Resposta da mãe que acabou de se divorciar para a filha adolescente

– Mãe, viste o meu e-mail?
– Vi, vi. Tens muita graça.
– Viste e não respondeste?
– Era para responder? O que é que querias que respondesse àquilo? Pensava que eram só provocações para eu me rir.
– Algumas eram provocações, mas havia ali dicas importantes para ti. Conselhos úteis. Sugestões. Ficaste chateada?!
– Não fiquei chateada. Só me chateio com coisas sérias. Já te disse que achei piada. Até partilhei com as minhas colegas.
– Tu mostraste aquilo a outras pessoas? Não posso!
– Claro que mostrei. Fartámo-nos de rir. Gostei particularmente da parte em que dizias que não querias que eu desabafasse contigo quanto a sexo.
– É verdade. Não quero que fales comigo sobre isso.
– Mas ouve lá: o que é que te passou pela cabeça para achares que eu ia falar contigo sobre sexo? Contigo, o tema sexo tem apenas uma direção. De mim para ti. Eu a falar contigo para saber se tens juízo e, quando for a tua primeira vez, para saber se tomaste as precauções todas. Mas tu achavas sinceramente que eu ia partilhar as minhas aventuras contigo?
– Quais aventuras? Porque é que estás a falar no plural.
– Filha, a tua mãe está divorciada mas não está defunta. E não estou deprimida, está descansada. Isto significa que não estou desesperada para me enrolar com um qualquer, mas também não vou ficar à espera de um príncipe encantado. Isso na minha idade não existe.
– Então quer dizer que desde que o pai saiu de casa já dormiu cá alguém?
– Vais ter de ficar sem saber. E podes dar largas à imaginação a pensar se é o «Tiago Ginásio», o «Miguel Contabilidade» ou o «Pedro Colega».
– Quem é o «Pedro Colega»?
– É amigo do «Miguel Contabilidade» e dá-se bem com o «Ricardo Equipa Comercial». Mas não é tão giro como o «Filipe Informática».


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– Estás a brincar comigo, não estás?
– E já agora, quem é que te meteu essas ideias sobre o Tinder na cabeça? Que raio de bota de elástico me saíste tu? A filha que eu criei tem mente arejada e é moderna e percebe as potencialidades daquilo. É a melhor invenção do mundo, minha menina.
– O Tinder não, mãe. Diz-me que não estás viciada no Tinder.
– Agora já não. Apaguei a aplicação porque era uma chatice e tinha uma data de miúdos que só queriam experimentar conhecer uma mulher mais velha. Tomei três ou quatro cafés com uns que me pareceram interessantes. Agora descarreguei outra vez.
– Tu conheceste pessoas através do Tinder? Já estiveste com eles?
– Filha, tu sabes para que é que serve o Tinder, não sabes? Para conhecer pessoas. E depois, se quiserem, para fazerem outras coisas. Quanto a isso, vais ficar na ignorância. E sim, eu sei que se deslizar o dedo para a direita significa que quero um match e se deslizar para a esquerda significa que não estou interessada. Ficarias espantada com a quantidade de esquerdas que já dei. Quase fiquei com uma tendinite.
– E o que aconteceu com as pessoas com quem tomaste café?
– Estás a querer saber demais. Mas posso-te dizer que têm todos filhos, todos adolescentes, e que vocês são todos iguais. Têm todos as mesmas preocupações. Até parece que falam uns com os outros.
– E falamos, na escola. Cada vez que os pais de algum dos meus colegas se separam, falamos entre nós e damos conselhos.
– Ai dão? Então deviam estudar isso melhor. Para serem mais arejados. Menos conversa sobre as mães que vão aos cabeleireiros e ao ginásio e mais conversa sobre pais giros para nós conhecermos. Isso é que eu te agradeço.
– Estou chocada, mãe.
– Não estejas. Estou só a contar-te as partes não picantes.