Vai o pai ou vai a mãe à reunião na escola?

– Olá. Podes falar?
– Se for rápido posso. Estou aqui com imenso trabalho.
– Tu estás sempre com muito trabalho. E é sempre tudo urgente.
– Então, o que há?
– Podes ir tu à reunião de pais amanhã?
– Eu? Tu é que vais sempre a essas coisas.
– Eu sei. Mas marcaram-me uma reunião de urgência para amanhã e estou aqui sem grande margem de manobra.
– Mas a reunião está marcada há meses. A professora Clara já enviou o e-mail há uma data de tempo.
– Primeiro, a reunião não está marcada há meses. Está marcada há duas semanas. Segundo, a professora não se chama Clara. Terceiro, enviou um papel para casa, na caderneta da miúda, não enviou nenhum e-mail. Quarto, eu sei que estava marcada, mas surgiu um imprevisto e eu não posso ir. Podes ir tu ou não?
– Não me dá jeito nenhum. Ainda por cima corta-me o dia todo.
– É às cinco e meia, não é a meio do dia. Se calhar é a meio do teu, porque trabalhas até às tantas, mas as pessoas normais têm reuniões na escola dos filhos àquela hora. E mesmo assim, também corta o dia dessas pessoas. Também corta o meu dia. Mas eu consigo organizar-me para ir. Consigo sempre organizar-me para ir. Tu não te consegues organizar nunca. Dá para te chegares à frente desta vez?
– Eu sei que és sempre tu que vais, mas é porque tens mais jeito para estas coisas.
– É uma reunião de pais. Vão lá estar pais e mães. Pessoas como tu, que têm filhos e querem saber o que a professora – que se chama Carla, já agora – tem a dizer sobre os filhos. Explica-me porque é que não tens jeito para estas coisas. Que habilidade especial é que isto implica?
– Tu sabes o que perguntar. As coisas que importam.
– Cansei de ter esta conversa contigo. Não me apetece voltar a esse tema. Amanhã eu não posso ir. Podes assumir o teu papel e ir à reunião de pais da escola da tua filha, por favor?
– Mas aquilo é sempre igual. Está sempre tudo bem, não há novidades. Ela é uma boa aluna, porta-se bem, respeita a professora e os colegas. E tem bom ambiente familiar, apesar dos pais separados. O que é que eu vou lá fazer?
– Vais a uma reunião de pais. Como fazem os pais que se preocupam. Como eu faço. Sabes que há pais em que vão ambos à reunião. Mesmo que estejam separados.
– Credo! Porque é que vamos os dois sofrer?
– Estou a trinta segundos de desligar este telefone e acusar-te de negligência grosseira.
– Está bem, eu vou à reunião. Vou ter de faltar a uma sessão de formação e a duas reuniões. Mas eu faço isso.
– Eu posso ser prejudicado no trabalho por causa dos filhos, tu não, não é? Bem-vinda à minha vida. Há nove anos que eu faço isso. E contrario as estatísticas que dizem que os homens estão menos atentos a estas coisas. Eu sou homem e aqui a baldas és tu. A que tem sempre muito trabalho, uma carreira importante e uma série de afazeres profissionais.

A conversa é fictícia mas podia não ser. Em muitas casas, em muitas famílias pelo país fora, esta é uma realidade na vida de muitas crianças. Com os papéis tradicionais trocados, eventualmente. Os papéis errados, preconceituosos, culturalmente condenáveis. Mas, ainda assim, tradicionais. Ontem, na reunião de pais na escola da minha filha, havia 27 pessoas: 21 mulheres, seis homens. As coisas estão a mudar, é verdade. E inverter os papéis habituais não é sinal de progresso. Progresso será uma igualdade de género nas reuniões de pais. Ou adaptada a cada circunstância e a cada família. Não adaptada aos papéis tradicionais. Esses, que importa mudar.