Quando o desejo ataca o cérebro e se torna obsessivo

O prazer é bom. O problema começa quando o desejo se torna incontrolável e obsessivo.

O que nos dá prazer faz-nos querer repetir e não há mal nenhum nisso. O prazer é bom. O problema começa quando o desejo se torna incontrolável, obsessivo. O psicólogo Vítor Rodrigues ajuda-nos a perceber como é que a adição toma conta do cérebro. E o que fazer para o libertar.

Texto de Catarina Pires

Quando pensamos em vícios, a primeira coisa que nos vem à cabeça são substâncias como drogas, tabaco ou álcool, e, de facto, estas têm um potencial muito maior de transformar o desejo em adição, mas qualquer coisa ou comportamento que dê prazer pode levar uma pessoa a querê-la tanto que perde o controlo sobre o seu uso, com consequências nefastas para a sua vida, a sua saúde e a sua relação com os outros. Além das substâncias já referidas, jogo a dinheiro, sexo, comida, compras, videojogos, redes sociais e internet são os vícios mais comuns.

Como é que passam de necessidades ou atividades saudáveis que dão prazer a adições? O psicólogo Vítor Rodrigues explica que é preciso ter em conta duas perspetivas complementares, a neurológica e psicológica. Neurologicamente falando, a ideia geral é de que, estando a dopamina, um neurotransmissor, envolvida nos sentimentos de prazer, tudo o que aumenta a sua produção/libertação para o sangue – dando prazer – tem potencial aditivo. Isso manifesta-se na ativação do “centro de prazer” do cérebro, o nucleus accumbens, e na memorização daquilo a que o prazer está associado. Essa memorização acontece de modo mais “fácil” quando a fonte de prazer é muito evidente, de acesso direto, e produz muito prazer, como é o caso das drogas.

Na mesma linha, pensa-se que há adição sempre que o cérebro se torna “dependente” de químicos ligados a sentimentos de prazer, que costumam incluir a dopamina mas não só. O problema seguinte é que surge, muitas vezes, um mecanismo de habituação pelo qual o cérebro deixa de reagir da mesma maneira às mesmas quantidades de químicos, pelo que existe o risco de “ter de” aumentar as doses, quando se trata de substâncias, ou a frequência, quando se trata de comportamentos.

Vítor Rodrigues é psicólogo, psicoterapeuta e autor de diversos livros, entre os quais Constrói a Tua Felicidade e Tranquila-Mente. (Fotografia Paulo Alexandrino).

No plano psicológico, sabe-se, diz Vítor Rodrigues, que geralmente o vício surge associado a uma forte antecipação ou preocupação com o objeto desejado, seguido de consumo e “intoxicação”, por vezes com grande prazer, seguido muitas vezes de efeitos negativos físicos e psicológicos (como vergonha, culpa). “Muitas pessoas acabam por perder a capacidade de controlar os seus impulsos de consumo e podem até tornar-se incapazes de hierarquizar valores: a droga ou o objeto de desejo tornam-se na única coisa relevante – nem que seja preciso mentir, roubar e manipular as outras pessoas.

Nesse sentido, uma pessoa viciada pode quase tornar-se uma ‘psicopata artificial’, incapaz de pesar os sentimentos, as necessidades e os direitos dos outros face aos seus. Aliás, o que marca a definição de vício é precisamente o facto de algum tipo de comportamento ou consumo começar a tomar conta da vida de uma pessoa, absorvendo recursos, diminuindo ou tornando inexistente a vida social, tornando-se uma obsessão constante. Pode ser jogo a dinheiro, videojogos, drogas diversas, sexo, compras, até colecionismo. Quase tudo pode tornar-se um vício – embora, claro, alguns vícios sejam particularmente frequentes. As drogas costumam produzir com especial facilidade alterações cerebrais que reforçam o problema. O mesmo se passa, aparentemente, para potenciais vícios em que o corpo está diretamente envolvido e estão em causa produtos ou comportamentos capazes de mexer na química orgânica com especial facilidade. Álcool, drogas proibidas e mesmo psicofármacos permitidos diversos, sexo, até exercício físico.”

Sexo, comida e exercício físico são necessidades, prazeres ou hábitos saudáveis para a maioria das pessoas. Como se explica que se tornem patológicos? Se a adição, que é hoje de forma consensual considerada uma doença pela ciência, tem uma componente genética que a explica, essa não será a única explicação. “É importante perceber que os genes não se ‘impõem’ simplesmente mas são influenciados, na sua manifestação, por fatores ambientais e pela ‘sopa química’ do organismo – que depende do nosso estado psicológico e fisiológico momento a momento”, diz o psicólogo Vítor Rodrigues. “Por outro lado ainda, estados de frustração, revolta, cansaço, ansiedade ou traumas importantes podem levar à busca de compensações e fugas ao sofrimento – que nem sempre são escolhas saudáveis. Por fim, as pessoas mais impulsivas e/ou as que menos estão capacitadas para gerir o desejo e a frustração tendem a ser potencialmente mais atreitas a vícios”, explica.

“Pode ser preciso abster-se de jogar, de comprar, de ir ao ginásio, de conduzir, até de fazer sexo.”

O que fazer para vencer a adição? A resposta a essa pergunta vale milhões, diz Vítor Rodrigues, que, apesar disso, tenta fazê-lo, sem generalizar. “Em cada adição há uma pessoa com características próprias que devem ser tidas em conta. Entretanto, eu diria que as melhores chances de recuperação surgem quando há uma rede social de suporte (família, amigos que apoiam sem serem cúmplices) e quando se combinam várias abordagens. Em alguns casos, medicação pode ajudar a regular as alterações cerebrais. A isso podemos juntar o papel do exercício físico, meditação e relaxamento, psicoterapia, expressão artística, treino na identificação de estímulos desencadeadores dos comportamentos aditivos e nos modos de geri-los, e também o desenvolvimento de novos significados para a vida através da espiritualidade conscientemente cultivada.

Em muitos casos, um tempo de internamento e abandono de locais e pessoas associados aos consumos, bem como uma desintoxicação, podem ser necessários. Note-se que a desintoxicação implica cessação do consumo e não diz só respeito a drogas mas também a comportamentos. Pode ser preciso abster-se de jogar, de comprar, de ir ao ginásio, de conduzir, até de fazer sexo.”