Regras (e dicas) para que nada falhe numa videoconferência

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O isolamento social lançou-nos num boom repentino de comunicação à distância, com videoconferências a torto e a direito e nenhuma preparação de como nos devemos apresentar. Quais são, afinal, as regras para falar com os outros, ainda que eles só possam ver-nos num ecrã?

Texto de Ana Pago

Videoconferências, embora muito úteis, são desconcertantes, como se o trabalho feito em reclusão nesta pandemia de covid-19 já não fosse o nosso. E ainda podem ser mais perturbadoras na medida em que fomos todos empurrados para elas sem preparação, sem saber como falar ao mundo a partir de uma câmara, o que nos deixa cara a cara com demasiados conferencistas de papada, sobrancelha única e até pelos a saírem do nariz.

“Dependendo da natureza da videoconferência, é aceitável que não usemos gravata ou roupa demasiado formal como faríamos no escritório, mas os básicos são inegociáveis: barba aparada, cabelo arranjado e roupa adequada à natureza da nossa atividade, uma vez que estamos ao serviço mesmo estando em casa”, defende o media training coacher Elgar Rosa, fundador da agência de relações públicas Pure.

Os mais descontraídos argumentarão que não é bem assim, só importa o que se vê, pelo que não há mal em usarem calções ou pijama da cintura para baixo, desde que se vistam formalmente da cintura para cima. Está errado, contrapõe Elgar Rosa: “Pode parecer um pormenor, mas não sabemos à partida se não teremos de nos levantar numa situação de emergência, sobretudo com crianças em casa”, aponta. De resto, os lapsos mais comuns resultam quase sempre de se desvalorizar o contexto, a começar nos fatos de treino e a acabar nos filhos pequenos ao colo quando se está em videochamada.

“A manutenção de uma imagem profissional, nesta fase, é fundamental”, confirma Raquel Guimarães, diretora da Fashion School, no Porto, e especialista em imagem pessoal, profissional e respetivo enquadramento comportamental. Assim por alto, as principais dicas resumem-se ao estado do cabelo – bem cuidado –, barba – feita ou aparada –, maquilhagem – leve, a dar alguma frescura –, luminosidade e neutralidade do ambiente – o ideal é o foco não ser transferido da mensagem para o nosso pano de fundo. Não há como descurar nenhum destes tópicos assumindo que se trata de trabalho, avisa a gestora de imagem.

Quanto àqueles erros absolutamente imperdoáveis, que nunca devem ser cometidos em qualquer circunstância, “prendem-se com pouca higiene (barbas por fazer ou aparar), cabelos por lavar ou pentear, comer durante as reuniões, ter todo o ar de quem acabou de acordar e deu início aos trabalhos, estar deitado ou reclinado no sofá ou na cama, apresentar-se aos outros de pijama e robe ou ter os animais domésticos em redor a fazerem barulho”, enumera a consultora.

Da mesma forma que não passaria pela cabeça de ninguém ir para o escritório de leggings, a acariciar o gato, não podemos fazê-lo em casa e esperar ser levados a sério. “A regra na videoconferência é mesmo o bom senso. Nem desvalorizar nem sobrevalorizar, já que não é muito diferente de outras situações de convívio social e laboral em presença”, sublinha Elgar Rosa, aconselhando a escolha de uma divisão iluminada, com boa acústica e cobertura de internet, onde dê para falar sem interrupções da família.

“A quem se sente intimidado por câmaras, incluindo as de computadores ou telemóveis, recomenda-se ainda que evite fatores de stress como atrasos, estar onde exista o risco de ser interrompido ou não testar a ligação e o som”, acrescenta o media training coacher. É isso e fugir da posição de baixo para cima, um erro clássico: “Muitas vezes as pessoas têm o telemóvel ou o computador bastante abaixo do nível dos olhos e acabam por se debruçar e ocupar o ecrã, com o rosto visto de baixo para cima”, diz.

Dicas práticas

“A linguagem corporal deve projetar uma atitude profissional de segurança, proatividade e eficiência, sempre com a preocupação de o nosso rosto e parte do tronco estarem completamente enquadrado na tela”, explica a gestora de imagem Raquel Guimarães. Tom Ford, o reconhecido estilista norte-americano, deu dicas, muito práticas, ao The New York Times, que vão além do sentarmo-nos com as costas direitas. A saber:

Colocar os dispositivos ao nível dos olhos (é aceitável empilhar livros até o topo do computador ficar alinhado com o topo da cabeça da pessoa sentada, ou ligeiramente acima) e afastarmo-nos cerca de um metro: nem demasiado longe, nem demasiado perto.

O passo seguinte é colocar um candeeiro de secretária sobre a mesa ligeiramente atrás do computador, à altura do ecrã onde o seu rosto vai aparecer e do lado que mais o favorece (pode ser o direito ou o esquerdo, o que importa é a iluminação final), para que a luz possa incidir suavemente sobre ele.

Não havendo uma toalha branca com que cobrir a secretária, coloque uma folha de papel branca na mesa a que está sentado, à frente da pilha de livros (atenção para deixar este pequeno truque fora do alcance da câmara), de maneira a aumentar o nível de luz nas sombras projetadas pela luz principal.

Por último, mas não menos importante antes de intervir, ponha bastante pó de maquilhagem no rosto para evitar o brilho excessivo da pele.

Foco e atenção

Outro fator importantíssimo, segundo Elgar Rosa, é manter em permanência o contacto visual com a câmara após alinharmos o topo do dispositivo com o cimo da nossa cabeça: “É muito desagradável estarmos a falar num grupo e vermos um dos participantes a teclar ou a consultar o telemóvel” (quem nunca?). Para que ninguém caia na tentação de se desfocar da videochamada em curso, o relações públicas recomenda a cada um desligar o e-mail e as notificações do telemóvel até a reunião terminar.

O que nos deixa, apenas, com o que vestir: por um lado nada de formalismos excessivos, pretos ou cinzas (que em muitos casos pesam na imagem), por outro também nada de grandes decotes, ombros expostos e roupa com alças. “As mulheres devem optar por blusas mais informais em tecidos leves e destruturados, ou por peças de malha em modelos mais justos”, ensina Raquel Guimarães. Homens têm os polos com ou sem mangas, malhas de gola redonda ou decote em V, T-shirts ou camisas informais.

No caso de uma videoconferência mais séria não fica descartada a hipótese de uma T-shirt lisa em cores claras, um polo mais justo, uma camisa branca. A nota de topo será um blazer tipo camisa com detalhes informais, “em tecidos leves e tons azulados, de forma a projetar empatia e otimismo”, acrescenta a diretora da Fashion School. Escusado será dizer que até o melhor casaco perde o efeito se as pessoas em linha o virem discursar de pantufas felpudas e semblante deformado.