Alergias alimentares: quando a comida pode matar

Têm em comum o facto de lhes ter sido diagnosticada uma alergia alimentar que, em certos casos, pode ser muito grave ou fatal. Leonor, João, Tiago, Rodrigo, Alexandre e Mariana tiveram de aprender a viver com algumas restrições e cuidados, com uma vigilância permanente do que comem, uma restrição absoluta das proteínas a que são alérgicos e um kit de emergência que não podem esquecer-se de levar consigo.

Texto de Cláudia Pinto | Fotografia de António Pedro Santos

Com a farda do colégio e a mochila cor-de-rosa que não larga nem por um segundo, Leonor Pousinho, de nove anos, tem um sorriso tímido mas contagiante e sardas salientes. Sempre que vai ao supermercado com os pais, Catarina Pereira e João Pousinho, e o irmão de quatro anos, a rotina é mandatória. Há que procurar umas luvas ou, à falta delas, sacos de plástico para envolver as mãos.

Leonor tem uma alergia alimentar com anafilaxia [uma reação exagerada do sistema imunitário contra algumas proteínas dos alimentos, de rápida progressão, que pode levar à morte em poucos minutos] ao ananás e ao kiwi. E não precisa de comê-los. Basta ingerir alimentos que tenham estado em contacto com estes dois frutos, que são totalmente proibidos na sua vida.

O diagnóstico veio aos dois anos e meio, durante umas férias no Algarve, depois de um jantar buffet em que a carne tinha um molho com ananás. «Nem sequer chegou a mastigar. Conforme contactou com o molho, revirou os olhos, teve três espasmos e entrou em choque anafilático. A nossa sorte foi estar num hotel frente ao Hospital Particular do Algarve / Alvor. Só tivemos de atravessar a estrada, e foi essa proximidade que salvou a nossa filha», recorda Catarina Pereira.

A mochila que Leonor não larga contém a medicação SOS a fazer em caso de choque anafilático, um kit de emergência com anti-histamínico e corticoide (ambos de toma oral) e um dispositivo autoinjetor de adrenalina.

A mãe não tem dúvidas: «Além do choque, este episódio foi um ponto de viragem na nossa vida.» De regresso a Lisboa, e depois de alguns exames complementares de diagnóstico, os pais ficaram a saber que os dias nunca mais seriam como até àquele momento.

«Mantemos a Leonor em máxima vigilância, e desde muito cedo que ouviu falar de morte. Tentámos sempre protegê-la, mas acabámos por fazê-lo em exagero, o que lhe trouxe muitos problemas. Lembro-me de que ela se encolhia muito e olhava para nós a pedir autorização sempre que alguém se aproximava para cumprimentá-la», explica a mãe.

Leonor sente-se uma menina como tantas outras, sabe que tem um problema, mas não se acha diferente. A mochila que não larga contém a medicação SOS a fazer em caso de choque anafilático, um kit de emergência com anti-histamínico e corticoide (ambos de toma oral) e um dispositivo autoinjetor de adrenalina [vulgarmente chamado caneta de adrenalina]. Da parte de fora, é possível ler uma espécie de «guias» criados pelo pai, designer de profissão, que ajudam os outros a saber como atuar em caso de emergência.

Duas a três vezes por ano, Leonor e o irmão João têm uma consulta de rotina de imunoalergologia. O mais novo é alérgico à proteína do peixe [o diagnóstico foi feito quando tinha ano e meio]. Cada um deles tem duas canetas de adrenalina, estando uma em casa e a outra nos colégios respetivos, onde Catarina se disponibiliza regularmente para dar formação aos funcionários sobre a sua utilização em caso de anafilaxia.

As alergias alimentares têm vindo a aumentar nas últimas décadas a nível mundial, estimando-se que atinjam cerca de 2% da população em geral, afetando sobretudo a faixa etária pediátrica.

Nas festas de aniversário, por norma, a mãe acompanha Leonor para garantir que está em segurança. «Não há festas sem os pais presentes. Simplesmente não acontece. Os meninos até perguntam porque é que os pais da Leonor a acompanham sempre. Somos os verdadeiros “emplastros”. Sinto que a Leonor nunca está perfeitamente à vontade, não tem aquele espaço de liberdade para fazer o que bem lhe apetece. É ridículo, mas efetivamente não posso perdê-la de vista nem dar-lhe a distância necessária», explica Catarina.

Relativamente às férias, só este ano ganharam a coragem de viajar para o estrangeiro, em março último, para comemoração do aniversário de Leonor. «Fomos à Disneyland Paris e ela adorou. Normalmente, andamos sempre os quatro. É muito raro deixarmos a nossa filha com alguém, e há nove anos que não sabemos o que é um fim de semana em casal», sublinha.

Anafilaxia alimentar

Em Portugal, segundo Ângela Gaspar, especialista em imunoalergologia, estes são os alimentos mais frequentemente implicados na anafilaxia alimentar.

As alergias alimentares têm vindo a aumentar nas últimas décadas a nível mundial, estimando-se que atinjam cerca de 2% da população em geral, afetando sobretudo a faixa etária pediátrica.

«Dados nacionais revelam que 5 a 10% das crianças sofrem de alergia alimentar», explica Ângela Gaspar, especialista em imunoalergologia do Centro de Alergia do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa, e coordenadora do Grupo de Interesse de Anafilaxia e Doenças Imunoalérgicas Fatais, da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

«Sempre souberam que não podiam comer nem tocar naquilo a que eram alérgicos. Caso não estivéssemos por perto, tinham a responsabilidade de se informarem sobre os ingredientes dos produtos ou alimentos que iam comer e/ou que lhes oferecessem.»

Com poucos meses de vida, durante um internamento hospitalar que anteciparia uma cirurgia, Tiago Palma teve um choque anafilático com a toma de leite. Foram de imediato realizados alguns exames que viriam a diagnosticar alergia às proteínas do leite de vaca e à clara do ovo [que foi superada aos sete anos].

Na altura, o desafio era procurar alternativas, como o leite de soja. «A oferta não era muita nem comparável com a que existe hoje», conta a mãe, Aida Palma. Neste momento, já tolera as proteínas do leite e está numa fase de dessensibilização, depois de lhe ter sido proposto um protocolo de indução de tolerância ao leite.

O irmão Rodrigo, de 13 anos, também é doente alérgico. Tinha quase um ano quando a mãe lhe deu a provar arroz de peixe num almoço. «Nem passou um minuto até que começasse a respirar mal e a vomitar tudo», lembra Aida. Só houve tempo para agarrar o menino nos braços e «voar» até ao Hospital de Cascais. «Os médicos perceberam o que se estava a passar e trataram de imediato do meu filho», conta.

Os irmãos tiveram consciência do problema desde muito cedo. Aida nunca lhes mentiu. «Sempre souberam que não podiam comer nem tocar naquilo a que eram alérgicos. Caso não estivéssemos por perto, tinham a responsabilidade de se informarem sobre os ingredientes dos produtos ou alimentos que iam comer e/ou que lhes oferecessem.»

«Tenho de separar tudo. Se confeciono peixe, não posso correr o risco de colocar em contacto um garfo ou outro talher na carne que faço para o Rodrigo.»

O irmão mais novo chegou a ter de fazer as refeições escolares numa mesa à parte dos colegas, para própria segurança, nos dias em que se confecionava peixe. «Não me importava nem me sentia sozinho. Sabia que era necessário e que, depois da refeição, voltava a brincar com os meus colegas», conta. O mesmo acontece em casa. Rodrigo pode ter uma reação por inalação aos vapores do peixe.

A mãe explica-nos a logística. «Quando cozinho, abro a janela, e ele sabe que não pode entrar na cozinha. O prato só é colocado na mesa quando já não deita qualquer vapor, e, ainda assim, não come à mesa connosco nesse dia.» Os cuidados são extensíveis aos utensílios que utiliza. «Tenho de separar tudo. Se confeciono peixe, não posso correr o risco de colocar em contacto um garfo ou outro talher na carne que faço para o Rodrigo. Em caso de dúvida, coloco o que usei para lavar e vou buscar outro.»

O rapaz tem também alergia grave ao ovo e ao amendoim. Aida lembra o dia em que, num restaurante, o funcionário trouxe por engano um bitoque com ovo. Teve de pedir para cozinhar outro, sem o alimento proibido, uma vez que este já tinha estado em contacto com o que o filho ia comer. «E não confio. Deixo o prato ali até me trazerem um novo», garante.

As reações de alergia alimentar surgem habitualmente após a ingestão do alimento, mas vão muito além disso. «Em doentes mais sensíveis, apenas a inalação ou o contacto cutâneo com o alimento podem desencadear os sintomas.

O lema da família é «não vacilar». Tiago sentiu desde cedo o peso da responsabilidade. «Vivi sempre bem com isto e senti que tinha de cuidar do meu irmão», diz. Nas festas de aniversário da escola, não podia comer os bolos dos colegas. «Sentia-me um pouco desiludido, mas sabia que se não queria morrer, não podia comer certas coisas. Acabei por dar a volta à situação da melhor forma.» O irmão Rodrigo confiou sempre nos familiares para o ajudarem. «Os meus pais, avós e tios sempre foram “o meu dicionário alimentar”. Sempre me ajudaram a esclarecer dúvidas», explica.

Aida é perentória: «Se não sabem os ingredientes ou não há forma de terem acesso a essa informação, não comem. Temos de estar sempre atentos, porque não pode haver margem para fazer experiências. Da mesma forma que a médica me transmitiu a gravidade, sempre disse aos meus filhos que um pequeno deslize podia ser fatal.»

É importante realçar que, nos doentes mais graves, com anafilaxia alimentar, vestígios deste alimento podem ser suficientes para desencadear a morte.

As reações de alergia alimentar surgem habitualmente após a ingestão do alimento, mas vão muito além disso. «Em doentes mais sensíveis, e particularmente para determinados alimentos (com mais frequência, peixe e marisco), apenas a inalação (vapores de cozedura) ou o contacto cutâneo com o alimento podem desencadear os sintomas.

É importante realçar que, nos doentes mais graves, com anafilaxia alimentar, vestígios deste alimento podem ser suficientes para desencadear a morte. A ingestão acidental inadvertida pode ocorrer por contaminação durante o processamento industrial ou a preparação de outros alimentos, por exemplo, na restauração ou na escola», alerta a imunoalergologista Ângela Gaspar.

Sara Ferreira tem 33 anos e foi mãe do primeiro filho há dois. Um mês depois do nascimento de Alexandre, e ao perceber que este não estava a ganhar peso, procurou ajuda médica. Depois de tentar dar-lhe suplemento de leite e perante o inchaço nos olhos e o aparecimento de manchas na pele, o bebé teve de submeter-se a alguns exames. Ficou a saber que o motivo da rejeição era afinal uma alergia alimentar às proteínas do leite de vaca. Alexandre tem também alergia à clara do ovo.

A rotina desta mãe é semelhante à dos outros pais. Alexandre toma medicação diariamente, tem o seu kit e plano de emergência, as refeições em família foram adaptadas e as idas a restaurantes são agora menos frequentes. «Não arrisco. Caso vá, levo sempre a sopa dele. Não lhe dou comida confecionada fora de casa», explica.

Apesar de ser mais frequente em crianças, a alergia alimentar pode surgir em qualquer fase da vida, mesmo em idade adulta e sem queixas prévias relacionadas com determinado alimento.

Alexandre entrou em setembro do ano passado na creche. Desde janeiro deste ano, a mãe já passou por alguns sustos. Alexandre teve três choques anafiláticos, dois deles na escola, por ingestão acidental de iogurte e queijo, e um com a empregada, por ter comido cereais integrais com vestígios de leite.

«São situações que podem acontecer. Sou crédula e quero acreditar que a escola assegura todos os cuidados possíveis. A minha empregada é uma das pessoas em quem mais confio para ficar com o meu filho. Se aconteceu com ela, assumo que ninguém possa garantir que isto não suceda. É muito difícil lidar com isto, mas, se não confiar, nem consigo sair de casa», defende.

Catarina e João passaram por uma fase semelhante relativamente a Leonor: «Chegámos a ponderar adiar ao máximo a entrada na escola, mas percebemos que não podemos tê-la numa redoma», explica a mãe.

Nas festas dos colegas da creche do Alexandre, Sara fica agradavelmente surpreendida quando algumas mães têm o cuidado de confecionar bolos ou cupcakes específicos para o filho. «No Natal passado, a minha irmã também preparou um arroz-doce especial. Ele não gostou, mas valeu a intenção. Acho admirável que alguém tenha este trabalho de tentar arranjar alternativas», defende.

Mesmo assim, Sara sente que ainda há muita falta de informação sobre a gravidade das alergias alimentares. «Qualquer pessoa pode vir a ter um filho com este problema. Julgo que devem procurar saber o que é a anafilaxia. Relativamente aos bolos de aniversário na escola, sugiro aos pais que tentem perceber se algum colega dos filhos tem uma alergia alimentar e se não pode comer algo, para avisarem com antecedência e os mesmos terem tempo de preparar outra opção», afirma.

O mesmo alerta vai para a comunidade escolar: «Se sabem que existem meninos com esta contingência, esta informação deve partir da escola. Assim, eles não se sentem tão à parte e também podem usufruir mais das festas.»

Apesar de ser mais frequente em crianças, a alergia alimentar pode surgir em qualquer fase da vida, mesmo em idade adulta e sem queixas prévias relacionadas com determinado alimento. «Mas, a partir do momento em que a pessoa se sensibiliza ao mesmo, os sintomas são reprodutíveis, ou seja, sempre que ocorre ingestão, há uma consequente reação alérgica», explica Ângela Gaspar.

Alergia às proteínas transportadoras de lípidos (LTP) é «uma das formas mais frequentes de alergia alimentar e anafilaxia em idade adulta na área Mediterrânea», explica Ângela Gaspar.

Mariana Pereira, de 36 anos, teve várias crises em criança, mas o diagnóstico só chegou em 2015. A primeira anafilaxia aconteceu aos 11, durante umas férias no Brasil. Seguiram-se outras sem causa aparente. Cedo percebeu que o problema estaria na casca da maçã, mas cresceu com a ideia de que a fruta que comia poderia conter alguns pesticidas que originavam essas reações, argumento defendido pelo seu médico pediatra.

Aos 25 anos, foi contratada para trabalhar na área de biologia em Davis, na Califórnia, onde acabou por ficar a viver seis anos. Voltou a ter choques anafiláticos com sucessivas idas ao hospital. Apesar da realização de vários testes cutâneos e exames de diagnóstico completos, continuava com o resultado de «anafilaxia sem causa específica», conta.

De regresso a Portugal, há três anos, Mariana teve uma crise após ingestão de feijão-verde e dirigiu-se ao Hospital CUF Descobertas. «Fui reencaminhada para a consulta de imunoalergologia e, pela primeira vez, uma médica olhou para mim e não achou que eu era exagerada ou que estava louca.» Os próprios amigos, durante a sua adolescência, conotavam-na como hipocondríaca e não a levavam a sério.

Mariana saiu da consulta com uma lista de alimentos ou ingredientes proibidos: pêssego, alperce, nectarina, casca de maçã, casca de pera, milho, feijão-verde, amendoim, avelã, entre outros. «Foi um alívio saber o que podia ou não comer e saber o que tinha», diz.

O diagnóstico viria então mais tarde: alergia às proteínas transportadoras de lípidos (LTP), «uma das formas mais frequentes de alergia alimentar e anafilaxia em idade adulta na área Mediterrânea», explica Ângela Gaspar.

«Somos os “maluquinhos” dos rótulos, lemos toda a informação exaustivamente. Acabamos também por escolher aquilo que já conhecemos bem.»

A partir do momento em que encontrou uma causa para a sua doença, Mariana percebeu o que a mesma implicava. «A médica explicou-me que o resultado da minha alergia alimentar era apenas um se não fosse tratada: a morte.» Assim, sem rodeios. Por isso, o seu kit de emergência acompanha-a aonde quer que vá.

Mariana teve de aprender a lidar com o seu problema. «Depois de comprar maçãs, descasco, corto e congelo. Evito supermercados convencionais e opto por frutarias do bairro ou mercados. Também não compro produtos sem verificar minuciosamente todos os rótulos», explica.

Há também a tendência de escolher as opções alimentares em que se tenha a certeza de que não põem o alérgico em perigo. «Somos os “maluquinhos” dos rótulos, lemos toda a informação exaustivamente. Acabamos também por escolher aquilo que já conhecemos bem. Só para dar um exemplo, um sumo 100% laranja pode ter ananás na composição», conta Catarina.

O tratamento das alergias alimentares baseia-se em dieta com restrição absoluta do alimento indicado, mas também na ativação do plano de emergência caso ocorra uma ingestão acidental. «A educação envolve não só o próprio doente como todos os cuidadores e conviventes, e, num plano mais lato, os intervenientes na preparação dos alimentos», explica Ângela Gaspar.

Além dos familiares, todos aqueles que contactam diariamente com a criança ou com o doente com alergia alimentar grave devem ter conhecimento da sua alergia e estar familiarizados com o plano de emergência, incluindo a «caneta» de adrenalina.

Outras medidas preventivas são recomendadas. «O desconhecimento dos doentes, dos familiares e da sociedade em geral sobre este tema pode colocar em risco a vida dos alérgicos. Por exemplo, dar um bolo que contém vestígios de leite a uma criança alérgica ao leite pode ser muito perigoso. Muitas vezes, estes quadros graves são desencadeados por alimentos que aparecem escondidos na alimentação (alergénios ocultos)», acrescenta a médica.

Leonor não tem curiosidade de provar ananás e kiwi. «A minha melhor amiga não gosta e acabo por andar sempre perto dela no colégio. Até já me disseram que o sabor não é bom.» Não tem dúvidas ao afirmar que gostava que a mãe a acompanhasse menos vezes às festas de aniversário. «Gostava de me sentir mais solta», partilha.

Rodrigo tem uma conquista pessoal em mente e assume-se capaz de esperar. «Sou paciente. Um dia, gostava de comer um pastel de nata, pães de leite e croissants…», diz.

Mariana deposita a esperança de ser elegível para a toma de uma vacina que se tem revelado «eficaz e segura», segundo Ângela Gaspar, e que pode levá-la a tolerar aquilo a que é alérgica.

Até lá, sabem que não podem arriscar nem dar tréguas às suas alergias.

Atitudes que salvam vidas

A médica Ângela Gaspar acompanha diariamente casos de doentes alérgicos que podem estar em risco de vida em poucos minutos e deixa alguns conselhos que devem integrar a rotina dos doentes e seus familiares.

  • Leia cuidadosamente os rótulos de todos os alimentos. Não saber todos os ingredientes pode ser grave ou mesmo fatal.
  • Na restauração, antes de comer, pergunte sempre a composição dos alimentos que vai consumir, embalados ou confecionados, e informe sobre aquilo a que é alérgico. Bons profissionais da restauração irão perceber as dificuldades e ajudar nos esclarecimentos, mas, na dúvida, não arrisque.
  • Nas cadeias de fast-food, há diferenças regionais, pelo que um produto tido como seguro num país pode não o ser noutro.
  • Além dos ingredientes utilizados é necessário ter em conta os alergénios ocultos e a «contaminação cruzada», por exemplo, a refeição pode ter sido preparada com utensílios previamente contaminados. Em alguns doentes, pode haver reação grave ou mesmo fatal com pequenas quantidades (vestígios).
  • Na escola, todos os cuidados têm de ser redobrados à hora das refeições. A comida dos alérgicos deve ser preparada em primeiro lugar, para evitar contaminações, e quem cozinha deve lavar corretamente as mãos.
  • Em certos casos, pode ser necessário que a criança alérgica tome a sua refeição numa sala ou numa mesa em separado.
  • A formação dos profissionais, ao nível da restauração e da escola, sobre alergia alimentar deveria incluir a utilização do dispositivo autoinjetor de adrenalina.
  • Os doentes/cuidadores devem ter sempre consigo o plano de emergência escrito, que deve ser preenchido com os dados de identificação da criança ou do doente, o contacto de emergência dos pais, cuidadores e/ou pessoa de referência, bem como do médico assistente, a identificação clara da alergia alimentar e dos alergénios a evitar e o nome dos medicamentos que compõem o kit de emergência.
  • Nunca oferecer alimentos a uma criança sem ter a certeza de que não estará a pô-la em risco.

Pulseiras para crianças
com alergias alimentares

Mónica Albuquerque tem um filho de dois anos com alergia alimentar à proteína do leite de vaca diagnosticada aos sete meses. À medida que o problema alimentar ia sendo resolvido em casa, com as substituições necessárias e a respetiva adaptação de Manuel, era preciso dar a conhecer o problema na comunidade.

Para a mãe de 35 anos, que também é empreendedora e fundadora da marca Maria do Mar, era urgente procurar soluções para as escolas, as tardes de verão na praia e os lanches no parque. «Percebemos que não seria possível controlar todas as pessoas à volta, e foi então que conhecemos a AllerMates, uma empresa criada por uma mãe que também tem um filho com o mesmo problema», conta.

É através da mesma que Mónica vai trazer, para Portugal, pulseiras que identificam rapidamente as crianças com alergias alimentares. «Vamos criar uma campanha para informar e sensibilizar as pessoas de que não podem oferecer alimentos a crianças que tenham estas pulseiras, e que, se o fizerem, estarão a colocá-las em risco.»

Desenhadas para crianças maiores de três anos, de cor amarela com uma cruz em vermelho e custam nove euros. Para setembro, está previsto o lançamento de quatro amuletos com o nome das alergias alimentares mais comuns em crianças, que podem ajustar-se consoante os casos, para tornar esta identificação ainda mais clara.

Pela sensibilização da sociedade

Criada em maio de 2013, a Alimenta conta com 70 associados que têm acesso a atividades específicas de formação, grupos de partilha e aconselhamento nutricional personalizado.

Nascida da vontade e da necessidade de um conjunto de doentes e seus familiares em prol da sensibilização para as doenças do foro da alergia e das intolerâncias alimentares, pretende estabelecer, no futuro, «parcerias comerciais e institucionais relevantes para quem seja alérgico ou intolerante a algum alimento», explica Marlene Pequenão, vice-presidente da associação, mãe de um menino com alergia à proteína do leite de vaca.

«Existe muito desconhecimento relativo a estas condições de saúde, sem dúvida, o que dificulta bastante a transmissão das mensagens-chave junto dos vários interlocutores de quem sofre de alergia alimentar», lamenta a responsável.

A Alimenta assinou recentemente um protocolo com a Junta de Freguesia do Lumiar com vista à instalação de uma sede, num espaço denominado «Casas da Cidadania». «Em breve, teremos também um espaço físico, que nos permitirá estar mais perto dos nossos associados e da comunidade em geral», conta a vice-presidente. Para já, quem desejar contactar a associação pode fazê-lo através de e-mail ou do formulário disponível no website da Alimenta.