Querido, não leves o telemóvel para a casa de banho

Não sei se acreditam nestas coisas, mas se é verdade que temos o que merecemos (fatalismos à parte) e que o universo se encarrega de nos dar o que precisamos, o cosmos lá deve ter achado que eu precisava de levantar mais a cabeça… É que ultimamente andava a passar demasiado tempo a olhar para baixo. Para o telemóvel na minha mão.

Tenho um iPhone e, tal como milhares de utilizadores, descarreguei há dias o novo sistema operativo. O iOS7 devia ser a última Coca-Cola no deserto, e milhares de utilizadores pelo mundo inteiro aguardavam por esta novidade messiânica como se fosse o dia do juízo final em forma de sexo e guloseimas. Mas, para mim, foi apenas um valente turn-off. Um empata. E, a julgar pelo que me disseram os serviços técnicos da minha operadora, não fui o único a ter problemas. Telefonema para a esquerda e para a direita, consultas a sites da especialidade, pedidos de ajuda online… nada resultou. Resultado: o meu iPhone está em coma há quatro dias.

Mas o que podia ser um pesadelo tecnológico de infoexclusão acabou por se tornar numa interessante viagem ao passado – quando não havia nada disto e, mesmo assim, os rios continuavam a correr e o Sol continuava a nascer.

E o que tem isto que ver com relações? Basicamente… tudo. Se por um lado as teclas e a distância podem fazer maravilhas pela libido e pelo desejo, dando-nos a coragem que não temos no cara-a-cara, por outro a internet disponível numa coisa que enfiamos no bolso ou na carteira veio mesmo mudar a forma como nos relacionamos com as pessoas que estão ao nosso lado, com quem almoçamos, com quem nos deitamos. É um cliché, mas vale a pena repetir: depende de cada um dar a estas tecnologias e ao que fazemos com elas a melhor utilização possível, sem cair em extremos. Dantes não havia nada disto e as pessoas também respiravam. Mas dantes também não havia carros, telefones, eletricidade, computadores, ar condicionado. E tudo isso mudou a nossa vida. Para melhor, certo?

O bom senso deveria ser suficiente para evitar exageros de comportamento. Mas a sensatez foi mal distribuída à nascença e nem toda a gente tem o discernimento para ver quando está a cair no ridículo. Eu sou capaz de ter exagerado algumas vezes. E sou capaz de ter achado que a minha mulher estava a exagerar outras tantas, quando se queixava de eu passar a vida a olhar para o raio do aparelho – já para não falar que comecei a demorar muito mais tempo na casa de banho, porque cada viagem ao WC era também uma viagem às férias dos amigos, às fotografias dos conhecidos, à notícia das cheias no Brasil e à reportagem sobre o novo metro de Tóquio. E, diretamente dos meus sanitários, enviava e-mails de trabalho, atualizava o perfil de Facebook e distribuía likes. Antes de lavar as mãos.

Não quero armar-me em profeta antidigital new age que viu a luz só porque o raio do iPhone precisa de um desfibrilhador. Continuo a achar que os smartphones são uma excelente invenção e a minha vida profissional de jornalista melhorou da noite para o dia desde que passei a resolver assuntos muito mais depressa. Possivelmente, quando o meu telemóvel acordar do sono profundo em que caiu, voltarei a ter comportamentos que acho agora um pouco bizarros. É provável que, dentro de umas horas ou de uns dias, quando o meu telemóvel esperto ressuscitar, volte a fazer o mesmo – nomeadamente phubbing, o ato de ignorar as pessoas à volta enquanto olho para o pequeno ecrã. A diferença é que, se calhar, terei outra noção do que é demais. E passarei a demorar menos tempo na casa de banho. Até lá, andarei mais leve e menos informado sobre o que se passa no mundo. Entretanto a minha mulher agradece. À Apple, por ter um produto que deu erro. E ao universo, claro.

[29-09-2013]