Quando as máscaras caem

O Carnaval está à porta e a questão das máscaras e fantasias ganha novamente forma. Uns mascaram-se e adornam-se com adereços vários, desde as plumas às caraças (ainda é assim que se chamam?), dos fatos às espadas… outros detestam esta época do ano, as serpentinas, os apitos e as cabeleiras. Uns imitam outros povos e morrem de frio, semi-nus e a fazer de conta que sabem sambar… outros fazem um Carnaval à portuguesa, recheado de comes e bebes e bonecos satíricos. E fingem que sabem sambar.

Penso que esta época do ano (que detesto, já agora) nos faz também equacionar se não andamos, afinal de contas, mascarados durante o ano inteiro. Ou em boa parte do tempo. E será que andamos e nem damos conta?

No trabalho, com a família ou com os amigos, a verdade é que, muitas vezes, fingimos. Fingimos o que queremos ou não queremos, o que pensamos ou sentimos. Pior, fingimos quem somos e quem não somos.

Dizemos “sim” tantas vezes quando, em boa verdade, queríamos dizer “não”. Mas temos receio de magoar, de desiludir, de perder o outro ou de ficar a perder. Somos perfeccionistas e precisamos de sentir o controlo. Ou somos submissos e não conseguimos confrontar o outro, baixamos a cabeça e seguimos em frente. Como podemos.

Dizemos “não” tantas vezes, quando gostaríamos de dizer “sim”. Mas temos medo de ser mal-entendidos ou intrusivos. Perdemos oportunidades únicas que gostaríamos de ter agarrado, mas temos medo de arriscar, medo do desconhecido e das mudanças. Preferimos a segurança e a previsibilidade do que já conhecemos.

E nas relações amorosas, será que também fingimos?

Sim, fingimos. Numa primeira fase, atribuímos a culpa ao facto de ser algo recente e por isso, querermos mostrar o melhor de nós. Sorrimos quando algo nos desagrada e permanecemos em silêncio quando nos apetece gritar. Exacerbamos as nossas qualidades e tentamos esconder os nossos defeitos. Na fase da paixão também ficamos meio cegos, é verdade, e esta cegueira mútua ajuda a não ver o que escondem as máscaras do outro.

Após algum tempo, finda esta fase inicial de deslumbramento e sedução, as máscaras começam a cair. Lentamente e sem querer, é certo, começamos a mostrar a nossa face oculta. Aquela zona escondida começa a iluminar-se e, quando damos conta, todos nós estamos expostos. Com os nossos podres, fragilidades, defeitos e limitações. Pode surgir a desilusão e questionamo-nos sobre se vale a pena.

Muitas vezes vale a pena, e ainda bem. Reconhecemos que não somos perfeitos e aceitamos essa imperfeição, tal como aceitamos a imperfeição do outro. E com estas imperfeições segue-se em frente, num desafio diário de entrega e superação. Assim prosseguem os casais que permanecem juntos ao longo do tempo, numa dança de equilíbrio constante entre aquilo que seria desejável e o que é, afinal de contas, real e possível. Construindo a relação passo a passo, com alicerces seguros e estáveis que podem, depois, sustentar as paredes e o telhado. Há casais perfeitos? Claro que não. E cá entre nós, acho até que seria um profundo aborrecimento tamanha perfeição.

Outras vezes não vale a pena. Caídas as máscaras, descobrimos que o outro em nada se parece com aquilo que aparentou ou que imaginamos. Percebemos a realidade por detrás da aparência e a discrepância abismal entre estes dois mundos faz-nos desabar. Temos, depois, à nossa frente, vários caminhos possíveis. Podemos permanecer nessa relação, ainda que pouco ou nada gratificante, apenas porque sim, porque é suposto, porque a sociedade, as nossas crenças ou mitos assim o exigem… podemos tentar mudar essa realidade, pedir ajuda, tentar perceber em que medida poderão surgir mudanças e processos de ajustamento… ou podemos mudar de rumo, seguir outro caminho e deixar para trás o que nos magoa.

Todos nós usamos máscaras, num ou noutro momento, num ou noutro contexto. Deixar as máscaras cair e trazer à luz que temos de menos bom exige muita coragem, é certo, mas penso que será esse o caminho para a construção de uma relação saudável e genuína com o outro. Seja esse outro quem for.

Aproveitemos, pois, o Carnaval para nos desmascararmos.


Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.