lhe disser quanto deve comer?

A tailandesa Mo Vuthisatkul engordou dez quilos depois de se mudar para Londres. Percebeu que isso tinha a ver com as porções que lhe serviam. A arquiteta de interiores e designer de 28 anos criou, então, um serviço de utensílios de cozinha que dá as doses exatas de alimento que cada um precisa, com base no tamanho da mão. The New Normal é, para já, um projeto mas quer ajudar a combater a obesidade do dia-a-dia. Saem duas mãos de salada de alface, com uma mão de arroz e outra de carne estufada…

Entrevista de Marina Almeida

Porque decidiu fazer o projeto The New Normal?
Depois de dois anos a viver no Reino Unido eu e a maioria dos meus amigos tailandeses tínhamos mais dez quilos de peso devido às porções [alimentares] distorcidas. Isto está sustentado no relatório que depois encontrei que diz que a distorção das doses é a principal razão para a obesidade no Reino Unido. As porções de comida no Reino Unido são duas ou três vezes superiores às da Tailândia e nós respondemos a isso comendo mais. Quando encontrei uma recomendação de um nutricionista, de que podemos facilmente comprar as doses adequadas com o tamanho da nossa mão, pensei que era uma ótima ideia porque as mãos estão sempre connosco e é um conceito de fácil entendimento. No entanto, quando fui testar na prática a teoria da porção da mão percebi que apenas o «saber como» não era suficiente para mudar os hábitos alimentares das pessoas. Eu quero desenhar objetos que intervenham ativamente na rotina alimentar diária das pessoas.

Em que consiste o projeto?
The New Normal, uma coleção de utensílios de servir comida, desafia a perceção das pessoas em relação a estes objetos propondo uma forma alternativa de calcular o tamanho das doses. Foi criada com base nos diferentes tamanhos das mãos em vez da contagem de calorias ou medições matemáticas.

Teve algum suporte médico ou científico para definir as doses? Criou porções para homens e mulheres, adultos e crianças?
Este projeto começou quando eu encontrei um artigo de Sian Porter, uma reputada nutricionista britânica, que comparava o tamanho das porções com o da mão. Depois contactei-a e mostrei-lhe os meus protótipos. O feedback da Sian foi muito bom e ela considera que podem de facto ser úteis. Desenhei cada peça da coleção em vários tamanhos standard de mãos (XS, S, M, L, XL). Há cinco tamanhos para homem e para mulher.

Os tamanhos/doses que criou são universais ou as porções devem ser definidas de acordo com diferentes zonas do planeta?
Do meu ponto de vista, este projeto está no princípio quanto à definição de medidas. Precisa de mais pesquisa e de mais exemplos de outras pessoas. Eu usei a medida standard da mão humana a partir de um livro e de pesquisas que fiz. Por exemplo, se olharmos para um fabricante de luvas, cada um tem as suas medidas standard. Este projeto representa a ideia de uma nova forma de comprar utensílios de mesa à medida de cada indivíduo, similar à indústria da moda.

Acredita que The New Normal pode ser útil para mudar os comportamentos?
Sim, muito útil porque são objetos que as pessoas já usam no seu dia-a-dia, mas são diferentes dos objetos normais e mais próximos do gesto do corpo. Espero que estas novas formas possam criar uma nova memória das porções razoáveis para cada pessoa. Além disso, para mim o controlo de peso não é um ato médico mas pode ser naturalmente integrado na vida diária.

Qual é o seu peso?
Como disse, ganhei dez quilos após dois anos a viver em Londres. Agora estou com 62 quilos e 1,64 de altura. Quando estava a desenhar o projeto e tentava comparar as doses de comida com a palma da minha mão perdi dois ou três quilos.

O que come? Tem alguma dieta especial?
Não tenho uma dieta especial. Acredito que podemos comer de tudo em doses razoáveis. Demasiado não é bom mas de menos também não. Cada pessoa precisa da sua dose. O que mais gosto de comer é comida tailandesa, porque combina muitos vegetais e não é gordurosa. Evito comida processada.

Em Portugal há um ditado que diz que não se brinca com a comida. Estive a ver o seu site e tem várias caras feitas com comida…
Na realidade, essas caras são uma parte do meu processo de pesquisa. Essa cara de comida é o resultado de uma pesquisa que fiz ao perguntar às pessoas por uma refeição com 80 gramas de vegetais e 20 gramas de carne. Esta é a proporção apontada como saudável por muitos nutricionistas ou livros. O que descobri nessa altura é que as pessoas não são muito boas a estimar quantidades em unidades matemáticas. É por isso que o meu design calcula as porções a partir dos gestos em vez de unidades matemáticas.

É licenciada em arquitetura de Interiores e fez um mestrado em design de produto no Royal College of Arts. Qual é para si a importância de desenhar objetos para a vida das pessoas?
Hoje em dia acredito que não precisamos de mais objetos nas nossas vidas mas precisamos de ter mais consciência dos objetos que temos. Como designer, gostaria que os objetos criados por mim fizessem as pessoas pensar ou comportar-se de uma forma melhor – melhor para o ambiente e para a saúde.

Considera-se mais arquiteta ou designer?
Penso que é tudo uma questão de pensar o design. Seja como arquiteta de interiores seja como designer, é o processo de pensamento que interessa. No entanto, se me perguntar como gostaria de me ver no futuro, seria como designer de alimentação [eating designer, no original], para desenhar experiências ligadas à comida.

Poderemos comprar a coleção The New Normal?
Estou muito contente porque há muitas pessoas interessadas no projeto que adoravam comprar o conjunto. Nesta fase, os protótipos são feitos a partir de impressão 3D num material que não é adequado para alimentação. Espero que possa ser fabricado no futuro.

Continua a trabalhar em projetos ligados à alimentação?
É o meu objetivo de vida e o meu emprego de sonho ser uma designer de alimentação. Nesta fase estou à procura de materiais que se adequem ao fabrico destes objetos.