Quem é esta pessoa certinha e arrumada com quem estás casado? Socorro, eu não era assim

Outra vez isto aqui?
– Isto o quê? Outra vez o quê?
– Estes pratos. Outra vez aqui. Há pouco pu-los no lava-louça.
– Puseste-os no lava-louça à hora de almoço. São nove e meia.
– Se calhar foi. Mas outra vez aqui. Porque é que os deixas aqui?
– Quantas vezes temos de ter esta conversa? Pareces aqueles velhos.
– Isso digo-te eu a ti.
– Estás a chamar-me velha?
– Tu é que estás a dizer que eu pareço um velho.
– E pareces. Rabugento. Rezingão. «Põe os pratos aqui.» «Não deixes os sapatos ali.» «Porque é que eu tenho de apanhar as tuas meias»? «Passar a chávena de café por água.» «Se acabas a pasta de dentes leva o tubo para o lixo.» Safa!
– Eu não falo assim. Com essa voz.
– É assim que eu te ouço. Uma vozinha na minha cabeça sempre a dizer-me como é que eu tenho de fazer as coisas. Pareces a minha mãe. Relaxa.
– Não me digas para relaxar. Nem me digas que estou a exagerar. Nem me digas para ter calma.
– E depois é isso. As mulheres é que falam assim. As minhas amigas falam assim. As mulheres dos teus amigos falam assim. Ficam enervadas quando lhes dizem para ter calma. Eu não. Podes dizer-me isso quando quiseres que eu não sou como as outras.
– Pois não, não és.
– O que é que isso quer dizer?
– Não quer dizer nada. Deixa.
– Não, fala. O que é que queres dizer com isso? Não sou como as outras mulheres? Como é que tu gostavas que eu fosse?
– Desculpa, não era isso que eu queria dizer.
– Isso o quê? Que eu não sou uma arrumadinha? Uma stressadinha a tirar os sapatos quando chego a casa? Que eu não tenho varetas perfumadas a enfeitar a casa? E que não ponho o sabonete em cima de pedras vulcânicas na casa de banho? É isso?
– Mas que conversa é essa do sabonete?
– As mulheres dos teus amigos fazem todas isso. Uma fez, as outras imitaram todas. É isso e aqueles frascos de vidro com bambu ou cana-de-açúcar ou o raio que parta dentro da casa de banho. É tudo igual. Vais a casa de um deles e vês isso. Vais a casa de outro e está igual. Parecem hotéis. Até o sítio do papel higiénico é estudado.
– Estás a gritar.
– Não estou nada. Estou só descontrolada.
– Deixa lá os pratos. Não os ponhas no lava-louça.
– Muito obrigada. É muita generosidade da tua parte deixares-me pôr a minha louça, que comprei com o meu dinheiro, em cima da minha bancada.
– A bancada também é minha.
– Pois é, mas os pratos são meus. E ponho-os onde quiser. Se me apetecer, atiro-os da janela. Se quiseres enfiá-los em qualquer sítio, enfia. Mas não vou fazer o que tu queres só porque és um control freak.
– Eu não sou um control freak.
– És és. E o primeiro passo para resolveres isso é admitir o problema. Desde que começámos a viver juntos, já deixei de perder chaves, deixei de comer na cama, deixei de levar o comando da televisão para todo o lado, deixei de ter comida fora do prazo no frigorífico.
– E isso não é bom?
– Não. Não é. Isso não sou eu. Isso sou eu a fazer um papel para te agradar, para tu não te enervares. E isso dá cabo de mim. Tu não começaste a namorar com essa pessoa e agora eu estou feita uma tipa certinha e organizada e a única coisa que eu posso fazer para ser eu é deixar os pratos sujos em cima da bancada. Dás licença?
– Estás a exagerar.
– Voltas a dizer isso e deixo o prato com comida na tua almofada.

[Publicado originalmente na edição de 29 de maio de 2016]