Que mania universal (e perigosa) é esta da proteína?

Comemos proteína em excesso, ficamos doentes, porém a ideia que nos continuam a vender (e nós a comprar) é a de que muita proteína equivale a um corpo fit. Não é verdade: a questão tem muito mais que se lhe diga. E não: batidos e barrinhas não são melhores que uma alimentação variada.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Para os adeptos da boa forma física, são uma espécie de oitava maravilha do mundo mais valiosa que as Pirâmides de Gizé: batidos de proteína, barrinhas de proteína, suplementos de proteína em pó, bolachas e cereais enriquecidos com proteína. Nos supermercados, corredores afora, a saga continua: leite, iogurtes e queijos com extra proteína. Massa, café e água em versões proteicas. Whey a torto e a direito (este é provavelmente o suplemento mais vendido de sempre, extraído do soro do leite com todos os aminoácidos essenciais).

Até mesmo os regimes para emagrecer mais em voga – Stillman, Dukan, da Zona, de South Beach, do Ovo Cozido, Sugar Busters, Poder da Proteína, cetogénico, Paleolítico, de Atkins (que chega a proibir cereais integrais, leguminosas e fruta) – vão no sentido de se reduzir/cortar os hidratos de carbono e assegurar proteína com fartura. O que nos leva à pergunta de um milhão de dólares: porquê esta obsessão, afinal?

«Creio haver duas razões: a moda das dietas e a moda do desporto. Que como a maioria das modas são seguidas de forma pouco consistente», desfere Maria de Oliveira Dias, autora do blogue The Love Food e do livro Cozinha Vegana (Editora Corvus). O facto de o corpo se ter alterado para «um ideal extremamente musculado» na última década só fez com que se começasse a procurar resultados rápidos, pouco saudáveis.

As recomendações da OMS – entre 0,8 e 1,2 gramas diárias de proteína por quilo de peso – são mais do que atingidas.

«A par de inúmeros artigos de pseudonutrição sobre o tema, a proliferação de bloggers e influencers que partilham os seus treinos e rotinas alimentares altamente proteicas, quase sempre patrocinadas pelas empresas que vendem os produtos, também contribuiu para a ascensão do mito que rodeia a proteína», acrescenta a health coach, lamentando que se continue a alimentar este sonho de corpos perfeitos, em troca de pós mágicos incorporados em batidos e outros alimentos hiperprocessados.

No fundo, é-nos vendida a ideia de que muita proteína equivale a um corpo fit quando o argumento não passa de uma falácia. «Ao analisarmos a ingestão proteica da nossa população, chegamos à conclusão de que as recomendações da Organização Mundial de Saúde – entre 0,8 e 1,2 gramas por quilo de peso para satisfazer as necessidades diárias – são mais do que atingidas», revela Rosa Domingos, diretora do Núcleo de Dietética e Nutrição do centro de bem-estar Caress Natura, em Lisboa.

Um indivíduo de 70 kg de peso devia consumir 70 gramas de proteína por dia, repartidas por refeições que não devem ir além dos 25 gramas cada.

Contas feitas por alto, um homem de 70 kg de peso teria de consumir 70 gramas de proteína por dia, repartidas por refeições que não devem ir além dos 25 gramas cada. «Se esse mesmo indivíduo comer 200 gramas de carne ao almoço e 200 gramas de peixe ao jantar, só aí estará a ingerir cerca de 80 gramas de proteína», aponta a nutricionista. Isto sem contabilizar a de outros alimentos que acompanhem a refeição.

Continuamos a comer mais proteína do que a necessária, em especial na idade ativa, confirma a nutricionista Patrícia Almeida Nunes, coordenadora do Serviço de Dietética e Nutrição do Hospital de Santa Maria. «Lógico que a ingestão vai variar consoante as necessidades de quem come, dependente de fatores como a idade, género ou atividade física» – ninguém leva a mal se uma pessoa com alto volume de treinos consumir até dois gramas por quilo de peso. Mas não mais do que isso, pela sua saúde. Nem diabolizando os hidratos de carbono (outra moda perigosa), que ajudam o corpo a processar a proteína neste processo de crescimento muscular.

Segundo um estudo realizado pela Universidade da Finlândia Oriental, que durante 22 anos analisou as dietas de 2 441 homens entre os 42 e os 60 anos, regimes ricos em proteínas aumentam em 49 por cento o risco de insuficiência cardíaca (sendo que, destas, 77 por cento eram de origem animal – especialmente carnes vermelhas – e as restantes de origem vegetal).

Se as pessoas ingerem proteína suficiente no dia-a-dia, cocktails proteicos apenas vão sobrecarregar.

Por seu turno, números avançados pela empresa de pesquisa de mercado Mintel, uma das mais reputadas a nível internacional, indicam um crescimento de 500 por cento, entre 2010 e 2015, dos novos produtos alimentares que se titulam de alta proteína, com um em cada quatro consumidores a utilizarem suplementos desportivos regularmente.

Nada que emagreça ou aumente a massa muscular e até pode prejudicar a saúde, acautela ao DN a médica endocrinologista Isabel do Carmo, apreensiva: «A menos que haja um défice alimentar em idosos ou doentes, que não conseguem comer o suficiente e têm de ingerir concentrados de proteínas para equilibrar a alimentação, não existe nenhuma vantagem nos produtos vendidos de forma irregular nos ginásios, que poderão ter substâncias ocultas, estimulantes.»

Claro que a proteína interfere diretamente na constituição muscular (e não só). As suas funções no organismo são tantas e tão importantes – enumeramo-las na fotogaleria – que deve compor cerca de 35 por cento da dieta alimentar. A questão é que se as pessoas ingerem proteína suficiente no dia-a-dia, «e no geral comem peixe, carne, ovos, bebem leite e iogurtes», cocktails proteicos apenas vão sobrecarregar os rins, alerta Isabel do Carmo.

«Isto porque a proteína é um macronutriente, não um alimento, pelo que o consumo excessivo acompanha outros erros alimentares», explica a nutricionista Patrícia Almeida Nunes, autora de Uma Especialista em Nutrição no Supermercado (A Esfera dos Livros). Na prática, aconselha a escolher proteínas de alto valor biológico com baixo teor de gordura – aquilo que toda a gente sabe de devermos fazer uma alimentação mais rica em peixe e optar por laticínios pouco gordos e carnes magras.

Comemos demasiada proteína animal, demasiados açúcares e farinhas refinadas. Demasiadas gorduras más, péssimas para a saúde e a sustentabilidade do planeta.

Sem esquecer a alimentação vegetal, sublinha a health coach Maria de Oliveira Dias, vegana há mais de uma década: «A carne sempre foi vista como o alimento dos ricos, que dá força, e as leguminosas associadas a uma alimentação pobre, de enfarta brutos.» Comemos demasiada proteína animal, demasiados açúcares e farinhas refinadas. «Demasiadas gorduras más, péssimas para a saúde e a sustentabilidade do planeta quando, na verdade, praticamente todos os alimentos vegetais têm proteína», diz. Os aminoácidos completam-se desde que se coma de forma variada.

«Cada vez mais, é evidente que uma nutrição equilibrada previne o aparecimento de certas doenças – cardiovasculares, diabetes, obesidade –, além de desempenhar um papel importante no controlo e alívio dos sintomas de outras», concorda a dietista do Hospital de Santa Maria. O ditado «somos aquilo que comemos» diz tudo, de facto. «Na dúvida, pode solicitar a ajuda de um nutricionista.» Ter saúde há de ser sempre mais importante do que exibir uns bíceps de Tarzan.