Quem tem medo do Halloween?

Halloween

Há quem deteste o Halloween, com os seus cenários de terror e figuras de além-túmulo, mas pelo menos serve de pretexto para se falar dos medos das crianças. E estes podem tornar os miúdos mais fortes, desde que haja adultos que os ajudem a percebê-los.

Texto de Ana Pago

Naquele Halloween há dois anos, em casa de uma amiga do ballet, tudo era novidade e animação para Mafalda: a mãe da colega fazia múmias de salsicha e massa folhada. O pai retalhava duas abóboras em esgares horríveis. As quatro meninas corriam eufóricas vestidas de bruxas, a sonhar com uma noite de gulodices e histórias de terror, como nos filmes. “Conheço bastante bem os outros pais, as miúdas dão-se lindamente entre si. Não vi razão para não deixar a Mafalda ir também”, lembra Teresa Lopes, ainda hoje sem ter a completa noção do horror das garotas.

Só sabe que na manhã seguinte a filha voltou nervosa, com tiques na cara, as unhas roídas. “Durante algum tempo deixou de querer estar sozinha a ler, como antes, incapaz de suportar a escuridão até a dormir”, conta a mãe, desorientada com essa mudança súbita aos 9 anos em que Mafalda chegou a pedir, em pranto, para voltar para a cama dos pais. “Mais tarde, descobrimos que as quatro ficaram a ver um filme no tablet, às escondidas, com uns palhaços horríveis enfiados em sarjetas”, desabafa. Nada que o tempo não tenha sanado, à exceção de uma fobia a palhaços de que não se livrou.

Certos desenhos animados de vampiros, palhaços assassinos ou monstros podem desencadear medo e regressão nas crianças, sobretudo entre os 4 e os 8 anos.

“De facto, é frequente os pais referirem em consulta que alguns desenhos animados com temáticas de vampiros, palhaços assassinos ou monstros acabam por desencadear medo e regressão nas crianças, sobretudo na faixa entre os 4 e os 8 anos”, valida a pediatra Mónica Cró Brás, do Hospital CUF Descobertas e Clínica CUF Alvalade. O resultado traduz-se invariavelmente em noites mal dormidas, dificuldade em adormecer sozinho ou sem luz de presença, não conseguir atravessar zonas da casa mais sombrias nem ficar sozinho (no caso de crianças mais crescidas).

E, no entanto, os medos fazem bem aos mais novos, afirma o psicólogo clínico Eduardo Sá, que escreveu justamente Para que é que servem os medos? por considerar libertador o modo como cada um lida com os seus. “Para eles é mais fácil alarmarem-se com uma história que lhes traga todas as coisas que os assustam do que falarem dos seus medos, um a um, ou terem o discernimento de descrever as situações em que os sentiram”, explica. Nessa medida, histórias com arrepios tornam os miúdos mais fortes e corajosos, desde que haja adultos por perto que os ajudem a entendê-las.

“Os pais devem deixar que os filhos digam o que receiam sem serem censurados, pondo-se no lugar deles para sentirem melhor o que lhes é descrito”, ensina a psicóloga Leonor Baeta Neves, especialista em desenvolvimento infantil. Podem fazer jogos de role playing juntos, se estiverem para aí virados. Brincar com aquilo que os assusta (sempre com muito tato) e até confidenciar-lhes terrores por que eles próprios passaram na mesma idade, e como os ultrapassaram.

Os pais nunca podem desvalorizar o medo que as crianças sentem, seja de bruxas, trovoadas ou monstros no armário.

“Só nunca podem desvalorizar o medo que as crianças sentem, seja de bruxas, trovoadas ou monstros no armário”, avisa Leonor Baeta Neves, para quem troçar apenas fará com que deixem de falar por vergonha, sem mitigar a angústia. “Por muito engraçado que possa parecer aos nossos olhos adultos, o medo tem de ser levado a sério, porque é sério”, diz. É uma ofensa para a criança ser ridicularizada, o que inclui mascará-la contra vontade ou celebrar o Halloween à força para agradar aos adultos.

“Não só não existem medos estúpidos, como nunca se fala deles facilmente”, confirma Eduardo Sá, ciente de que por trás de qualquer medo declarado se escondem outros que é preciso ir descascando aos poucos, como uma cebola. Ter medo é importante. Protege-nos de riscos desnecessários. Mesmo assim, ressalva o psicólogo, o modo como todos lidamos com os medos das crianças – como se fossem sempre maus e só pudessem causar-lhes dano – “talvez queira dizer que não temos, ainda hoje, uma ideia muito precisa da função que eles desempenham no seu crescimento”.

Nem muito precisa nem muito positiva, admite o psiquiatra David Zald, professor na Universidade Vanderbilt, EUA, que defende haver reações de puro prazer no corpo em resposta a vivências de medo controlado (como quando saltamos de paraquedas, atemorizados, e acabamos eufóricos pela descarga de adrenalina). “Para algumas pessoas, essa aceleração sem um real perigo associado torna-se a recompensa por que o cérebro anseia”, revelou à National Geographic o investigador, conhecido por usar o Halloween como desculpa para transformar a sua casa num laboratório do medo (com direito a nevoeiro, esqueletos a saltarem das árvores e muito mais).

Ainda segundo Zald, um outro fator na base deste fascínio masoquista pelo terror tem a ver com o facto de as pessoas que adoram ver O Exorcista (ou, já agora, fazer bungee jumping) terem uma química diferente das que dispensam esses sustos, com as células cerebrais a não serem capazes de regular tão bem a libertação de dopamina, o que deixa o cérebro imerso nela por mais tempo. “Pensando na dopamina como gasolina e juntando-lhe um cérebro menos capacitado do que o normal para usar os travões, temos gente que desafia os limites”, resume o psiquiatra norte-americano.

E quais são os principais medos das crianças, de um modo geral?

Para a psicóloga Leonor Baeta Neves são, no fundo, os medos ancestrais, que o homem pré-histórico já teria e lhe salvavam a vida: “Antes de mais o medo do escuro, porque a andar sem ver podia cair num precipício, encontrar um animal feroz, afogar-se num rio”, aponta a especialista em desenvolvimento infantil. Outro medo antigo é o de animais, dos grandes predadores devoradores de humanos a insetos, cobras e aranhas transmissores de doenças potencialmente fatais. E, claro, o medo da solidão, de ser abandonado, que até um animal sente e está muito associado ao medo da morte.

“Bem vistas as coisas, trata-se de uma separação para sempre, irreversível e independente da nossa vontade, daí ser tão assustadora”, explica a psicóloga clínica Teresa Andrade, professora associada no Instituto Universitário Egas Moniz. Até os adultos sentem um medo terrível deste desconhecido, quanto mais as crianças. Mas por isso é que é tão necessário falar do assunto com calma, abertamente, sem dramatismos nem faltar à verdade.

Medos passam a ser patológicos quando interferem nas atividades normais das crianças e se prolongam no tempo.

“Estes medos passam a ser patológicos quando interferem nas atividades normais das crianças e se prolongam no tempo; quando perturbam o sono ou alteram o padrão de alimentação; quando há uma ansiedade não controlável, alterações de linguagem ou regressão de comportamentos adquiridos, como voltar a fazer xixi na cama”, alerta a pediatra Mónica Cró Brás, incentivando os pais a procurarem ajuda se não souberem como acabar sozinhos com os monstros debaixo da cama dos filhos.

E sim, acontece a criança rir-se ou querer brincar em plena perda, a tentar preencher o vazio que sente, e essa é uma forma tão boa como outra qualquer de enfrentar a angústia de pensar se serão os pais os próximos a ir, ou se elas próprias vão morrer e quando, acrescenta Teresa Andrade. Se entretanto esqueletos e zombies ajudarem a desbloquear conversas em família, evitando alimentar medos desnecessários, tanto melhor. “É um facto: não podemos contornar a morte”, diz a investigadora em pedagogia e luto infantil. Mas podemos ao menos mobilizar apoios para que a vida das crianças seja a melhor possível.