Que poder é este que o silêncio tem?

Vivemos numa sociedade frenética, que não para nem se cala por um segundo, e de caminho vamos desligando da capacidade de ouvir o mundo à nossa volta. Quem tem medo do silêncio, afinal?

Texto de Ana Pago

O silêncio, para Rita Costa, não é fácil. Sempre preferiu ter o mundo a mil à sua volta do que serões amenos que a façam estar sentada, a contemplar sabe-se lá o quê. “Preciso de falar, cantar, ter música nos meus ouvidos a cada instante”, reconhece a relações públicas, incapaz de tirar prazer de um passeio solitário no campo. “Há quem goste de muita paz e sossego, respeito a opção. Por mim, prefiro a confusão e o barulho, sem os quais me sinto sugada pelo meu próprio buraco negro.”

Tudo porque parar e cultivar o silêncio nos obriga a olhar para a realidade como ela é, explica a psicóloga Cláudia Morais, considerando que sofrer não tem de ser uma tragédia, embora fujamos disso a sete pés. “Se andamos a evitar áreas da nossa vida que nos trazem alguma forma de dor, o silêncio torna-se desconfortável por nos obrigar a examiná-las, carregando-se dos vazios e medos que todos temos”, diz.

E aí a alternativa passa por ocupar a mente com tudo o que nos distraia dessa observação, revela a terapeuta: “Quando passamos demasiado tempo a tentar evitar dificuldades, frustrações e tristezas, parar para ‘apenas’ observar a realidade e ouvir a nossa voz interior pode levar a que nos sintamos esmagados pelas preocupações.” É quase como um bombeiro que avança para um incêndio numa casa, compara Cláudia Morais: se abrir a porta de repente, será surpreendido pela voracidade das chamas.

A estratégia de não parar para não termos de olhar para dentro atrapalha sobretudo o nosso objetivo de sermos felizes.

Já para não falar que a estratégia de não parar para não ter de olhar para dentro atrapalha sobretudo o nosso objetivo de sermos felizes, sublinha o médico psiquiatra Vítor Cotovio, para quem fazer silêncio nos leva “ao encontro da nossa verdade, dos nossos defeitos, da nossa história”. A premissa é simples (e lógica): ao mantermos a mente sistematicamente ocupada, deixamos de prestar atenção plena a todos os momentos, incluindo os que nos realizam como pessoas.

“Somos cada vez mais estimulados a transformar a vida num carrossel de momentos felizes, memórias agradáveis, e então sentimo-nos desconfortáveis a lidar com o sofrimento, como se não fizesse tanto parte de quem somos como o resto”, concorda a psicóloga Cláudia Morais. Curiosamente, quando olhamos para ele exatamente pelo que é aprendemos a acalmar-nos. “Não se trata de aproveitar a vida apesar dos problemas e sim de apreciá-la com os problemas”, diz.

É aquilo a que Vítor Cotovio chama de “treinarmo-nos para pensar os sentimentos e sentir os pensamentos”, incontornável no processo de maturação pessoal. “Temos uma sociedade de muita informação, muita velocidade, mas também de muito vazio existencial, por nos compelir à ação sem nos dar o tempo e o espaço de que precisamos para elaborar as emoções e construir ligações significativas”, traduz o especialista.

Em termos terapêuticos, é o silêncio que nos permite regular as emoções mais básicas de alegria, medo, tristeza, raiva e desenvolver a inteligência emocional.

Do que vê, a maioria prefere o prazer imediato de iludir os seus próprios vazios existenciais do que procurar uma satisfação com sentido, a qual depende de não nos sentirmos ameaçados pelo que sentimos nos nossos diálogos internos, sejam eles bons ou menos bons. “Mesmo em termos terapêuticos, é o que nos vai permitir regular as emoções mais básicas de alegria, medo, tristeza, raiva e desenvolver a inteligência emocional”, sustenta o psiquiatra.

Como se tudo isto não bastasse, alguns estudos indicam que uma exposição repetida a níveis sonoros entre os 50 e os 55 decibéis – o equivalente ao barulho do trânsito local típico nas grandes cidades, com que convivemos no dia-a-dia já sem darmos conta – pode interferir negativamente com os batimentos cardíacos de quem escuta, produzir cortisol (a hormona do stress) acima da média e afetar a tensão arterial.

“Conviver num ambiente cheio de ruído e gente a falar ao mesmo tempo é uma agravante do stress”, confirma o coach José Roberto Marques, especialista em comportamento e gestão de pessoas. É ele quem enumera outros benefícios de se ficar em silêncio que vão além do controlo efetivo das emoções, a saber: redução da ansiedade; fortalecimento da memória e da saúde cardiovascular; melhor qualidade do sono. “Ficar em silêncio significa muito mais do que apenas manter-se calado”, reforça.

Na dúvida, experimente um destes dois retiros de silêncio que lhe indicamos, a decorrer este fim de semana.

Até porque ao fugir dele percebemos que o pensamento que tentávamos repelir nos persegue ainda com mais força, constata a psicóloga Cláudia Morais. “Se multiplicarmos isto por todos os medos que sentimos, e refletirmos nas vezes em que andamos tão fugidios que não queremos pensar em nada, concluímos que talvez estejamos a transformar os nossos problemas em monstros que empolam a realidade.”

Na dúvida, não há como experimentar um retiro de silêncio. Por exemplo, o que este fim de semana a comunidade holística SerVivo organiza em Palmela, convidando a acalmar o corpo e a mente. Ou este na ecoaldeia vegetariana Espiral, em Cabeceiras de Basto, a prometer descobrir quem realmente somos. A partir daí é só continuar a preencher o aparente vazio com a consciência de si mesmo:

ACORDE EM GRANDE
Não é necessário ter prática de meditação para tirar proveito destes cinco minutos diários: basta sentar-se num canto calmo, sem ligar a televisão ou o smartphone, e respirar lentamente por uns instantes, atento a todos os ruídos da casa e às sensações que lhe despertam no corpo. Venha o que vier lá fora, esta pausa já ninguém lha tira.

PROTEJA-SE DO RUÍDO
Há barulhos intensos que não podemos controlar, como o do tráfego na rua ou das obras no prédio, contudo cabe-nos tentar reduzir ao máximo o tempo de exposição a eles e cortar no volume de outros ruídos ao nosso alcance. É um facto comprovado: excessos tornam-nos agressivos, hipersensíveis e fragilizam-nos o sistema imunológico.

FAÇA SILÊNCIO
Algures durante o dia, ou pelo menos uma vez por semana, reserve um momento para se remeter ao silêncio e descobrir, pelo caminho, como a linguagem não-verbal chega e sobra para exprimir o que se impediu de dizer por palavras. Se tiver crianças pequenas, faça disto uma espécie de jogo e envolva-as. Recorra ainda a práticas de mindfulness para ancorar melhor no aqui, agora.

COMA SEM FALAR
Muitas famílias aproveitam a hora em que se reúnem à mesa para trocar experiências e contar como foi o dia de cada um. Contudo, acontece a muitas delas acabarem de jantar sem se terem verdadeiramente apercebido dos sabores que tinham no prato. Uma ideia para melhor desfrutar deste momento pode ser trocar a conversa por um silêncio partilhado à refeição.

APRENDA A ESCUTAR(-SE)
Por uma vez que seja, vá correr para a rua ou fazer máquinas no ginásio sem levar os auscultadores nos ouvidos, de forma a ouvir realmente o que o rodeia: pássaros, vento e cães a ladrar na vizinhança ou, se for o caso, as solas dos ténis a chiarem no chão e a sua própria respiração ofegante. O silêncio é de ouro também por estas riquezas.