Protetores solares vs. bronzeadores. São mesmo eternos rivais?

Fala-se em bronzear e proteger do sol e é como se uma linha muito definida se traçasse na nossa mente, a avisar-nos de que não podemos ter tudo: ou tostamos a sério, como nos apetece, ou protegemos a pele e nos resignamos a ficar uns tons abaixo do pretendido. Será que andámos enganados neste tempo todo?

Texto de Ana Pago

Toda a gente sabe que torrar na praia é um perigo, nem pensar em não proteger a pele, o sol leva-nos o couro e o cabelo se deixarmos (muito literalmente). Também ninguém quer voltar ao trabalho com a cor de lula que tinha antes de ir de férias, pelo que há umas quantas questões que continuam a impor-se, 75 anos depois de se ter criado o protetor solar: afinal, como se consegue aquela cor de canela moída que muitos desejam e poucos alcançam? Qual a melhor proteção? E bronzeadores: sim ou nunca?

Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo já veio alertar para um aumento generalizado dos cancros de pele, ano após ano, e estima em 12 mil os novos casos surgidos em Portugal só em 2017

“A primeira regra que importa fixar é a de que ninguém pode ir para a praia, para a piscina ou onde quer que esteja exposto ao sol sem proteção solar”, diz Paulo Ferreira, dermatologista do hospital CUF Descobertas, sublinhando que o protetor é uma parte crucial, mas não a totalidade desta proteção: “Tão imprescindível como aplicá-lo da maneira correta é seguir os princípios comportamentais básicos de se usar guarda-sol, chapéu ou boné com palas e abas para resguardar a cabeça, óculos escuros, roupa fresca e leve, manter a hidratação do corpo, fugir ao período crítico entre as 11.30 e as 16.00 (o temível horário vermelho) e nunca facilitar”, aponta.

Tudo porque conseguir um bronzeado saudável, bonito e duradouro – de preferência por esta ordem – é um processo progressivo, de paciência e muitos cuidados. Não pode ser apressado quando a Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo já veio alertar para um aumento generalizado dos cancros de pele, ano após ano, e estima em 12 mil os novos casos surgidos em Portugal só em 2017 (dos quais mil são melanomas, considerado o tipo mais perigoso).

Um outro estudo levado a cabo no Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis), no Porto, publicado no jornal científico Cancer Epidemiology, concluiu que em cinco anos se registou cerca de 90 mil cancros de pele nos hospitais públicos, um número alarmante. O facto de a exposição excessiva ao sol ser responsável por 80% dos casos, e de os melanomas se desenvolverem essencialmente a partir de escaldões e lesões cutâneas afins, justifica uma maior aposta em estratégias de prevenção.

O ideal é que se renove este procedimento a cada duas horas, já que o creme vai saindo com a água, a transpiração, a toalha, o vestuário e a areia”

“Aqui temos de voltar de novo ao protetor, é incontornável”, confirma o dermatologista Paulo Ferreira, aconselhando a aplicação de “doses generosas” antes de sair de casa: uma no braço, no pescoço e no rosto, duas na barriga, em cada uma das pernas e nas costas (para os que não chegam sozinhos, percam a vergonha e peçam ajuda). Sem esquecer, claro, as zonas mais ignoradas do corpo em matéria de queimaduras solares: pés, tornozelos, mãos, axilas, nariz, lábios, couro cabeludo, orelhas, decote e linha do fato de banho.

“O ideal é que se renove este procedimento a cada duas horas, já que o creme vai saindo com a água, a transpiração, a toalha, o vestuário e a areia”, reforça o especialista da CUF Descobertas, para quem todos os cuidados com a pele são poucos: “Protetores não impedem o bronze mas diminuem o risco de cancro de pele, enquanto os bronzeadores per se não protegem da radiação solar”, diz. Em suma: se insistir em ficar moreno deve untar-se de protetor e só depois de bronzeador ou, em alternativa, escolher um protetor que contenha elementos bronzeadores. “Sem proteção é que nada feito.”

E qual é, afinal, o segredo para um bronzeado fabuloso? Esta noção varia de pessoa para pessoa e implica que nunca – nisso os especialistas são unânimes – se chegue ao escaldão. Segundo o dermatologista Tiago Torres, o primeiro passo é saber que tipo de protetor aplicar: “Há os chamados químicos, que atuam meia hora depois de aplicados e absorvem a radiação ultravioleta, e os físicos ou minerais, ótimos para as crianças, que a refletem totalmente inibindo o bronzeado”, explica o investigador das doenças inflamatórias da pele e responsável pela Unidade de Dermatologia do Instituto Médico de Estudos Imunológicos, no Porto.

Isto não significa que a pessoa fique em casa nas férias, fechada, sem ganhar umas cores. Não vê sequer inconveniente em que use bronzeador desde que garanta a proteção solar. “Apesar de a escolha do fator depender do tipo de pele e da exposição, nunca deve ser inferior a 30”, esclarece Tiago Torres. Se os dermatologistas costumam aconselhar o 50, deve-se ao mau hábito que temos de aplicar o creme em doses inferiores às recomendadas. “No fundo, ninguém faz aquela proteção máxima. Então sugerimos o fator 50 para haver, pelo menos, uma proteção razoável.”

E, sim, tempos houve em que os antigos gregos se besuntavam de óleo de azeitona para enfrentar o sol (algures entre o século XII a.C. e o ano 600 d.C.), convictos de que a pele, assim, não iria fritar como uma batata. O início do século XX foi marcado por várias tentativas de conceber filtros solares efetivos, capazes de absorver raios ultravioleta de alta energia e libertá-los como raios de baixa energia, que não lesassem a pele.

Em 1944, decidido a aliviar os soldados da Segunda Guerra Mundial das queimaduras do sol em batalha, o farmacêutico Benjamin Greene criava finalmente o primeiro protetor de que reza a história, denso e à base de petróleo, que testou na própria careca com resultados aquém dos atuais. Foi, no entanto, um começo. Graças a ele, a oferta é hoje inesgotável, com composições que protegem a pele dos raios ultravioleta e texturas adaptadas a quaisquer necessidades de quem os utiliza. Em teoria, todos nós.

Protetores solares têm prazo de validade. Por isso, aproveitar o que sobrou do ano anterior pode não ter mal, mas a maioria dos especialistas desaconselha a prática.

Protetores

São um conjunto de moléculas e filtros e, ao contrário do que muita gente pensa, não impedem a pessoa de se bronzear. Servem, sim, para protegê-la da exposição excessiva ao sol e evitar queimaduras (escaldões) que aumentam os riscos de cancro e outros problemas graves de pele. Se insistir no bronzeador, deve pôr sempre protetor em primeiro lugar ou então escolher um protetor que contenha elementos bronzeadores.

Protetores solares têm prazo de validade. Por isso, aproveitar o que sobrou do ano anterior pode não ter mal, mas a maioria dos especialistas desaconselha a prática. Na dúvida, mais vale usar produtos novos todos os anos.

O fator de proteção solar nunca deve ser inferior a 30, apesar de depender do tipo de pele e da exposição ao sol. Os dermatologistas aconselham o uso de fator 50 para compensar o mau hábito que todos temos de aplicar o protetor em doses inferiores às recomendadas.

Bronzeadores

Reagindo aos efeitos dos raios UVA e UVB, a pele produz mais melanina para escurecer e criar uma autoproteção natural. O bronzeado que tanto valorizamos não é mais do que a pele a tentar impedir a passagem de radiação solar em excesso.

Com vista a aumentar o potencial do bronze, foi inventado um produto (bronzeador) à base de tirosina, que acelera a produção natural de melanina até nas peles claras. Ainda assim, estas continuam a ter menos melanina do que as peles escuras e, como tal, a estar particularmente sujeitas a mais queimaduras e lesões num menor tempo de exposição ao sol.

Bronzeadores são permitidos a todos os tipos de pele desde que a proteção – e este ponto é fulcral – seja devidamente assegurada pelos protetores solares. Atualmente, muitos autobronzeadores já têm índices de proteção solar incorporados, tal como existem protetores solares dotados de elementos bronzeadores na sua composição.

 


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