Primeiro dia de aulas: manual para pais

Shot of an adorable little girl walking to school with her father

Para milhares de crianças portuguesas, amanhã é o primeiro dia do resto das suas vidas. Na creche, no pré-escolar, no primeiro ano, no quinto ano, saídos da escola básica para «a escola dos grandes». Como devem os pais agir para que este seja um dia sem dramas nem lágrimas? Perguntámos à psicóloga Rute Agulhas.
Texto de Catarina Pires | Fotografia de iStock

Deixá-los pela primeira vez ao cuidado de outras pessoas ou vê-los entrar, mochila quase maior do que eles às costas, o portão da escola traz um turbilhão de emoções. As lágrimas (nossas) são quase inevitáveis, entre a alegria e o orgulho de os ver crescer e começar uma nova fase da vida e o medo e a angústia de que tenham dificuldade em adaptar-se e sofram no processo.

A psicóloga Rute Agulhas confirma que a ansiedade das separações, sobretudo quando se trata da entrada para a creche, o pré-escolar ou o primeiro ano, é, «na esmagadora maioria das vezes, potenciada pelos pais, eles próprios ansiosos, com sentimento de perda e angústia à mistura.»

Claro que quando se trata da primeira vez que eles saem do «ninho», do ambiente familiar, porque ficaram os primeiros anos com os pais ou os avós, «os processos de adaptação à creche deverão ser graduais e aumentar de forma progressiva o tempo na creche», diz a especialista.

«Os pais devem deixar a criança, com despedidas curtas e sair. Não alimentar despedidas longas, beijos e mais beijos, abraços sem fim. Mesmo que a criança fique a protestar ou chorar, sabemos que depois fica bem», diz a psicóloga Rute Agulhas.

Mas é importantes que os pais, de acordo com a idade da criança, transmitam expectativas positivas sobre a mudança que irá surgir na sua vida. Rute Agulhas chama a atenção para a necessidade, por maior que seja a tentação, de evitar frases como: «ai, que saudades que a mamã vai ter», «ai, queria tanto que ainda fosses pequenino para ficares sempre ao pé de mim».

«Este tipo de verbalização traduz ansiedade e pode dificultar o processo de adaptação», diz, explicando que «os pais devem deixar a criança, com despedidas curtas e sair, transmitindo sempre expectativas positivas de que irá correr bem. Não alimentar despedidas longas, beijos e mais beijos, abraços sem fim. Mesmo que a criança fique a protestar ou chorar, sabemos que depois fica bem.»

Repita connosco: «mesmo que a criança fique a protestar ou chorar, sabemos que depois fica bem.» Custa, é difícil, mas tem que ser. Os pais são adultos e não podem vacilar (nem, se se der o caso – feliz – de a criança ir sem olhar para trás, ficar frustrado porque ela nem uma lágrima verteu).

O primeiro ciclo

A entrada no primeiro ano é outro marco na vida das crianças, e dos pais. De acordo com Rute Agulhas é fundamental assinalar a mudança, sempre com expectativas positivas, sem assustar a criança com frases como «agora vai deixar de ser brincadeira!», «agora tens de estar quieto e sentado o dia inteiro».

«Sabemos que assim será, mas a criança deve ir com uma expetativa positiva, as regras serão outras, é certo, mas ela saberá adaptar-se.», diz a especialista.

«Falar mal dos professores na presença da criança desautoriza os professores, questiona-se a adequação da escola e isso terá muito provavelmente impacto na forma como a criança olha o professor e também a escola.»

E chama a atenção para que – se surgirem conflitos entre pais e professores, por causa dos métodos de ensino, trabalhos para casa, avaliações, etc – estas devem ficar estritamente entre adultos.

«Falar mal dos professores na presença da criança desautoriza os professores, questiona-se a adequação da escola e isso terá muito provavelmente impacto na forma como a criança olha o professor e também a escola. Estas questões devem ser resolvidas sem envolver diretamente a criança.»

Segundo ciclo

A passagem para o 5º ano, uma escola maior, com muitas disciplinas e professores diferentes é a última grande mudança e adaptação que os miúdos fazem e lá vem novamente o nó na garganta dos pais quando os deixam no portão da escola.

Para a psicóloga Rute Agulhas, «o risco de dificuldade de adaptação será sempre maior quanto mais as mudanças forem percecionadas como ameaças, quando têm alguma carga emocional negativa, quando as expectativas são de que será muito difícil, porque agora serão muitos professores, porque agora tem de ser mais responsável com o material porque tem de mudar de sala, porque agora a exigência dos testes e provas de aferição. Se as crianças forem ajudadas a percecionar cada mudança, não como uma ameaça, mas como um desafio, será muito mais fácil a adaptação.»

«É fundamental ajudar a criança a acreditar que tem recursos, internos e externos, para lidar com as exigências que as mudanças implicam, a ser persistente e a não desistir face às adversidades»

Trata-se portanto de ajudar os miúdos a olharem esta nova etapa e tudo o que de novo implica, não como uma ameaça, mas como um desafio.

«Isso vai depender das crenças sobre si próprio, da expectativa de auto-eficácia, de variáveis do temperamento. Mas os pais desempenham aqui um importante papel. É fundamental ajudar a criança a acreditar que tem recursos, internos e externos, para lidar com as exigências que as mudanças implicam, a ser persistente e a não desistir face às adversidades», diz a especialista.

Bom primeiro dia de aulas! Bom ano letivo!