Quando alguém morre apenas para nós

Esta é uma crónica triste, sobre perda e morte, mas em vida.

Quem é que nunca perdeu alguém? Ninguém. Todos nós já perdemos alguém, em algum momento da nossa vida. Perdemos amigos, namorados, amantes, pais, filhos, irmãos, avós e tantas outras pessoas que não cabem aqui numa única frase. Perder faz parte da vida e, talvez por isso mesmo, devia ser mais fácil lidar com a perda. Mas não é.

Existem as perdas mais suaves, aquelas que facilmente aceitamos e em que seguimos em frente com tranquilidade. São perdas de pessoas pouco importantes na nossa vida, que estiveram lá, sim, mas não fizeram grande diferença. Não nos cativaram o suficiente, como diria o Principezinho. Ainda assim, estas perdas ensinam-nos a lidar com as mudanças e, também, a distinguir quem é realmente importante de quem não o é. E não será esta uma aprendizagem tão relevante?

Depois existem as perdas um pouco mais dolorosas, que ferem e magoam. Tiram-nos o sono e o apetite, o brilho nos olhos e a vontade de seguir em frente. Fazem-nos questionar a vida e o sentido das coisas. Choramos, com lágrimas ou sem elas. E durante algum tempo flutuamos ao longo dos dias, que passam apenas porque sim, porque assim tem de ser. Mas o tempo passa e tudo ameniza. Olhamos tantas vezes para trás e percebemos o quanto sofremos pela perda de alguém que, agora, não nos faz mais falta. Relativizamos a dimensão destas perdas e prosseguimos destemidos, carregando as aprendizagens próprias de quem atravessa caminhos cheios de pedras.

Por fim, existem as perdas duras e espinhosas que se cravam em nós e na nossa memória, sem dó nem piedade, e que teimam em não passar. São duras, magoam e resistem à passagem do tempo. Os anos passam e parece que foi ontem, hoje, agora mesmo…

Como lidar com estas perdas? Como aprender a lidar com a morte em vida?

Não existem receitas fáceis nem difíceis porque, simplesmente, não existem receitas. Cada um terá de encontrar dentro de si os recursos necessários para a elaboração destas perdas. Recursos como a auto-estima, a resiliência, a capacidade em pensar de forma positiva e sem distorções. Tentando olhar para a realidade de uma forma racional e, quem sabe, encontrar vantagens nas desvantagens.

Também os recursos externos são fundamentais, como a rede de apoio social. Identificar as pessoas que nos estão próximas e com quem podemos contar, seja numa perspectiva de lazer e convívio, seja como suporte emocional.

Por fim, mas não menos importante, cuidar de nós. Quando foi a última vez que se mimou, que se permitiu descansar, passear ou, simplesmente, não fazer nada?

Pessoas importantes podem morrer apenas para nós. Cabe-nos a nós aprender a viver com estas mortes.