RED-S: que síndrome é esta que está a esgotar os atletas?

Três anos sem ter o período e tendências suicidas. O relato arrepiante da atleta Mary Cain
Mary Cain com o treinador Alberto Salazar.

A jovem promessa do atletismo americano, Mary Cain, revelou recentemente num vídeo partilhado pelo The New York Times Opinion que foi “fisicamente e psicologicamente abusada” durante o período em que integrou o programa de treino Nike Oregon Project, coordenado pelo treinador Alberto Salazar.

Texto de Helena Trigueiro e Rita Giro, nutricionistas

A atleta de 23 anos, acusou o treinador de a incentivar a tomar fármacos contracetivos e diuréticos, de a humilhar em público e insistir agressivamente para que perdesse peso. A pressão para perder peso era recorrente, mesmo perante um cenário de amenorreia (ausência de menstruação por um período igual ou superior a três meses) e de a atleta ter sofrido repetidas fraturas em cinco ossos diferentes. Quando abandonou o programa, Cain não tinha a menstruação há três anos, praticava automutilação, e confessou ter pensamentos suicidas.

A exposição deste caso iniciou a discussão sobre os contornos que a cultura desportiva pode assumir, e que em última análise, pelas palavras da própria, “apenas encara o atleta como um produto, executante, e não como uma pessoa”.

O Nike Oregon Project foi um programa de treino de elite de atletismo nos EUA, criado pela marca Nike, que foi encerrado após Alberto Salazar ser suspenso durante quatro anos pela Agência Norte-americana Antidopagem (USADA), por incitação ao doping.

O programa esteve novamente envolto em escândalo após as declarações de Mary Cain. Curiosamente, em março deste ano, a Nike reuniu mais de 40 atletas femininas em Paris para apresentar a nova coleção de equipamentos nacionais com o mote “Inspirar a nova geração de atletas femininas”.

Apesar de várias tentativas de tornar visível o seu apoio às atletas, o facto de promover programas como o Oregon Project, ter alegadamente dificultado a licença de maternidade a atletas que patrocina e ser acusada de discriminação de género na remuneração, não abonam em favor da imagem que a marca tem procurado compor.

RED-S pode definir-se como a síndrome que se manifesta quando a energia disponível após o gasto energético com o exercício não é suficiente para assegurar as funções fisiológicas mais básicas do/a atleta.

A exposição deste caso iniciou a discussão sobre os contornos que a cultura desportiva pode assumir, e que em última análise, pelas palavras da própria, “apenas encara o atleta como um produto, executante, e não como uma pessoa”.

A toxicidade sistémica que a atleta identificou poderá também ser consequência de desinformação entre equipa técnica, atleta e familiares, e ausência de apoio profissional preventivo. Cain é na verdade um exemplo muito representativo de RED-S (Relative Energy Deficiency in Sport).

De uma forma simplificada, RED-S pode definir-se como a síndrome que se manifesta quando a energia disponível após o gasto energético com o exercício não é suficiente para assegurar as funções fisiológicas mais básicas do/a atleta.

Casos mais graves de RED-S durante o processo de crescimento podem resultar em osteoporose prematura, como terá sido o caso de Mary Cain, na altura com 16 anos.

O organismo não diferencia se está propositadamente em défice energético para perda de peso, ou em situações de privação indesejada de alimento (fome). Como tal, a resposta é a mesma: entrar em modo de sobrevivência e amenizar funções não essenciais à sobrevivência para poupar energia.

Isto traduz-se numa diminuição dos níveis hormonais de estrogénio nas mulheres e testosterona nos homens, resultando no comprometimento, entre outros, do metabolismo basal, função menstrual nas mulheres, saúde óssea, imunidade, síntese proteica e saúde cardiovascular.

Distúrbios menstruais serão provavelmente a consequência mais evidente e imediata, podendo ocorrer um mês após o início da baixa disponibilidade energética. Transtornos a nível ósseo são geralmente apenas mensuráveis dentro de cerca 6 meses. São igualmente causados pela redução de níveis hormonais que se repercutem numa redução da produção de proteínas e numa maior utilização das existentes para a obtenção de energia, nomeadamente das proteínas estruturais do osso.

Dada a crescente competitividade e intensidade da prática desportiva, a emergência de casos semelhantes tem tendência a aumentar.

Casos mais graves de RED-S durante o processo de crescimento podem resultar em osteoporose prematura, como terá sido o caso de Mary Cain, na altura com 16 anos. O acrescento de massa óssea é cada vez menor ao longo do tempo, e as sequelas são geralmente irreversíveis.

Quer esta baixa disponibilidade energética se deva a uma ingestão alimentar insuficiente, a um excessivo gasto energético com o exercício, ou ambos, está bem estabelecida como causa primária destes efeitos. Importa realçar que a situação pode não ser necessariamente propositada. Ou seja, ainda que o/a atleta ache que se esteja a alimentar adequadamente, pode não ser suficiente para responder às exigências a que se encontra sujeito. Estas situações são comuns na prática clínica com atletas, e não são facilmente ou rapidamente identificadas sem ajuda profissional.

Dada a crescente competitividade e intensidade da prática desportiva, a emergência de casos semelhantes tem tendência a aumentar. Estima-se que 63% das atletas de desportos como atletismo, ciclismo, triatlo, entre outros, apresentem baixa disponibilidade energética, independentemente do diagnóstico de distúrbios alimentares.

O objetivo de um atleta de elite e da sua equipa técnica será sempre maximizar o rendimento desportivo. A dúvida que prevalece é: a que custo?

No âmbito da prevenção de RED-S destaca-se a relevância de avaliações antropométricas regulares, aplicação de ferramentas de rastreio de baixa disponibilidade energética e das suas consequências, esclarecimento de dúvidas e formação para treinadores, equipa técnica, atletas e familiares, para além da orientação na ingestão alimentar.

São apenas algumas das medidas que deveriam ser encaradas como fundamentais, e a implementar de forma transversal a todas as modalidades. Em desportos nos quais o peso é uma variável importante, estas ações são ainda mais urgentes, principalmente com atletas mulheres, adolescentes e crianças.

Para a implementação destas medidas, a colaboração com nutricionistas no contexto desportivo é necessária. Contudo, ainda se verifica resistência por parte de clubes em contratar nutricionistas, e habitual preferência por nutricionistas do sexo masculino.

É urgente intervir na prevenção. O objetivo de um atleta de elite e da sua equipa técnica será sempre maximizar o rendimento desportivo. A dúvida que prevalece é: a que custo? Valerá a pena potenciar o desempenho desportivo se a saúde não for priorizada, e o atleta não for protegido? O comprometimento da saúde tem um impacto negativo na performance desportiva, e este ciclo é ainda subvalorizado e negligenciado no desporto.