Preservativo tira o prazer? Não, é “prova de amor entre o casal”

Quem o diz é Maria do Céu Santo, obstetra em Santa Maria, e com ela todos os especialistas preocupados por mais de 60 por cento dos jovens assumirem ter relações sexuais desprotegidas. No Dia Internacional do Preservativo, importa lembrar que esta camisinha nunca passa de moda.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

É dos maiores símbolos do sexo seguro no mundo, largamente recomendado para prevenir gravidezes indesejadas e infeções sexualmente transmissíveis (IST). Por muito que aplicá-lo pareça mais difícil do que trigonometria em mãos inexperientes – há que segurá-lo pela extremidade, deixar a ponta livre de ar para conter os fluidos e então desenrolá-lo da extremidade para a base do pénis ereto –, continua a ser o método contracetivo mais popular. Tem até o seu próprio Dia Internacional, assinalado hoje. Então, por que razão mais de 60 por cento dos jovens ainda têm relações sexuais sem preservativo?

“Prevalece a ideia totalmente errada de que o preservativo diminui o prazer, provoca alergias, pode romper-se no ato e é desconfortável, quando na verdade é uma prova de amor entre o casal”, desfere Maria do Céu Santo, médica ginecologista e obstetra no Hospital de Santa Maria, Lisboa. Sendo ponto assente que contraceção e proteção são coisas distintas, não há desculpa possível para não se usar em qualquer relação.

Em relações estáveis e de longa duração, os parceiros tendem a voltar-se para outros métodos de planeamento como a pílula. Esquecem-se que a função do preservativo vai muito além da contraceção.

“Se o vínculo afetivo é estável e de longa duração, os parceiros tendem a voltar-se para outros métodos de planeamento como a pílula [ainda existe muito a ideia romantizada de pele contra pele, sem borracha pelo meio]. Esquecem-se que o preservativo é a única maneira de se fazer prevenção das IST”, alerta Maria do Céu Santo, para quem o evoluir do tratamento do VIH tem contribuído para uma maior resistência (ou pelo menos uma menor urgência) em usá-lo.

“O raciocínio é o de que se se trata de uma doença crónica, não de uma doença que mata, então não há que ter tanto medo”, confirma a médica dermatovenereologista Jacinta Azevedo, responsável pela consulta de IST do Centro de Saúde da Lapa. “A campanha mais visível para a utilização do preservativo foi a seguir à epidemia da Sida nos anos 1980, isso notou-se.” Entretanto, várias organizações mundiais de saúde vêm agora dizer que indivíduos com carga viral indetetável não podem transmitir a doença e ela receia por aqueles que ainda não foram infetados.

“Há 42 anos que trabalho nesta área e vejo todos os pretextos servirem para desculpar comportamentos de risco, nomeadamente o de se usar o preservativo apenas como contracetivo ou não utilizá-lo de todo”, explica Jacinta Azevedo, preocupada com uma realidade muito superior à ficção: “Se perguntar por aí, muitas pessoas nem sequer consideram que sexo oral seja bem sexo, quanto mais a noção de que pode transmitir tantas infeções como o sexo vaginal e anal.”

Em 1920 surgiam no mercado os preservativos em látex, mais finos e lubrificados que os seus antecessores.

Evidências históricas situam os primeiros protetores sexuais no Egito por volta do ano 1000 a.C., feitos em linho como pequenos sacos do pão, ainda a milhas dos modelos futuristas e com sabores que hoje se vendem em toda a parte. Mais tarde, textos antigos e pinturas atestam a sua existência também na Europa e na Ásia no início da Idade Média, improvisados a partir de bexigas de peixe, tripas de animais e papel de seda empapado em óleos.

Em 1839, surgiam finalmente no mercado os preservativos em borracha, mais elásticos e cómodos do que as versões em linho e pedaços de intestino, apesar de ainda serem grossos e caros (lavavam-se para usar as vezes necessárias). Os de látex seguiram-se-lhes na década de 1920, muito mais finos, lubrificados e já concebidos para evitar doenças e bebés indesejados. Nos anos 1990, por haver quem se queixasse de alergias ao látex, os preservativos passaram a ser também fabricados em poliuretano.

“De 2000 em diante, já sem grande medo delas graças aos antibióticos, assistimos a uma subida em flecha da sífilis, gonorreia e clamídia, verdadeiras infeções sexualmente transmissíveis”, conta a coordenadora do Centro de Aconselhamento e Deteção do VIH, no CAD Lapa. Todas são curáveis, mas para tal têm de ser diagnosticadas e medicadas. “Enquanto isso chegamos a ter 70 por cento de pessoas infetadas sem sintomas, que estão a infetar outras e abrem inclusivamente caminho para o VIH”, acrescenta, receosa de que a infeção possa crescer devido a um aumento de contactos sexuais desprotegidos.

Calcula-se que 78% dos jovens utilizam o preservativo na primeira relação, embora só 37% continuem a colocá-lo sempre depois disso.

É justamente nesse sentido que aponta um estudo de 2018, Vida Sem Sida, coordenado pela psicóloga e investigadora Margarida Gaspar de Matos: dos 1166 jovens inquiridos, com idades entre os 18 e os 24 anos, 89,6 por cento já tiveram relações sexuais, com a média de início a situar-se nos 16 anos. Destes, 78 por cento utilizam o preservativo na primeira relação – é o método contracetivo eleito por quem se estreia no sexo –, embora só 37 por cento dos entrevistados continuem a colocá-lo sempre depois disso.

E sim, o facto de haver menos de 40 por cento dos jovens a protegerem-se regularmente inquieta bastante a professora da Faculdade de Motricidade Humana responsável pelo estudo: “Tanta coisa foi feita pela disponibilização grátis de preservativos nos centros de saúde, pelo planeamento, e agora os dados mostram que os jovens não estão a usar”, lamentou em entrevista ao DN.

Também ela acredita, como Jacinta Azevedo e Maria do Céu Santo, que a nota de esperança em torno da terapêutica antirretroviral leva muita gente a baixar a guarda no que toca ao sexo protegido. A questão é que se aqueles 78 por cento na primeira experiência já são maus, porque devia ser sempre uma relação cem por cento segura, não haver utilizadores regulares que atinjam sequer a barreira dos 40 por cento ganha contornos de desastre. “É preciso tornar o sexo mais seguro, essa mensagem não pode deixar de ser passada”, diz.

Sobretudo porque a infeção por VIH continua a ser um diagnóstico de doença crónica, apesar da terapêutica ter evoluído rapidamente, avisa Gonçalo Lobo, presidente da associação Abraço: “As pessoas terão de fazer a medicação todos os dias, durante uma vida inteira. Não é de desvalorizar por ninguém, ao contrário do que se passa com as outras infeções sexualmente transmissíveis, em que se calhar o impacto do diagnóstico não tem o mesmo peso.”

Preservativo feminino não resultou por razões anatómicas óbvias e a ideia (culturalmente aceite) de que cabe ao homem resolver esse assunto.

A experiência mostra-lhe que o preservativo masculino ainda é o método mais utilizado nas suas diversas formas e constituições, com uma eficácia a rondar os 85 por cento dependendo de o utilizador saber colocá-lo (nem sempre acontece). “Sem ser o melhor na prevenção da infeção por VIH quando comparado com a profilaxia pré-exposição, tem as vantagens de ser mais barato e proteger contra uma série de outras infeções sexualmente transmissíveis”, reconhece Gonçalo Lobo.

É uma pena que o preservativo feminino não tenha resultado tão bem no mercado, por razões anatómicas óbvias e a ideia de que cabe ao homem resolver esse assunto, sublinha a dermatovenereologista Jacinta Azevedo. Para todos os efeitos, nota, “trata-se de um dispositivo menos prático, embora útil para as mulheres que escolhem usar preservativo mesmo se o parceiro ou o cliente não querem fazê-lo”. Caso para dizer que em tempo de guerra não se olha a armas – e muito menos se vai para a cama sem elas.


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