Realidade virtual mais eficaz que a terapia para curar o medo de alturas?

Seria capaz de salvar um gato de uma árvore ou tocar xilofone na varanda de um arranha-céus? Pense bem. Agora imagine que o fazia sem sair do lugar, com a ajuda da realidade virtual? Esta é a proposta de um estudo que tem como objetivo ajudar a curar a fobia de alturas – um dos nossos medos mais comuns.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Shutterstock

Encontrar novas soluções -e mais eficazes – para tratar doenças mentais é um dos desafios da nova era da ciência.

Uma pesquisa realizada pela empresa Oxford VR e pela Universidade de Oxford demonstrou, pela primeira vez, que é possível obter bons resultados na terapia levada a cabo apenas através realidade virtual. Esta equipa desenvolveu um programa que ajuda a tratar o medo das alturas sem ser preciso um especialista presente.

«Esta é das fobias que afeta mais pessoas, que muitas vezes não têm o tratamento adequado, tornando-se bastante incapacitante para as suas vidas» afirma Daniel Freeman, professor de psicologia clínica e um dos autores do estudo.

100 pessoas diagnosticadas com este distúrbio foram separadas em dois grupos, ao acaso. Durante duas semanas, um dos grupos teve sessões de meia hora com simuladores de realidade virtual, enquanto o outro grupo não teve nenhum tratamento específico.

Nessas simulações, os participantes começaram por responder a uma série de questionários e foram depois superando exercícios que aumentavam de dificuldade consoante o desempenho. Cada tratamento foi personalizado tendo em conta as respostas, uma vez que foi possível a interação com o mentor virtual (Nic) através de reconhecimento vocal.

Para o sucesso da implementação desta ferramenta no tratamento de fobias, foi importante que «a experiência virtual tenha sido feita corretamente para despertar as mesmas reações fisiológicas e psicológicas que as situações que as pessoas vivem no dia-a-dia».

No final das duas semanas, o grupo que recebeu acompanhamento virtual mostrou uma média de 68% de redução do medo, um resultado «muito melhor que o esperado com o tratamento convencional», afirma o professor de psicologia, garantindo ainda que os testes foram desenhados para serem «o mais imaginativo, divertido e fácil de navegar possível».

Para o sucesso da implementação desta ferramenta no tratamento de fobias foi importante que «a experiência virtual tenha sido feita corretamente para despertar as mesmas reações fisiológicas e psicológicas que as situações que as pessoas vivem no dia-a-dia», garante Freeman.

O psicólogo Vítor Rodrigues considera que esta utilidade da realidade virtual pode ser «bem-vinda, uma vez que o sistema emocional funciona mais com base em imagens, emoções ou memórias emotivas do que através da razão.»

O psicólogo e autor Vítor Rodrigues admite que esta utilidade da realidade virtual pode ser «bem-vinda, uma vez que o sistema emocional funciona mais com base em imagens, emoções ou memórias emotivas do que através da razão.»

No entanto é preciso cautela, avisa, já que «terá sucesso em alguns casos mas está longe de o ter em todos, porque as fobias chegam a ter origens longínquas ou inconscientes que não se compadecem apenas com a experimentação de cenários hipotéticos.»

Ou seja, para o psicólogo, estes estudos «têm a aparência de tratamento, podem ajudar efetivamente, mas é sempre preciso um trabalho psicoterapêutico a acompanhar.»

Apesar dos resultados satisfatórios, o estudo não demonstrou se os efeitos da experiência eram visíveis a longo prazo.