Queremos todos ser perfeitos. E isso pode destruir-nos

Uma característica que podia ser vista como uma mais valia para sermos melhores pode tornar-se um perigo para a saúde mental.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de iStock

Uma adolescente portuguesa de 15 anos admitia que escondeu o resultado de um teste de matemática aos pais com medo da reação. Teve 12 valores, abaixo da sua média, mas um resultado perfeitamente aceitável.

Chorou diante da professora e decidiu estudar mais ainda – já estuda todos os dias. Quer uma média imaculada. Tudo o resto é fracasso. Que ideia é esta de perfeição em que não há lugar para os maus resultados – tão importantes para a aprendizagem?

A procura desenfreada e irrealista de perfeição torna-se um rastilho poderoso para problemas de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas.

A psicóloga Jéssica Pryor disse à Atlantic que, quando viveu ao lado de uma universidade, reparou nos estudantes que entravam com sacos-cama e café. Chegavam a passar 12 a 18 horas no laboratório.

Cientistas em construção que não se permitiam as vantagens de ser jovem. «Claro que as relações à volta destas pessoas tornam-se distantes. Começam a não ser convidados para os eventos e isso leva a mais tempo naquele ambiente», dizia a psicóloga.

Esta tendência de querer fazer tudo perfeito tornou-se uma das grandes preocupações dos especialistas. Ainda que querer ser o melhor possa ser visto como uma qualidade, a procura desenfreada e irrealista de perfeição torna-se um rastilho poderoso para problemas de ansiedade, depressão e pensamentos suicidas.

Desenganem-se os céticos, esta predisposição está a aumentar. Um estudo publicado este ano com milhares de estudantes dos Estados Unidos, do Canadá e do Reino Unido concluiu que os jovens de hoje têm mais necessidade de perfeição que os nascidos nas décadas de 1990 e 2000.

Foram medidos três padrões de perfeccionismo: auto direcionado, ou seja, o desejo em ser perfeito; a pressão socialmente imposta e a pressão de atingir padrões impostos por terceiros. De 1989 a 2016, o desejo em ser perfeito aumentou 10 por cento, a pressão social 33 por cento e a pressão importa por outros 16.

O Facebook e Instagram dizem-nos o quanto as nossas vidas são «gostadas» quando comparadas com as dos outros. É uma premissa perigosa.

É possível perceber que esta procura está em vários momentos do nosso dia-a-dia. A psicóloga Amy Bach dá, à The Atlantic, o exemplo entre casais. Se vive com alguém que procura a perfeição vai sentir uma pressão diária para atingir a mesma meta. Torna-se insustentável e reflete-se nos pequenos detalhes. «Uma das discussões mais comuns entre casais é a forma como colocam a louça na máquina. Pensaria que este é um detalhe insignificante, não é?».

O perfeccionismo imposto pela sociedade atingiu um ponto preocupante com a evolução das redes sociais. Estamos dependentes desta ideia. O Facebook e Instagram dizem-nos o quanto as nossas vidas são «gostadas» quando comparadas com as dos outros. É uma premissa perigosa. «A minha autoestima é condicionada pelo que os outros pensam de mim», explica Amy.

O perfeccionismo pode ser uma força positiva. No desporto, um atleta de alta competição está sempre à procura da superação. Se tiver essa vontade bem ajustada à sua personalidade, se não ganhar o ouro, ultrapassa, segue em frente e volta a tentar.

No entanto, se coloca toda a ênfase na busca a perfeição, vai fazer um «arquivo» de todos os falhanços e vai sentir «a necessidade de sentir-se mal para que não volte a acontecer», explica Jéssica Pryor. Segue-se a vergonha, a sensação de falhanço e de punição que faz com que a pessoa tente atingir objetivos cada vez mais impossíveis. Torna-se um ciclo vicioso perigoso.

Querer ser a melhor pessoa não é mau. Ter objetivos e cumpri-los muito menos. Mas o caminho é feito de altos e baixos e é preciso perceber isso para conseguir absorver toda a aprendizagem.