Quem são os campeões do Twitter?

"No caso dos políticos [como Donald Trump], o que explica o sucesso estrondoso no Twitter é terem alcançado um estatuto de celebridade que se sobrepõe ao do cargo que ocupam", confirma Daniel Cardoso, doutor em Ciências da Comunicação.

Ícones da pop. Presidentes norte americanos no ativo ou saídos do cargo. Apresentadores. Futebolistas. Socialites. Modelos. Em apenas 280 carateres, inúmeras celebridades levam os seus seguidores à loucura no Twitter, que festeja hoje 14 anos de existência. Para bons entendedores poucas palavras bastam.

Texto de Ana Pago

Os primeiros três anos da presidência de Donald Trump foram um mergulho de cabeça num mediatismo que já tinha vislumbrado como apresentador do reality show The Apprentice, transmitido pela NBC entre 2004 e 2015, antes de ser eleito presidente dos EUA em janeiro de 2017. Sem querer ser chamado à razão por nenhum assessor – não é para isso que paga às pessoas das suas relações próximas -, não há dia em que não vá ao Twitter escrever o que bem entende, desde atacar mexicanos e o “vírus chinês” a fazer a apologia do nuclear. Que lhe importa que Barack Obama tenha mais seguidores do que ele se o mundo continua ávido dos seus tweets desbocados?

“No caso destes políticos, o que explica o sucesso estrondoso no Twitter é terem alcançado um estatuto de celebridade que se sobrepõe ao do cargo que ocupam”, confirma Daniel Cardoso, doutor em Ciências da Comunicação na vertente de Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias. Se Obama conquistou pela inteligência e um charme inabalável, Trump deixa-nos em suspenso quanto ao último desatino que terá protagonizado, além de haver quem veja honestidade intelectual na atitude irrefletida. “Também não nos podemos esquecer que apresentava reality shows, era uma vedeta televisiva antes da política”, acrescenta o especialista em novas tecnologias. Para o bem e para o mal, soube aproveitar muito bem essa atenção.

Conclusões de um estudo de 2019 da Marktest indicam que 54,1% dos portugueses com perfil nas redes sociais admitem ser fãs e seguir marcas, empresas e outros grupos de interesse com presença no Twitter, no Instagram ou no Facebook, seja por gostarem da marca ou para se manterem a par das novidades – as principais razões invocadas. De acordo com a mesma pesquisa, outra tendência claramente enraizada entre os portugueses que utilizam as redes é o hábito de seguirem figuras públicas nestas plataformas – 47,2% dos inquiridos afirmam fazê-lo -, sendo o nome de Cristiano Ronaldo o mais citado.

“É o tal efeito de celebridade de que falava”, sustenta Daniel Cardoso, considerando o impacto do Twitter bastante modesto em Portugal, comparado com o dos EUA, dado que as redes sociais têm marcadores nacionais que fazem que nem todos os países utilizem o Twitter de igual modo ou o encarem com a mesma relevância. Por lá, é das redes preferidas desde o início por ser light, conversacional (arrobas e hashtags põem milhares de desconhecidos à conversa sobre certos temas) e dispensar ligações de alta velocidade numa altura parca em smartphones (dava para enviar tweets por sms, sem dados móveis). “A questão histórica fez muitos aderirem ao Twitter desde o início, e os políticos vão atrás das plataformas onde as pessoas estão”, diz.

Ao mesmo tempo, segundo o investigador, o Twitter acaba por funcionar como uma espécie de corte em que as personalidades públicas interagem diretamente com os seus seguidores, sejam constituintes ou fãs, sem a mediação aparente de um assessor. “Em relação a Trump, por exemplo, acreditamos piamente que há tweets que foi ele a escrever porque mais ninguém conseguiria fazê-lo, não assim”, ri-se. É esta sensação de proximidade que cria um campo fértil para as pessoas sentirem que as figuras de relevo estão perto delas, a cuidar dos seus interesses. A escutá-las.

“Sendo uma ferramenta aberta para comunicar com todos, o Twitter tornou-se fundamental, sobretudo para os políticos”, reconhece o sociólogo Gustavo Cardoso, professor de Media e Sociedade no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Ninguém sabia ao certo o que esperar desta rede social de poucas falas, famosa pelo número limitado de carateres – 140, que entretanto passaram a 280 -, criada por quatro norte-americanos especialistas em software que a puseram a funcionar a 21 de março de 2006, embora só tenha sido oficialmente lançada em julho desse ano. Em janeiro de 2010, o astronauta americano Timothy Creamer enviava o primeiro tweet de sempre do espaço, mostrando quão longe podiam chegar os pios do passarinho azul.

“Por ser um meio que promove o contacto instantâneo, torna-se uma boa forma de saber o que pensam os famosos e até de organizar movimentos de protesto antigoverno”, aponta Daniel Cardoso, que já não se espanta com os muitos milhões de seguidores de Barack Obama e Donald Trump, ao nível dos fãs de estrelas da música como Justin Bieber, Katy Perry, Taylor Swift, ou de craques como Cristiano Ronaldo. Por outro lado, o reverso da medalha é que a rápida circulação de conteúdos facilita a divulgação de fake news, apelos à discriminação e discursos de ódio: “O facto de o Twitter ter uma atitude muito liberal em relação a isto faz que se possa dizer quase tudo sem se ser verdadeiramente contestado ou responsabilizado por isso”, lamenta o investigador.

Também o especialista em redes sociais Rui Lourenço, diretor da agência Popular Jump, acredita que o bom senso é o melhor livro de estilo num palco de reações instantâneas como o Twitter: “Podemos dizer tudo desde que sejamos responsáveis. A minha liberdade de expressão esbarra no direito que o outro tem de não ser rebaixado em público”, sublinha, convicto de que por vezes os mecanismos de vigilância da aplicação não chegam. O escritor Umberto Eco, honoris causa em Comunicação e Cultura dos Meios Sociais, era mais taxativo na crítica: “Dá-se o direito à palavra a legiões de imbecis que antes só falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.”

Um português entre os perfis mais populares

Na verdade, está até à frente de Donald Trump e das suas polémicas na lista dos mais seguidos do mundo no Twitter, segundo dados de 2020 da SocialBakers, uma empresa líder na análise de media social. Mas vamos por partes:

1. Barack Obama
O seu primeiro tweet foi a 5 de março de 2007 e, desde então, Obama usou o Twitter para fazer campanhas, debates, promover leis, apoiar políticas e ser o centro das atenções, ainda hoje. O ex-presidente dos EUA tem 114 milhões de seguidores (o número exato é de 114 089 027).

2. Justin Bieber
Tem 26 anos e é o ídolo de muitos jovens desde 2009, altura em que tinha apenas 15 e não se envolvia em escândalos, drogas ou comportamentos agressivos. Mais calmo de novo agora que saiu de uma depressão e se casou com Hailey Baldwin, o cantor é o segundo mais popular no Twitter, seguido por 110 688 329.

3. Katy Perry
Foi a primeira pessoa do mundo a passar os cem milhões de seguidores no Twitter, um feito registado em junho de 2017 que revelava já a admiração dos fãs pela cantora, compositora e atriz norte-americana. Hoje, noiva do não menos famoso Orlando Bloom está na fasquia dos 108,4 milhões (108 494 565).

4. Taylor Swift
É outra das cantoras, compositoras e atrizes mais mediáticas da atualidade, conhecida pelas canções inspiradas na sua vida pessoal e por falar abertamente de tudo, o que lhe vale 85 848 285 seguidores no Twitter. Aí aconselha o mundo a respirar fundo e a seguir os procedimentos de higiene na luta contra o covid-19.

5. Cristiano Ronaldo
Palavras para quê? O craque madeirense lidera em campo mas também na lista de popularidade do Twitter, seguido de perto por 83 113 381 fãs que não o perdem de vista. É um verdadeiro campeão da rede e dos que mais lucram. Um post (Instagram) ou tweet pago, feito pelo CR7, pode chegar a valer mais de 500 mil euros, segundo empresas especializadas.

6. Lady Gaga
A diva da pop vem logo atrás de Cristiano Ronaldo na lista dos mais falados do Twitter, com um total de 81 056 039 seguidores e a mensagem de que optou por isolar-se em casa com os seus cães nesta fase de incerteza generalizada. Não sendo o mais fácil de fazer, é pelo menos a medida mais sensata para se conter o vírus.

7. Ellen DeGeneres
Com as gravações dos programas suspensas até ao final do mês nos EUA, altura em que o país espera ter a pandemia controlada, a comediante e apresentadora aproveita para ir fazendo “tweets espetaculares” (palavras dela). Já os fãs parecem concordar, dado serem 79,7 milhões (79 730 036) os que a seguem.

8. Donald Trump
Estar sempre envolvido em controvérsias faz que o mundo queira saber o que anda agora a dizer o presidente dos EUA, com 74,1 milhões de seguidores (74 109 969) no Twitter. A última era a de que tentava garantir para o país o direito exclusivo de uma potencial vacina contra o covid-19 a ser desenvolvida na Alemanha.

9. Ariana Grande
É mais uma cantora que pede às pessoas que se recolham e aproveitem a aflição para cuidar de si mesmas e dos outros. “É muito perigoso levarem esta situação com ligeireza”, escreveu na sua conta do Twitter, onde é seguida por 72,1 milhões de fãs (na verdade, por 72 129 110). Cabe-nos a todos combater a propagação do coronavírus.

10. Justin Timberlake
Depois de participar na banda sonora do novo filme de animação da DreamWorks, Trolls 2, o cantor adere agora aos movimentos de solidariedade que começam a surgir a fim de não faltar comida devido ao coronavírus. Para lá do charme, os 64 837 212 seguidores de Timberlake no Twitter apreciam este seu lado generoso.

11. Kim Kardashian
Podia ficar de fora desta lista por figurar em 11.º lugar, mas o facto de ser uma Kardashian, com presença fortíssima nas redes sociais ajuda a ter uma melhor perspetiva do conjunto. Além de a própria socialite, empresária e estilista norte-americana contar com 64 milhões de seguidores (64 058 462) no Twitter.

E os portugueses que dão cartas no Twitter são…

… Estes dez, com Ronaldo à cabeça por uma larga margem, ainda de acordo com números deste ano da Socialbakers.

Cristiano Ronaldo 83 113 381 seguidores
Nani 3 920 506 seguidores
Fábio Coentrão 2 408 852 seguidores
Luís Figo 1 325 787 seguidores
SL Benfica 1 288 143 seguidores
FC Porto 1 228 224 seguidores
Sara Sampaio 911 367 seguidores
Kazzio 857 954 seguidores
Seleção Portuguesa de Futebol 821 754 seguidores
António Guterres 792 102 seguidores

Dicas práticas para ter mais seguidores no Twitter

Mesmo que não consiga vir a alcançar o Cristiano Ronaldo, não é tão difícil como parece chegar a mais pessoas com a sua conta particular.

Otimize o perfil. É tudo o que tem para se apresentar aos outros, então aproveite bem a foto, o nome, os caracteres descritivos e o link para oferecer uma imagem mais profissional da marca (se estiver a promover uma) ou personalizada (na eventualidade de se estar a promover a si mesmo). Seja breve e claro a dizer porque é que as pessoas deverão segui-lo. E por último, mas não menos importante, não dê erros de português.

Defina a audiência. Este segundo passo é tão relevante quanto o da otimização do perfil, uma vez que só definindo a sua audiência saberá que género de conteúdos deve produzir e ir promovendo na sua conta. Menos tweets certeiros valem mais do que muitos tweets.

Publique conteúdos relevantes. Era ao que nos referíamos quando falávamos em tweets certeiros e na importância de saber a quem os dirige. Pode ainda fazer retweets de informações interessantes, como forma de associar o seu perfil às tendências/notícias mais recentes. E pedir à sua audiência que republique o que escreveu para ela, dado que assim terá mais hipóteses de conquistar novos leitores e até de angariar novos fãs.

Deixe um tweet representativo. Sabendo que o que salta logo à vista ao consultar o perfil de alguém são os dois últimos tweets publicados, e que nem todos são igualmente representativos da essência do utilizador ou da marca que os postou, tenha o cuidado de deixar um mais bem conseguido na parte superior do seu perfil, em jeito de cartão-de-visita. Se a rede permite fazê-lo, há que aproveitar.

Seja ativo. Pode programar tweets para vários momentos do dia ou, se preferir a inspiração do momento, ir lá de tempos a tempos fazer a sua intervenção. O importante é não perder de vista o dinamismo do Twitter e aproveitar os diversos horários em que os utilizadores estão ligados. No final, para rematar em beleza, deixe perguntas aos seus seguidores para gerar interação.

Tire partido das hashtags. Usar etiquetas é bom (indexam conteúdos) e recomenda-se (ajudam a encontrar conversas), mas não à toa, até porque podem distrair mais do que agarrar quem entra. Se a ideia for expor a marca, comece por saber qual o tema mais falado numa cidade ou país, e quais os trending topics em determinado momento ou lugar – pode vê-los no site do Twitter, à esquerda.

Interaja com utilizadores influentes. Mencionar nos seus tweets personalidades ou organizações importantes, desde que relacionadas com os conteúdos que está a partilhar no momento, pode impulsionar a sua própria visibilidade. Por outro lado, se os conteúdos deles forem relevantes para a sua audiência, pode sempre segui–los e fazer retweets do que publicam.