Quer potenciar o desenvolvimento cerebral do seu filho? Dê-lhe música

Neurocientista americano garante existirem provas científicas de que a música potencia o desenvolvimento do cérebro das crianças. Por cá, a Associação Portuguesa de Educação Musical considera que a música devia fazer parte dos currículos do 1º ao 9º ano de escolaridade.

Texto Joana Capucho | Fotografia Jorge Amaral/Global Imagens

Julieta começou a participar em atividades de música quando ainda era bebé de colo. “Adorava. Era uma bebé tímida, mas nessas atividades participava sempre. Era muito recetiva”, conta a mãe, Sónia Santos, professora de 1º ciclo. Quando fez um ano, a mãe inscreveu-a na oficina de música da creche, como forma de diversificar as atividades a que estava exposta. “E ajudou na adaptação à escola. Quando tinha música, notava-se que tinha mais vontade de ir para a escola”, recorda.

Aos três anos e meio, Julieta mantém-se na oficina de música, agora do pré-escolar, enquanto o irmão, Sebastião, de 21 meses, frequenta a formação para bebés. “É apenas por uma questão lúdica. Não temos qualquer pretensão que se tornem músicos ou que queiram vir a aprender a tocar um instrumento. Mas sinto que tem benefícios”, afirma Sónia. Na opinião desta mãe, a música “ajuda-os a expressarem-se de uma maneira mais desinibida, mais criativa, fomenta o sentido de estética”. Além disso, sublinha, “tem impacto na coordenação motora e na consciência corporal”.

Vários estudos têm vindo a comprovar os benefícios da aprendizagem musical no crescimento das crianças e adolescentes. Um dos investigadores que se tem dedicado a esta área é John R. Iversen, neurocientista americano, que defende que a música transforma o cérebro das crianças. Citado pelo ABC, no âmbito de um fórum sobre linguagem que decorreu em Madrid, o especialista diz que “existem provas científicas de que a música, de facto, influencia o desenvolvimento de certas habilidades nas crianças”.

De acordo com o neurocientista da Universidade da Califórnia em San Diego, “a música aumenta as capacidades cognitivas e melhora o desenvolvimento do cérebro das crianças desde tenra idade”. Ao reforçar o desenvolvimento das vidas neuronais, a música ajudará a melhorar o desempenho escolar em determinadas áreas de aprendizagem, com vantagens ao nível da disciplina, atenção, autonomia e memória.

Para Manuela Encarnação, presidente da Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM), é preciso ter alguma cautela na associação da música ao QI.

Foram estas as principais conclusões que John R. Iversen tirou do estudo Symphony, no qual acompanhou 200 crianças de uma escola primária durante cinco anos, medindo a estrutura do cérebro e as suas habilidades cognitivas. Segundo o investigador, “a neurociência, a música e o movimento são essenciais para o desenvolvimento holístico e cognitivo de uma criança”. No seu entender, a exposição constante à música e à aprendizagem musical nos anos pré-escolares “aumentam o quociente de inteligência (QI), porque esta atividade provoca atividade máxima no cérebro”. Mas esta é uma questão controversa: será que as crianças têm um QI maior porque estão a aprender um determinado instrumento, ou será que é o facto de terem um QI maior que faz com que tenham maior aptidão para a aprendizagem musical?

Para Manuela Encarnação, presidente da Associação Portuguesa de Educação Musical (APEM), é preciso ter alguma cautela na associação da música ao QI. No entanto, frisa, cada vez existe mais investigação no campo das neurociências, da música e da linguagem, que mostra as enormes potencialidades desta forma de arte. “A música são sons com uma determinada organização, tal como a nossa linguagem. De acordo com a neurociência, uma criança que tenha um ambiente à sua volta muito rico em termos musicais, terá as relações neuronais favorecidas”, explica.

Citando Edwin Gordon, a professora refere que “todas as pessoas nascem com um determinado potencial musical”. Se não for desenvolvido até aos 9 anos, diminui. Contudo, “se a pessoa nascer com pouco potencial mas tiver um desenvolvimento muito grande, chegará muito além”. E o ambiente em que a criança cresce será determinante para o seu desenvolvimento. “Se estiver no silêncio ou exposta ao barulho de carros ou num ambiente calmo com música, o desenvolvimento será diferente”, refere a presidente da APEM.

As oficinas da pequenada

Nuno Silva, coordenador das Oficinas da Pequenada da Oficina de Música de Aveiro, leva a música aos bebés e às crianças do pré-escolar de diversas instituições e centros sociais da região. Mestre em ensino de música, o professor de trompete clássico considera que as afirmações de John R. Iversen fazem sentido. “Quando apanho turmas que tiveram música no berçário, comprovo que o estímulo é diferente”.

“Como é que é possível o Estado, na escolaridade obrigatória, só exigir música no currículo às crianças do 5º e do 6º ano?”, questiona Manuela Encarnação

Segundo Nuno Silva, “quando chegam ao pré-escolar, as crianças que já tiveram ensino de música têm uma maior perceção auditiva, noção de afinação e coordenação motora do que crianças que não tiveram. É taxativo”. No caso dos bebés, conta, há casos em que ficam a absorver durante várias sessões, até que depois começam a interagir. Tudo depende da criança. “A forma como reagem aos estímulos é completamente diferente”, frisa. Dependendo das idades, vão utilizando diferentes instrumentos de percussão – pandeireta, caixa chinesa, reco-reco – e contactando com outros como trompete, piano e guitarra.

Em Portugal, o ensino de música é feito por professores especialistas no 2º ciclo do ensino básico. No entanto, a APEM defende que deveria ser alargado. “Como é que é possível o Estado, na escolaridade obrigatória, só exigir música no currículo às crianças do 5º e do 6º ano?”, questiona Manuela Encarnação, destacando que a vontade da associação é que “a música faça parte do currículo do 1º até ao 9º ano”.

Entre os benefícios do cantar e da música em geral, a presidente da APEM destaca os psicológicos (comunicação intrapessoal e interpessoal), físicos (respiratórios, cardíacos, neurológicos), educacionais (melhorias na compreensão e conhecimento, impacto na literacia), sociais (aumenta o sentimento de comunidade) e musicais (memória musical, perícia da voz, criação de repertório).