Pré-publicação: Não Me Chamem Bom Pai, de Nuno Graciano

Nuno Graciano decidiu escrever um livro sobre parentalidade, baseando-se na sua experiência como pai de quatro filhos Gonçalo (21), Tomás (17), Matilde (13) e Maria (9).

Esta segunda-feira, a DN Life mostra-lhe algum dos excertos de Não Me Chamem Bom Pai, nas livrarias a partir de 3 de outubro.

Fotografia Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

Leia-os aqui:

#5 «Caiu a ficha»: este naco de carne é o meu filho

O príncipe-mor, primeiro na linhagem dos meus descendentes, achou que devia complicar-nos a vida logo ao nascer. Eu e a Patrícia demos entrada no Hospital São Francisco Xavier às onze da manhã do dia 6 de Janeiro, mas o Gonçalo resolveu que não queria nascer no Dia de Reis e só deu um ar da sua graça na madrugada do dia seguinte. Falhou por pouco o Dia de Reis, mas – azar o dele – não se livra de eu o chamar príncipe (ou Lancelote, como calha). Depois de 14 horas em trabalho de parto, quando estávamos na iminência da hora H, o Dr. Fernando Cirurgião pediu-me que saísse do bloco. O Gonçalo ia nascer com a ajuda de fórceps e, por isso, eu não podia assistir ao parto. Oh, que chatice… Aqui entre nós, que ninguém nos ouve, até fiquei secretamente aliviado. Sim, é evidente que tencionava ver o meu primeiro filho nascer – e tê-lo-ia feito, caso não se desse o imprevisto dos fórceps –, mas eu era aquela pessoa que desfalecia ao ver sangue, portanto como seria eu a assistir a um parto? Não ia ser bonito!

A Maria foi a única dos meus filhos que vi nascer, 12 anos mais tarde, mas nessa altura eu já não era o mesmo mariquinhas de antes. Digamos que fui tendo terapia de choque à custa de três filhos – dois deles especialmente desastrados – e muitas idas às urgências. Passava pouco da uma da manhã do dia 7 de Janeiro de 1998 quando segurei no Gonçalo pela primeira vez. 3800 kg de gente embrulhados num pano ensanguentado. E eu lembro-me de pensar: Este naco de carne é o meu filho! Vinha todo «amachucado», com a cabeça deformada por causa dos fórceps e, verdade seja dita, era um bebé feiinho (como todos os meus filhos ao nascer, à exceção da Maria). Mas isto era o que os meus olhos viam, porque o coração e a cabeça processavam outro tipo de informação a mil à hora.

Eu já sabia que os ia amar sem reservas, já sabia que ia dar a minha vida por eles desde o primeiro segundo…

Neste turbilhão de emoções – agora sim, com os meus cinco sentidos em alerta máximo –, lembro-me de imaginar algo tão ridículo como: Se entrasse aqui alguém, agora mesmo, e me desse a escolher entre a minha morte ou a morte do gajo que eu estou a cheirar e a tocar pela primeira vez, eu escolhia morrer. Sem hesitar.

Quando me puseram o Gonçalo no colo, foi como se me tivessem tirado o chão e o discernimento. Senti-me numa espécie de viagem mágica. Além do instinto de proteção imediato, fui tomado por um sentimento arrebatador de amor infinito. Eu não tive dúvidas de que iria amar aquela criatura durante a minha vida toda, para sempre. Mas essa perceção atingiu-me com a mesma força que todas as inseguranças e medos inerentes à novidade. Por um lado, a descoberta de um amor inigualável e, por outro, o peso esmagador da responsabilidade. Aquela vida, ali nos meus braços, dependia de mim. É curioso como nunca mais senti esta overdose de emoções. Aconteceu no nascimento do Gonçalo e pronto. Foi uma espécie de «cair da ficha», que me introduziu no mundo da paternidade e não se repetiu nos filhos seguintes. Não era preciso. Eu já sabia que os ia amar sem reservas, já sabia que ia dar a minha vida por eles desde o primeiro segundo… Já sabia isso tudo, porque descobri com o Gonçalo.

#7 Uma separação é sempre um erro, mas temos a obrigação
de o minimizar

Num dia de Dezembro, ao final da tarde, eu e a Patrícia sentámo-nos com os miúdos no quarto deles e dissemos-lhes que nos íamos separar. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, do Gonçalo a chorar. Ao contrário do Tomás, que era demasiado pequeno para entender o que lhe dizíamos, o Gonçalo tinha 6 ou 7 anos e compreendia perfeitamente. Teve plena consciência do que estávamos a dizer-lhe. Chorou copiosamente. Em silêncio. As lágrimas corriam-lhe pela cara sem que ele fizesse qualquer som. Essa imagem dele, a chorar em silêncio, é algo que nunca mais esqueci. Marcou-me muito, até hoje. O sentimento de que somos nós os causadores do sofrimento dos nossos filhos é horroroso. Que pai gosta de ver os filhos chorar, genuinamente tristes, por algo que lhes é completamente alheio? Doeu-me imenso vê-lo reagir assim, mas nunca – em momento algum – isso me fez ponderar ou desistir da separação. Eu sabia que era o melhor para todos, a longo prazo, e a vida deu-me razão.

No rescaldo da separação, para quem sai de casa o mais difícil é a gestão das pequenas ausências. O não estar à hora das refeições, o não estar à hora de deitar… De repente tudo muda e custa a encaixar que já não estamos 100% presentes na vida dos filhos como antes.

Hoje, com 21 e 17 anos, o Gonçalo e o Tomás nem se lembram que eu e a mãe algum dia estivemos juntos como casal. A realidade de sermos pais separados e amigos é a normalidade deles. Existe a casa do pai, a casa da mãe e em ambas eles têm o seu espaço e o mesmo afeto, sem distinção entre primeira e segunda casa. Os meus filhos simplesmente cresceram com a sorte de terem tudo a dobrar: dois pais, duas mães, duas casas… E muito mais, infinitamente mais do dobro do amor. Pode parecer clichê, mas garanto-vos que é a mais pura verdade. Claro que nada disto se constrói sem compromisso e empenho de ambos os pais, todos os dias. Pode ser mais difícil no início, nos primeiros tempos depois da separação, porque há que redefinir rotinas e papéis enquanto se curam feridas e corações partidos. Mas, com o tempo, e havendo o tal compromisso e empenho de ambos os pais, as coisas fluem naturalmente.

No rescaldo da separação, para quem sai de casa o mais difícil é a gestão das pequenas ausências. O não estar à hora das refeições, o não estar à hora de deitar… De repente tudo muda e custa a encaixar que já não estamos 100% presentes na vida dos filhos como antes.

#11 Nenhum pai é o Super-Homem

Para os que me lêem e planeiam iniciar-se na aventura da paternidade, não se incomodem em tirar a capa de super-herói e os collants do armário. Não é disso que vão precisar. Peguem num bloco-notas, numa caneta e apontem esta palavra: CONFIANÇA. Resmas e resmas de confiança, confiança aos molhos, paletes dela. Em primeiro lugar, um pai e uma mãe têm de confiar nos seus instintos paternais. Confiar, a toda a hora e perante todas as adversidades, naquela vozinha interior que diz: Estás a fazer o melhor para o teu filho, confia.

Digo já que não concordo nada com aqueles pais que se autoproclamam melhores amigos dos filhos.

De nada nos vale o instinto se não soubermos confiar nele, verdade? Em segundo lugar, um pai e uma mãe têm de confiar um no outro. Não falo de confiança matrimonial porque essa é outra história, já o sabemos, e não vem ao caso. Devem confiar, sim, nas suas capacidades paternais e na forma de educar um do outro. A sintonia entre pais é fundamental para uma educação sólida e eficaz. No meu caso, quer com a Patrícia quer com a Bárbara, essa confiança sempre foi inabalável. O que um diz

Nuno Graciano é a lei para os dois. E os nossos filhos sabem que nem vale a pena tentarem desacreditar um dos pais perante o outro, porque nunca se safam. A confiança também deve pautar a relação entre pais e filhos. Sempre. Nesta relação inclui-se ainda a ideia de amizade, no sentido de companheirismo e abertura para todo o tipo de conversas, mas… MAS não confundam a ideia de «pai confidente» com «pai melhor amigo».

Digo já que não concordo nada com aqueles pais que se autoproclamam melhores amigos dos filhos.

É saudável, de vez em quando, saber encostar a porta e perceber que há assuntos que os nossos filhos preferem partilhar apenas com os amigos – não com os pais!

Esse papel deve estar reservado a alguém da idade deles. Ter um melhor amigo, ou uma melhor amiga, com quem partilhar confidências, aventuras e até algumas asneiras – daquelas que os pais não aprovam – é uma parte importantíssima da infância e da adolescência.

Eu sei tudo o que se passa na vida dos meus filhos, assim como sei que há coisas que eles não me contam. E ainda bem, digo eu. Porque, para mantermos uma relação saudável, a porta da comunicação não tem de estar sempre escancarada. É saudável, de vez em quando, saber encostar a porta e perceber que há assuntos que os nossos filhos preferem partilhar apenas com os amigos – não com os pais!