“Quem quer casar com a minha vaca?”

Inspirada pelos novos programas televisivos de domingo à noite, acabei de criar um novo formato que, diga-se, em nada está relacionado com os ditos programas. Chama-se “Quem quer casar com a minha vaca?” Completamente pioneiro e inovador, pretende ajudar vacas solitárias a arranjar parceiros amorosos.

Temos oito criadores de gado vacum que apresentam as suas estrelas, vaquinhas carentes à procura do amor verdadeiro. Daquele que envolve vacas felizes a correr pelos pastos verdejantes, com sinos (e não só) a abanar, ao sabor do vento. Uma paisagem idílica, portanto.

Expostas num pedestal e rodopiando devagarinho, exibem com orgulho os seus atributos, num concurso em que tudo é tido em conta. Desde a percentagem de gorduras e proteínas, passando pela boa conformação das úberes, que reduz a incidência de mastites.

Mas porque isto de arranjar amores eternos tem muito que se lhe diga, as nossas vaquinhas têm de ser examinadas escrupulosamente, de alto a baixo. Quem quer casar com elas é muito exigente e há mínimos que têm de ser cumpridos.

Expostas num pedestal e rodopiando devagarinho, exibem com orgulho os seus atributos, num concurso em que tudo é tido em conta. Desde a percentagem de gorduras e proteínas, passando pela boa conformação dos úberes, que reduz a incidência de mastites. Trocando isto por miúdos, diria que ter boas mamas é muito vantajoso quando se escolhe uma vaca para namorar ou, quem sabe, até casar.

Por outro lado, as nossas concorrentes devem ser saudáveis, sem problemas de reprodução e apresentar pernas e pés com ângulos correctos, bem como uma boa conformação de cascos (confesso que ainda não percebi muito bem esta questão das patas, mas imagino que lhes permita correr mais e melhor, o que, para quem precisa de despalmilhar terreno à procura de boa erva, seja uma vantagem).

Por fim, as nossas vacas devem abrir a boca e exibir os seus molares, mostrando com orgulho as façanhas ruminantes que conseguem fazer.

Posto isto, os candidatos a namorados passam à fase 2 do programa, onde olham e vasculham, mexem e remexem, medem e apalpam, sempre orientados por quem mais sabe: os seus criadores que, quais pais e mães zelosos, garantem a qualidade da mercadoria que levam para casa. Para a quinta, perdão.

Uma vez selecionadas, as vaquinhas vencedoras rumam agora para os pastos dos seus prometidos, de pata dada. E é vê-las com sorrisos e os olhos a brilhar, uma a pensar na viagem até às paisagens açorianas (onde as vacas são mesmo felizes), outra de olho na camioneta de luxo que o seu amado tem, outra ainda deslumbrada com a sogra que a espera e a quem irá provar todos os seus dotes culinários, e não só.E é isto. Aguardemos agora pelos resumos diários onde daremos conta da evolução de cada vaca na quinta dos seus amados.

Respirar fundo…

Este programa fictício é, em boa verdade, inspirado na realidade. Porque a realidade supera sempre qualquer ficção.

Os programas televisivos com que o país foi presentado ontem à noite dão-nos conta de uma realidade decadente e humilhante, e confesso que uma feira de gado ou de escravos foi exactamente a imagem que me veio à cabeça quando percebi o teor do que estava a ver. Um mercado em que se vende mercadoria, que é exposta, analisada e escrutinada até onde for possível. Onde as pessoas que procuram o amor (e procurar o amor é totalmente legítimo, entenda-se) acabam por submeter-se a um papel que coloca em causa todos os direitos que andamos a defender.

Ver mulheres, mães, a escolher as futuras namoradas para os seus filhos com base nos atributos físicos e dotes culinários.

Ver homens, filhos, a permitirem que alguém escolha por si a pessoa com quem devem namorar.

Ver mulheres, candidatas, a permitirem-se ser interrogadas como se de um bem para venda se tratassem.

Ver outras mulheres, também candidatas, a disputar um macho alfa em função da idade e da marca do carro.

Fazemos marchas, abaixo-assinados e o diabo a sete. E depois, toma lá um programa (ou dois, para ver se entendes melhor), para ver se aprendes como é que funciona o mundo.

O que dizer aos nossos filhos que, tal como nós, perceberam o conteúdo destes programas? Que é normal que as pessoas, homens e mulheres, se escolham desta forma? Que os direitos humanos mais básicos são, afinal de contas, violados e isso até é giro e sobe as audiências? Que o papel do homem é escolher ou permitir que a matriarca escolha por si, como acontecia há muitos séculos atrás? E que as mulheres devem submeter-se a essa posição inferior, expondo-se perante alguém superior que as escolhe, ou não, em função de critérios medievais?

Sinceramente, não sei como podemos explicar isto aos nossos filhos. Vão achar, no mínimo, que somos incoerentes. Por um lado, andamos a pregar a mensagem que os homens e as mulheres são diferentes, mas têm os mesmos direitos. Lutamos por um mundo livre de preconceitos, sejam eles raciais, sexuais, políticos, culturais, linguísticos ou económicos. Fazemos marchas, abaixo-assinados e o diabo a sete. E depois, toma lá um programa (ou dois, para ver se entendes melhor), para ver se aprendes como é que funciona o mundo.