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NO QUARTO QUE PARTILHAM, as minhas duas filhas têm duas camas iguais. É o mesmo modelo, comprado no Ikea e montado em casa. Têm apenas uma diferença. A da Carolina foi montada por mim e pela minha mulher, enquanto ela via as instruções. A da Madalena foi montada por mim, sozinho. Resultado? A Carolina dorme à altura normal, mas a Madalena tem uns centímetros a mais a separá-la do chão porque o pai não interpretou bem o que dizia o desenho e virou uma peça ao contrário.

EU E A MINHA MULHER não nos chateámos por causa disto. Até porque o facto de eu ter decidido meter mãos à obra sozinho não deixa grande margem para dúvidas sobre quem errou E, tendo em conta que há outra cama, igualzinha, a uns dois metros, com tudo no sítio, não posso culpar as instruções defeituosas. Mas podia ter acontecido. É que isto de comprar e montar móveis idealizados por comedores de arenque fumado em países onde faz um frio do camandro pode virar nos a cabeça do avesso.

É PELO MENOS essa a conclusão a que chegou Corinne Purtill no artigo Why Ikea Causes So Much Relationship Tension [«Porque é que o Ikea provoca tanta Tensão nas Relações»], publicado há uma semana na edição online da revista Atlantic. A autora falou com psicólogos, peritos em comportamento e terapeutas familiares para tentar perceber por que carga de água é que tudo o que tem a ver com mobiliário sueco pode desencadear as mais ferozes trocas de argumentos entre duas pessoas que, supostamente, se querem bem. Nesse aspeto, tal como as nossas filhas com as camas, eu e a minha mulher não fugimos à média. No que toca à forma como deixamos o Ikea entrar pelas nossas vidas adentro, não devemos ser diferentes de todos os casais que já se chatearam sobre cómodas Hemnes, cadeiras Fingal, secretárias Kallax ou sofás Karlstad. Já vi gente a discutir na secção de criança, de cara fechada na zona do restaurante, a contar até dez para não se enervarem ao pé dos sofás, a ficarem a falar sozinhos junto às camas, enervados quando chegam à caixa e com ar de quem só quer que aquilo acabe rapidamente enquanto tentam enfiar todas as caixas achatadas dentro do carro. Só não sei o que se passa a caminho de casa, mas o ambiente não deve melhorar quando ligam a ignição.

UMA DAS PSICÓLOGAS citadas no artigo acredita que algumas áreas temáticas são mais sensíveis a discussões do que outras. Não pelo que ali se expõe. Mas pelo que dali se infere. A zona das camas pode levar a discussões sobre sexo, as cozinhas fazem lembrar a (má) partilha de tarefas e os quartos de crianças espoletam… tudo (como acontece com as próprias crianças). Já para não falar nas questões de gosto e nos significados profundos que atribuímos à opinião diferente da outra pessoa. Se eu gosto mais da mesa Ingatorp, mas tu preferes o aparador Liatorp, «será que queremos o mesmo tipo de casa? E o mesmo tipo de vida?»

DEPOIS VEM O MOMENTO em que se monta a coisa. Quem diz que a peça A vem para aqui e a B para ali? E se aquilo é tudo fácil, basta seguir os desenhos, porque é que se chateiam? «Idealizados para serem usados em qualquer cultura ou língua, os manuais de instruções enganadoramente simples da Ikea podem dar aos clientes a impressão (muitas vezes errada) de que a tarefa pode ser realizada em pouco tempo e sem grande esforço», escreve a autora. Mas não é bem assim. «E muito rapidamente, se não fizerem um intervalo, vão ficar irritados e virar-se contra a vossa mulher ou o vosso marido», diz Don Ferguson, um dos psicólogos consultados. E lá vem a discussão. Não sobre o armário Lillagen que não conseguem montar. Mas sobre tudo o resto que vem à tona quando falamos de coisas básicas de sobrevivência. Como montar um móvel Ikea.

[Publicado originalmente na edição de 27 de setembro de 2015]