Tem a certeza que o seu filho vê bem? Estes são os sinais a que deve estar atento

Além dos danos irreversíveis, as dificuldades da visão podem afetar também a aprendizagem, integração e comportamento das crianças. Muitas vezes, o diagnóstico não é feito atempadamente, aumentando as patologias no olho.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

Ana Vide Escada, oftalmologista pediátrica na Clínica CUF Almada e no Hospital CUF Infante Santo, lembra a importância da consulta com um especialista logo no primeiro ano de vida da criança e diz quais os sinais que podem evidenciar problemas visuais.

«Aproximação excessiva de objetos ou da televisão, ter os olhos vermelhos constantemente, o piscar dos olhos e o desalinhamento dos eixos visuais» são alguns dos sintomas a que o pais devem estar especialmente atentos.

A especialista, que abordará o tema nas «I Jornadas Saúde a Sul», a realizar-se esta sexta-feira, 19, em Almada, enumera ainda quais são as patologias mais comuns entre as crianças e adolescentes. Além disso, destaca alguns comportamentos de risco das crianças e recomenda a proibição «absoluta» da utilização de um objeto como brinquedo: os ponteiros laser.

A que sinais devem os pais estar atentos para verificar se a criança tem dificuldades visuais?
Há sinais clássicos de alerta como o aproximar demasiado de objetos ou da televisão, ter os olhos vermelhos constantemente, o piscar dos olhos e o desalinhamento dos eixos visuais (chamado estrabismo), mesmo quando ocorre de maneira intermitente. Outros sinais mais subtis são as dificuldades na aquisição de competências por parte da criança ou dificuldades de aprendizagem. É importante, no entanto, realçar que, por norma, as crianças não se queixam.

«É preciso quebrar o mito de que as crianças só podem ser vistas pelo oftalmologista quando já sabem falar e conhecem as letras e números»

Quando deve uma criança consultar pela primeira vez um oftalmologista?
No plano ideal, logo durante o primeiro ano de vida. No entanto, em termos práticos, a primeira consulta de oftalmologia pediátrica não deve ultrapassar os 3/4 anos. Evidentemente, sempre que haja suspeita de problemas do foro oftalmológico ou a presença de antecedentes pessoais e familiares relevantes, há que intervir o mais cedo possível. É preciso quebrar o mito de que as crianças só podem ser vistas pelo oftalmologista quando já sabem falar e conhecem as letras e números.

Que problemas são mais comuns entre os mais jovens?
Nas idades mais precoces os problemas mais comuns são a obstrução do canal lacrimonasal e os estrabismos. As ametropias, ou seja, os erros refrativos (visão desfocada), também são bastante frequentes. Neste grupo, destaque para a hipermetropia (dificuldade em ver ao perto) e o astigmatismo (quando a imagem que se forma na retina fica distorcida) como as mais frequentes na infância. As miopias (dificuldade em ver bem ao longe) e o astigmatismo têm maior predominância na adolescência. As ametropias significativas não corrigidas podem induzir o denominado «olho preguiçoso» (tecnicamente designado como ambliopia). Menos comuns, mas mais graves são as cataratas congénitas ou o glaucoma congénito (lesão do nervo ótico) – doenças hereditárias degenerativas ou provenientes do desenvolvimento de alterações na retina.

«Os problemas de visão relevantes não tratados em idade precoce podem conduzir a uma situação irreversível de baixa visão»

Que tipo de cuidados devem ter os pais para que as crianças não esforcem demasiado a visão?
Os pais devem proporcionar às crianças uma vida equilibrada entre as atividades fora e dentro de casa, um uso racional dos equipamentos eletrónicos e consultas periódicas no oftalmologista, preferencialmente um oftalmologista pediátrico. Devem também proibir absolutamente o uso do laser ou dos ponteiros laser como brinquedo pois podem causar lesões irreversíveis na visão.

Se uma criança tiver problemas de visão e não for diagnosticada atempadamente, que consequências podem resultar daí?
Os problemas de visão relevantes não tratados em idade precoce podem conduzir a uma situação irreversível de baixa visão que condiciona não só a vida académica de criança, mas também as suas escolhas profissionais no futuro e mesmo no dia-a-dia. Isto tem um impacto para o próprio e para a família/sociedade ao longo de toda a sua vida.

Que importância tem o diagnóstico precoce?
É de extrema importância. Há que sensibilizar os pais e os clínicos, nomeadamente os médicos de saúde geral e familiar e os pediatras para que referenciem as crianças não só quando existe algum sinal de alarme ou alguma dúvida do ponto de vista oftalmológico, mas também por rotina. As ações que possam promover o intercâmbio de saberes e contribuir para um maior diálogo entre as especialidades são inestimáveis.

«O diagnóstico precoce pode, na grande maioria dos casos, conduzir à recuperação total»

A cegueira infantil continua a ser uma realidade muito presente em Portugal?
Mais do que a cegueira, qualquer perturbação no desenvolvimento visual da criança que se traduza numa perda de competências deste sentido é relevante e mais ainda se pensarmos que o diagnóstico precoce pode, na grande maioria dos casos, conduzir à recuperação total.


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