Procura um novo emprego? Saiba se é a melhor altura e como se preparar

Está na hora de mudar de emprego? Quer agarrar novos desafios mas tem medo de correr riscos? Elisabete Chaves, diretora de Recursos Humanos na Unipartner IT Services – empresa de serviços tecnológicos – explica o que procuram as empresas e quais são os principais motivos da mudança.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografias DR

Demasiado stress, salários baixos, insatisfação com a política da empresa e diferentes expectativas podem ser alguns dos fatores que o podem levar a mudar de emprego. Mas como saber se é o momento certo e se é realmente a decisão certa?

Se o desejo de mudança está relacionado com o salário talvez a melhor solução seja mesmo mudar. Em 2017, um trabalhador em Portugal que se manteve na mesma empresa registou um aumento salarial de 3,7 por cento em termos nominais (2,3 por cento em termos reais). Já os que decidiram mudar tiveram aumentos a rondar os 7,8 por cento (6,3 por cento na valorização real). O estudo do Gabinete de Estatística e Planeamento do Ministério do Trabalho, revelado no início deste ano, indica ainda que houve cerca de 200 mil pessoas a mudar de empresa.

Mas a vontade de se transferir para outra empresa pode estar relacionada com muitos outros fatores. Elisabete Chaves, diretora de Recursos Humanos na Unipartner IT Services e mestrado em Psicologia Social e das Organizações, explica à revista Life que a forma como as novas gerações olham para a sua vida profissional mudou e que o «conceito de emprego ‘para a vida’ é quase inexistente».

Para a especialista, a idade também é um fator a ter em conta. Em entrevista, Chaves esclarece o que procuram as empresas atualmente e quais as expectativas do empregador.

«A forma de olhar para um novo candidato através de um currículo varia em função da cultura da organização e do cargo»

O que acha que pode assustar mais as pessoas na altura de mudar de emprego?

Existe algum receio em relação ao desconhecido. O risco da mudança, de assumir responsabilidades maiores e desconhecidas e de perder aquilo que se tem na realidade atual, são potenciadores de alguma ansiedade.

O que procuram mais as empresas quando recebem um novo currículo?

A forma de olhar para um novo candidato através de um currículo varia em função da cultura da organização e do cargo. Caso seja uma pessoa sem experiência profissional, o destaque vai para a formação académica e experiência de vida. A entidade formadora, quanto tempo demorou a formação face ao expectável e que outras experiências valorizaram são alguns dos pontos que podem ser analisados. Caso seja um candidato a uma função experiente, é importante avaliar o percurso profissional.

«O conceito de emprego ‘para a vida’ é quase inexistente. Há menos predisposição para determinados sacrifícios»

Que dados são essenciais para uma empresa na hora de contratar?

Claramente existe cada vez um maior foco na procura de pessoas altamente especializadas e com soft skills adequados à cultura organizacional e à função. Em mercados muito focados na qualificação e especialização, como é o caso das empresas tecnológicas, determinadas capacidades técnicas são bastante valorizadas. Os idiomas são também cada vez mais abonados devido à elevada internacionalização de empresas.

O que pode (e deve) motivar alguém a abandonar o seu trabalho e procurar algo melhor?

As razões para a mudança de emprego são muito diversificadas, atualmente e nas gerações recentes, a forma de olhar para um emprego é significativamente diferente do que era em gerações anteriores. O conceito de emprego «para a vida» é quase inexistente. Há menos predisposição para determinados sacrifícios, para funções que não motivem e para organizações que não reconheçam o esforço, a dedicação e os resultados no curto prazo.

Outro fator é a idade, embora isso esteja também a mudar. É comum ouvir em pessoas de gerações mais recentes conceitos como: «agora é o momento para a mudança» ou «mesmo não tendo nenhuma razão de descontentamento, é o momento para procurar novas experiências».

Na minha perspetiva, as relações laborais – tal como as pessoais – têm sempre momentos que nos preenchem mais e momentos em que sabemos que é necessário um esforço maior para ultrapassar adversidades.

Quais são os sinais que indicam que já não está bem numa empresa?

Quando tomamos consciência de que o que corre mal é bastante mais evidente do que o que corre bem deve ser um momento de reflexão. Sou apologista de procurar ativamente as razões que levam a que as coisas não corram bem e contribuir para a melhoria e para a procura de soluções. Caso isso não seja suficiente a mudança deve ser uma opção a considerar.

Que postura deve ter a entidade patronal quando um trabalhador decide sair?

Existe uma maior «guerra» pelo talento e por assegurar que as pessoas que realmente fazem a diferença sejam motivadas a ficar. Tudo depende do que leva a pessoa a considerar sair e da forma como gere a situação. Só faz sentido fazer contrapropostas a pessoas que, por um lado, a organização quer reter e, por outro lado, têm condições de continuar motivadas na mesma organização.

Na grande maioria dos casos, não são situações lineares. Quando se conclui que a organização não tem como oferecer o que a pessoa procura, seja por questões de política, estrutura, cultura ou por qualquer outra razão, não faz sentido prolongar uma relação que será sempre desigual em termos de expectativas.

«O nível de competitividade atual no contexto organizacional motiva níveis de dedicação e esforço cada vez mais elevados»

Na maioria das vezes, quais são os motivos dos despedimentos? Descontentamento com a empresa, salários, novos projetos?

Há várias razões. As mais comuns prendem-se com novos desafios, associados a novas responsabilidades, experiências ou com empresas com características diferentes. Ou até mesmo com mudanças de vida para projetos pessoais.

O que se pode ainda fazer para melhorar a vida dos colaboradores nas empresas?

Há um longo percurso a fazer pelas empresas para melhorar os temas mais críticos na relação entre empregador e colaborador. Um dos temas mais críticos é o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

O nível de competitividade atual no contexto organizacional motiva níveis de dedicação e esforço cada vez mais elevados, pelo que é fundamental que as empresas adotem estratégias que permitam aos seus colaboradores equilibrar este esforço com o tempo que dedicam à sua vida pessoal e familiar.

Como podem as empresas fazer isso?

Os programas de «work-life balance» têm mecanismos de flexibilidade, nomeadamente relativa ao horário e ao local de trabalho, no que respeita ao gozo de férias e às dispensas para situações pessoais, entre outras. Na Unipartner, por exemplo, promovemos o conceito de máxima liberdade e máxima responsabilidade com um foco nos objetivos e não em critérios já desadequados da realidade atual como a assiduidade e pontualidade. Isto não significa que não valorizamos a chegada a horas às reuniões, mas que cada um de nós tem de gerir o seu tempo.

Outra forma está relacionada com os mecanismos de reconhecimento e feedback. Culturalmente ainda estamos num processo de aprendizagem no que diz respeito a reconhecer os sucessos e a celebrá-los.