Que escola queremos?

A lista de problemas é conhecida de quase todos. O modelo ideal está na cabeça de muitos. Olhando para a escola portuguesa tal como ela existe hoje, que soluções concretas podem ser aplicadas, antes de se pensar numa grande reestruturação do sistema? Na semana em que arranca um novo ano letivo, alunos, professores, pais, psicólogos e pediatras dão conta daquilo que na prática não funciona e deixam sugestões. O Ministério da Educação concorda com o diagnóstico, mas devolve a palavra às escolas.

Texto de Catarina Fernandes Martins | Fotografia de Fernando Marques e Maria João Gala/Global Imagens

Os gabinetes da psicóloga Cristina Valente, do pedopsiquiatra Pedro Strecht e do neuropediatra Luís Borges são como laboratórios onde se vai tomando nota de tudo aquilo que não corre bem nas escolas portuguesas e dos desejos mais profundos de pais, professores e alunos que ali vão confessando as dificuldades e as frustrações que experimentam no dia a dia.

As propostas aqui feitas por todos eles baseiam-se menos nas soluções desenvolvidas lá fora – nos países com os melhores resultados em termos de performance educativa, como os nórdicos – e mais no cruzamento entre os estudos mais recentes de neurociência e inteligência emocional com anos de observação, de troca de impressões, de desabafos, de frustrações, daquele desespero que leva uma mãe a intuir que «está tudo errado» se a escola «rouba aos filhos tempo de qualidade com a família».

O secretário de Estado da Educação, João Costa, diz que as preocupações sublinhadas «vão ao encontro de muitas das preocupações do Ministério da Educação», garantindo que já se iniciou um «caminho que permite dar resposta a alguns dos problemas identificados».

Segundo João Costa, a responsabilidade da concretização de algumas dessas respostas cabe às escolas, destacando «as iniciativas desenvolvidas no âmbito do novo Decreto-Lei 55/2018, de 6 de julho, que dá mais autonomia às escolas e que as convida a uma reforma pedagógica, em que a inovação, a diversificação de metodologias e instrumentos de avaliação e a interdisciplinaridade são aspetos fundamentais.»

Na semana em que arranca o ano letivo 2018/2019, apresentamos alternativas específicas para problemas específicos que não começam nem terminam na sala de aula, mas que podem ajudar a melhorá-la.

Rita Viana, 51 anos, é professora de Educação Visual e coordenadora dos processos disciplinares na Escola Conde de Oeiras

FORMAÇÃO EMOCIONAL DE PROFESSORES

Rita Viana, 51 anos, é professora de Educação Visual e coordenadora dos processos disciplinares na Escola Conde de Oeiras. Para Rita, o processo de ensinar surge no decorrer da relação estreita e empática que se estabelece entre professores e alunos e apesar de saber que nem todos os professores pensam dessa forma, para ela a profissão só faz sentido se for vivida assim.

A professora de EV diz que é naturalmente empática e se interessou desde sempre por Psicologia e Neurociências. Desde que é professora que procurou aprofundar essas competências, fazendo um curso de mindfulness, participando em formações sobre indisciplina e estudando sobre resolução de conflitos.

Na escola onde dá aulas, Rita deu formação a alunos para serem observadores e detetores de situações de conflito no recreio, tendo criado com alguns deles uma brigada anti-bullying.

Rita diz que procura levar essas aprendizagens para dentro da sala de aula, aliando a prática das artes à aprendizagem emocional. Os alunos de Rita fazem cartazes sobre a violência no namoro, o racismo, o fair-play no desporto. Na escola onde dá aulas, Rita deu formação a alunos para serem observadores e detetores de situações de conflito no recreio, tendo criado com alguns deles uma brigada anti-bullying. A professora diz que é comum abrir a porta da sala e ter à espera uma série de miúdos ditos conflituosos que afinal querem apenas atenção, diz.

Quando começou a coordenar os processos disciplinares, Rita deu por si a envolver-se demasiado e decidiu procurar técnicas que lhe permitissem criar alguma distância, sem a tornar «fria e desligada». A professora diz que é muito difícil ser um bom professor quando se atravessa um momento difícil e sabe que as vidas dos professores estão cheias de situações difíceis. Para esses casos, Rita diz que a solução passa por «pedir ajuda» e por a escola tomar consciência de que tem de estar «disponível para ajudar».

Pedro Strecht considera fundamental «dotar os professores de ferramentas que lhe permitam fazer a leitura emocional do seu próprio estado e do estado dos alunos».

Segundo o pedopsiquiatra Pedro Strecht, os professores que ficam na memória dos alunos e que mais os cativam para aprendizagem são aqueles com quem desenvolvem uma «relação emocional mais forte». Por isso mesmo, diz, é fundamental «dotar os professores de ferramentas que lhe permitam fazer a leitura emocional do seu próprio estado e do estado dos alunos».

O neuropediatra Luís Borges diz que além dos conhecimentos de pedagogia, os professores deviam ter conhecimentos da Psicologia do Desenvolvimento de forma a compreender de modo profundo as características das crianças e jovens que vão ensinar, conhecendo também os avanços da neurociência da aprendizagem.

A psicóloga e coach parental Cristina Valente defende aulas mais curtas, 45 a 50 minutos no máximo.

TEMPO DE AULAS

Maria José Rafael, 52 anos, é professora de Físico-Química no Agrupamento de Escolas Nuno Álvares em Castelo Branco e desde que dá aulas de 90 minutos que se habituou a dividir o tempo da aula em três momentos.

«Até ao 9º ano, os alunos estão concentrados nos primeiros 45 minutos. Nos 20 minutos seguintes, mais de metade da turma não está a ouvir. Nos últimos 10 ou 15 minutos é necessário arranjar mil e uma estratégias e pela minha experiência não se vai lá com o PowerPoint, que eles consideram uma seca. Geralmente faço exercícios ou relaciono as aprendizagens com a experiência do dia a dia», diz, falando de um processo que parece penoso. «As aulas de 90 minutos são um massacre», diz a professora, para quem o ideal seria o regresso às aulas de 50 minutos.

Pedro Strecht considera que os casos de indisciplina e de comportamentos negativos das crianças de que tanto se fala hoje estão intimamente relacionados com o excessivo período de tempo que os jovens passam dentro de uma sala de aula.

Cristina Valente diz que a atenção «não consegue ser mantida durante 50 minutos», defende aulas de 45 ou 50 minutos, em que os professores introduzam elementos disruptores de dez em dez minutos.

«A sociedade no geral pede aos miúdos tempos de concentração cada vez mais curtos e a escola está a pedir-lhes o padrão oposto daquilo que eles vivem no dia a dia», diz o pedopsiquiatra, que sugere um regresso às aulas de 50 minutos, seguidas de 10 minutos de intervalo. Para Pedro Strecht, é ainda fundamental a existência de um intervalo de maior duração a meio da manhã e outro a meio da tarde.

Cristina Valente reitera que a atenção «não consegue ser mantida durante 50 minutos», defende aulas de 45 ou 50 minutos, em que os professores introduzam elementos disruptores de dez em dez minutos, e sublinha a importância das pausas «não estruturadas» como «momentos de integração».

A psicóloga e coach parental chama a atenção para a necessidade de esses momentos serem de brincadeira livre e não preenchidos com atividades sujeitas à pressão do desempenho.

«As crianças estão na escola das 9h00 às 17h30 e depois têm explicações. Isso tira à criança a possibilidade de brincar, quando é através da brincadeira que se desenvolve a criatividade, a função social e a capacidade de entreajuda», diz o neuropediatra Luís Borges.

«Do ponto de vista emocional, as pausas não estruturadas são como momentos de libertação catártica, o que torna as crianças mais calmas e tranquilas. Crianças mais calmas e tranquilas têm uma capacidade de atenção maior», diz.

O neuropediatra Luís Borges fala também do «tempo excessivo» que as crianças passam dedicadas a atividades da escola, não se referindo apenas ao tempo das aulas.

«As crianças estão na escola das 9h00 às 17h30 e depois têm explicações. Além disso, as atividades extra-curriculares atuais replicam o mesmo modelo da escola, sendo dirigidas por adultos que avaliam a performance da criança. Tudo isso está a tirar à criança a possibilidade de brincar, quando sabemos que é através da brincadeira que a criança desenvolve a criatividade, a função social e a capacidade de entreajuda», diz o neuropediatra.

Manuel Seara tem 14 anos e começou hoje o 9º ano na Escola Secundária de Miraflores. Diz que as aulas mais fáceis são aquelas em que é evidente que o professor gosta daquilo que está a fazer.

MÉTODO EXPOSITIVO

Manuel Seara, 14 anos, diz que tem vários professores que passam o tempo da aula sentados à secretária a ler a partir do manual. «Quando estou nessas aulas aborreço-me muito. Tento fazer um esforço para ter o máximo de atenção, mas fico sempre muito aborrecido e acontece que por vezes eu não consigo sequer compreender o que está a ser explicado.»

O aluno que este ano letivo começou o 9º ano na Escola Secundária de Miraflores diz que as aulas mais fáceis são aquelas em que é evidente que o professor gosta daquilo que está a fazer. «São as aulas em que os professores estão de pé, escrevem no quadro, explicam pelas suas palavras, fazem muitas perguntas aos alunos», diz.

Quando lhe é dado a escolher entre um método expositivo, com disciplinas estanques, e um método de interdependência disciplinar em torno de um projeto, Manuel diz que o ideal seria um modelo misto que combinasse as vantagens dos dois.

«Aquilo que transforma algo que me é transmitido numa aprendizagem é a agregação de uma emoção. Se não houver agregação de emoção não existe memória», diz Cristina Valente.

Cristina Valente concorda que o método expositivo é sempre necessário, mas defende que seria importante interromper o tempo da aula expositiva com exercícios práticos que mobilizem saberes de outras disciplinas como a Filosofia, com o objetivo de pôr os miúdos a pensar, mas também com o intuito de desencadear as suas emoções e paixões.

«Aquilo que transforma algo que me é transmitido numa aprendizagem é a agregação de uma emoção. Se não houver agregação de emoção não existe memória», diz a psicóloga e coach parental.

Pedro Strecht defende maior transversalidade entre as disciplinas, adequando os currículos para que a disciplina de Geografia e a de Ciências, por exemplo, possam dialogar paralelamente, em certos pontos do programa. O pedopsiquiatra dá como exemplo de um possível modelo de transversalidade a forma como professores e alunos trabalham em conjunto para organizar as festas de Natal ou de final de ano.

O pedopsiquiatra Pedro Strecht defende que a dimensão ideal das turmas seria entre 15 e 22 alunos.

DIMENSÃO DAS TURMAS

No arranque do ano letivo 2018/2019, o Agrupamento de Escolas Linda-a-Velha e Queijas voltou a pôr em prática o projeto TurmaMais, desenvolvido pela Universidade de Évora, que prevê a rotação de alunos entre duas turmas – a de origem e a chamada TurmaMais.

O objetivo é agregar os alunos com características semelhantes em diferentes turmas, reduzindo assim o número de alunos por turma, o que permite, dizem alguns professores do agrupamento, dar mais atenção ao nível de aprendizagem específico de cada aluno.

No ano letivo 2009/2010, a Escola Secundária Professor José Augusto Lucas, que pertence ao mesmo agrupamento, testou o projeto pela primeira vez, criando turmas extra no 7º ano para as disciplinas de Português, Matemática e Inglês. Carlos Guerreiro, diretor do agrupamento, diz que no primeiro ano do projeto, os casos de retenção e de indisciplina foram reduzidos para metade.

O professor diz ainda que este número de alunos por turma seria ideal e que os alunos tendem a preferir estar na TurmaMais porque se sentem mais acompanhados pelos professores.

Tanto Pedro Strecht como Luís Borges concordam que o número ideal de alunos por turma está entre os 15 e os 22. Pedro Strecht faz uma comparação com as turmas em que há crianças com necessidades educativas especiais, que só podem ter até 20 crianças por sala, para dar mais apoio a esses jovens.

Luís Borges diz que turmas mais pequenas permitem aulas mais interativas, tornando mais fácil aos professores detetar alunos com mais dificuldades e dar-lhes mais ajuda, facilitando também «um maior respeito pelo ritmo das crianças»

«Um menor número de alunos permite um acompanhamento mais individualizado, maior qualidade na relação afetivo-emocional entre professores e alunos. Isso leva à diminuição das queixas por mau comportamento», diz o pedopsiquiatra.

O neuropediatra Luís Borges diz que turmas mais pequenas permitem aulas mais interativas, tornando mais fácil aos professores detetar alunos com mais dificuldades e dar-lhes mais ajuda, facilitando também «um maior respeito pelo ritmo das crianças».

Uma alternativa à redução do número de alunos por turma, diz Luís Borges, é a introdução de mais professores em cada turma, o que contribuiria para resolver também «o problema de haver tantos professores não colocados», diz.

PROBLEMAS DE DISCIPLINA

A partir da observação que foi fazendo ao longo da sua carreira, a professora de EV Rita Viana defende que grande parte dos problemas de indisciplina surgem quando o professor não compreende nem o estado emocional da criança nem o seu próprio estado emocional.

«A criança por vezes vira-se contra o professor não porque não gosta dele, mas por alguma necessidade interna», diz.

Manuel Seara, 14 anos, aluno, concorda. «Muitas vezes há situações de indisciplina real em que os alunos se comportam mal. Eu já fiz porcaria e assumo a minha responsabilidade nas vezes em que isso aconteceu. Mas muitas vezes os professores não têm paciência ou levam a mal certas opiniões», diz o estudante de 9º ano da Escola Secundária de Miraflores.

Manuel diz que uma vez lhe foi assinalada uma falta disciplinar por questionar algo que uma professora dizia na sala e nessa ocasião concreta, o aluno considerou a situação injusta, principalmente porque, diz, não faltou ao respeito à docente.

«Espera-se que aos 8 e 9 anos os alunos consigam estar totalmente quietos e isso é irrealista», diz Pedro Strecht.

«Acho que os professores deviam querer ouvir a opinião do aluno, por mais estúpida que ela pareça. Muitas vezes pode ser algo que o professor pode melhorar», diz.

Os especialistas ouvidos pela DN Life consideram que os problemas de indisciplina decorrem muitas vezes das restantes vulnerabilidades da escola, nomeadamente do elevado número de alunos por turma, do tempo excessivo que as crianças passam dentro da sala de aula ou mesmo do facto de muitos professores não terem ferramentas de inteligência emocional nem conhecimentos aprofundados sobre os estádios de desenvolvimento das crianças.

«Espera-se que aos 8 e 9 anos os alunos consigam estar totalmente quietos e isso é irrealista», diz Pedro Strecht.

Sónia Morgado tem quatro filhos, com idades diferentes, e tem lutado na escola dos mais novos para diminuir a carga de TPC, que, considera, retiram tempo à família.

TRABALHOS PARA CASA

Sónia Morgado, 52 anos, tem quatro filhos, com diferenças de idade consideráveis entre si. Quando as filhas mais velhas de Sónia, hoje com 30 e 31 anos, andavam na escola, era raro levarem trabalhos para casa e Sónia considerava normal as vezes que isso acontecia, vendo esse momento como uma forma de ficar informada sobre o que se passava na sala de aula.

Hoje, Sónia acompanha um filho de 9 e uma filha de 13 em duas escolas do Agrupamento de Santa Catarina em Linda-a-Velha e diz que é tudo muito diferente. Nos últimos quatro anos, Sónia tem procurado insistir junto dos professores dos filhos para libertarem um dia da semana da prática dos TPC, o que se tem revelado difícil de conseguir.

«Isto está tudo errado. Quando é que os miúdos têm tempo para brincar, para não fazerem nada, para serem crianças?», questiona Sónia Morgado, mãe.

«Antes os trabalhos para casa era uma coisa leve, que não prejudicava o tempo de a família estar junta. Agora, todos os dias há TPC com três folhas. Os trabalhos para casa são sempre uma fonte de grande stress e frustração e levam as crianças a ficarem acordadas até muito tarde, roubando tempo de qualidade à família. Os pais da escola dos meus filhos pedem sucessivamente para que não haja TPC durante a época dos testes, ou durante os fins de semana, mas os professores não acedem», diz, Sónia, irritando-se verdadeiramente.

«Isto está tudo errado. Quando é que os miúdos têm tempo para brincar, para não fazerem nada, para serem crianças?», questiona, com o timbre da voz alterado.

«Os trabalhos para casa tal como existem hoje são uma batalha entre pais e alunos exaustos», diz Cristina Valente, para quem os TPC perderam «o seu valor». A psicóloga e coach parental diz que mais do que decretar-se o fim dos TPC, é importante que pais e professores compreendam que o sucesso das crianças e adolescentes «decorre de um estilo de vida tranquilo».

«Os miúdos não têm aproveitamento porque a relação entre pais e filhos está por um fio e os TPCs são a principal causa de conflitos em casa. O que é mais importante? Um 4 tirado a ferros ou uma relação saudável com os meus filhos? É que a relação positiva entre pais e filhos permite aguentar tudo o que acontecer à criança», diz.

Pedro Strecht sugere que em vez dos trabalhos para casa, as escolas deem indicações de atividades lúdicas que as famílias possam fazer juntas e que complementem as aprendizagens feitas na escola, como observar uma chuva de estrelas ou fazer uma visita a um parque natural.

O neuropediatra Luís Borges defende que todo o processo de aprendizagem deve ser avaliado, mas diz que «as avaliações devem servir para aferir se os conhecimentos foram adquiridos e não para penalizar o erro»

AVALIAÇÃO

Bruna Garrido Costa, 16 anos, tinha tanto medo de baixar as notas quando chegou ao ensino secundário que o corpo acusou a pressão.

«O meu cabelo começou a cair e deixei de conseguir dormir», diz. Bruna iniciou esta semana o 12º ano na Escola Secundária Nuno Álvares, em Castelo Branco, com média de 18,5, o que mostra que os seus receios eram infundados.

Apesar dos bons resultados que teve até agora e das técnicas que foi aprendendo para lidar com a ansiedade, Bruna pensa que o sistema de avaliação tal como hoje existe na maior parte das escolas portuguesas – um sistema centrado nos momentos de avaliação formais como testes e exames – não resulta.

«Eu estou preparada, mas por vezes os nervos por saber que é a nota daquele momento que conta para a minha avaliação final levam-me a baixar as notas nos testes. Tenho colegas que não conseguem de todo lidar com a ansiedade e descambam no teste. Estamos sujeitos a uma grande pressão e não temos tempo para mais nada, não temos tempo para nos descobrir a nós mesmos e fazer aquilo de que gostamos porque é tudo em função dos testes», diz.

Cristina Valente eliminaria os testes e exames, privilegiando «uma verdadeira avaliação contínua, feita sem que o avaliado saiba que está a ser avaliado, o que diminui a pressão».

O neuropediatra Luís Borges defende que todo o processo de aprendizagem deve ser avaliado, mas diz que «as avaliações devem servir para aferir se os conhecimentos foram adquiridos e não para penalizar o erro». Quando se penaliza o erro logo desde cedo, isso tem custos emocionais para as crianças, o que bloqueia o seu sistema cognitivo. «Quando estamos emocionalmente bem, aprendemos melhor», diz.

A psicóloga e coach parental Cristina Valente eliminaria os testes e exames, privilegiando «uma verdadeira avaliação contínua, feita sem que o avaliado saiba que está a ser avaliado, o que diminui a pressão».

O pedopsiquiatra Pedro Strecht acha que os testes são importantes como momentos de avaliação, mas defende um peso acrescido na avaliação para questões de comportamento, de civismo e de desempenho noutras áreas que não a académica. Pedro Strecht sugere a substituição dos quadros de honra por quadros de mérito, que promovam o mérito artístico, desportivo, científico, nas humanidades, mas também o mérito de solidariedade, de companheirismo e de esforço dos alunos.

O secretário de Estado da Educação, João Costa, a propósito da avaliação, evoca mais uma vez o Decreto-Lei 55/2018, que «desafia as escolas a diversificar instrumentos de avaliação, não recorrendo apenas a testes, mas também a portefólios, apresentações, debates, entrevistas, relatórios de visitas de estudo, trabalhos em grupo, performances, participação em experiências culturais, entre outros instrumentos.»

ESPAÇO DA ESCOLA

Pedro Strecht já percebeu que há crianças que comem apressadamente em dez minutos para depois serem as primeiras a chegar ao campo de futebol, pequeno e com pouca capacidade, e assim poderem brincar durante algum tempo.

Para o pedopsiquiatra esta situação é sintomática de um problema que considera fundamental na escola portuguesa, que, diz, «não encara o espaço de recreio como um espaço da escola». Para Pedro Strecht, é necessário mudar a dimensão e a funcionalidade do espaço de recreio e do espaço físico exterior à sala de aula.

Para Pedro Strecht, é necessário mudar a dimensão e a funcionalidade do espaço de recreio e do espaço físico exterior à sala de aula.

«Há um enorme desinvestimento do espaço físico da escola como se a escola fosse só o tempo das aulas. Os recreios são espaços pequenos, os campos de futebol são pequenos ou inexistentes, não há grande vigilância no recreio e as crianças ficam abandonadas», diz.

O pedopsiquiatra sugere então um investimento ao nível da renovação do espaço escolar, criando mais espaços de convívio para os alunos, por exemplo.

Além disso, diz, é preciso complementar o tempo que as crianças e jovens passam na escola fora do tempo de aulas com outras atividades fora da escola porque é cada vez mais comum as crianças permanecerem na escola até ao fim da tarde, hora em que os pais os vão buscar, ou até passarem as interrupções da Páscoa e do Natal na escola, mesmo sem atividades letivas.

«As crianças ficam demasiado tempo no espaço físico da escola e isso acaba por enjoá-las ao fim de algum tempo. Seria bom que o investimento do espaço fora da sala de aula fosse complementado com atividades proporcionadas por outras estruturas como as juntas de freguesia», diz.