Quem morre, morre sozinho. E quem fica, morre por dentro.

A situação que vivemos actualmente exige falarmos sobre um assunto que é, habitualmente, evitado e quase sempre um assunto tabu. A morte.

A morte faz parte da vida, sempre fez e sempre fará. No entanto, não é por isso que ela se torna mais fácil. E é ainda mais difícil neste contexto de crise, quando assume contornos totalmente imprevisíveis e incontroláveis. Pode bater-nos à porta a qualquer momento sem pedir licença e, de uma vez só, levar consigo não sabemos quem. Diria que, neste momento, o medo da morte é como uma nuvem negra que paira por cima das nossas cabeças, prestes a desabar a qualquer instante.

Aceitar a perda de alguém que nos é querido e fazer o luto é um processo que demora algum tempo, dependendo de numerosas variáveis. Mas há uma delas que é seguramente importante e que pode facilitar o processo de ajustamento face à perda – a possibilidade de nos despedirmos, de estarmos presentes na hora dessa despedida e de chorarmos junto com as outras pessoas que também choram. Os rituais associados à morte ajudam-nos a elaborar as perdas e a seguir em frente. Rituais esses que nos estão agora a ser vedados. Quem morre, morre sozinho. E quem fica, morre por dentro. Morre pela distância, pela ausência, pela culpa que não tem, mas que assume como sendo sua. Morre pelo último toque que não teve. Pelo último beijo que não deu. E pelo último adeus que não disse.

Sem a possibilidade desses rituais é como se tudo ficasse em modo de pausa. Em suspenso. Como se fosse um capítulo que não se consegue encerrar.

Por outro lado, temos as crianças, nem sempre suficientemente protegidas de toda esta informação, inundadas com números e estatísticas que não conseguem, depois, processar. A exposição à informação tem de ser filtrada e acompanhada, por quem as ajude a descodificar tantos termos e conceitos novos. Ainda, por quem as ajude a regular a sua ansiedade e a controlar os pensamentos mais negativos e por vezes catastróficos. As explicações sobre a morte às crianças têm ainda de ser honestas e ajustadas à sua idade e nível de desenvolvimento, evitando-se metáforas ou comparações que podem, por si só, desencadear outros problemas (veja aqui como explicar a morte às crianças).

Face à actual impossibilidade de realização dos rituais que nos ajudam, de alguma forma, a elaborar as perdas, precisamos então de desenvolver novos rituais. Adultos ou crianças, todos precisamos de nos despedir de quem perdermos. Seja através de um desenho, de uma carta de despedida ou de algo simbólico que nos faça sentido, é importante criarmos então o nosso próprio ritual. Construir um baú do tesouro com as memórias boas associadas à pessoa que se perdeu. Fazer um desenho e guardá-lo no local preferido dessa pessoa. Escrever uma carta de despedida e enterrá-la no vaso onde plantamos e cuidamos de uma planta. O que seja. O que nos faça sentido e que faça sentir-nos melhor.

Para que quem morre tenha sempre companhia, ainda que à distância. E para que quem fica sinta sempre que esteve presente, ainda que longe.