Ricardo Garcia: “O capitalismo é verde sempre que alguém ganhe dinheiro com as soluções ambientais”

Ricardo Garcia é brasileiro. No fim dos anos 1980 veio para Portugal. Jornalista e fundador do Público, onde esteve 27 anos, rumou a Inglaterra. Especialista em ambiente e autor de livros, trabalha como freelancer e dá formação a jornalistas nesta área.

Nunca se falou tanto de ambiente e de alterações climáticas como hoje. O ativismo engrossou fileiras, os cientistas radicalizaram o discurso e os responsáveis políticos e económicos são pressionados a agir. O clima vai aquecer, na luta e no planeta. O jornalista de ambiente Ricardo Garcia explica o que está a acontecer.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens

Faz formação de jornalistas na área do ambiente. Como vê a cobertura jornalística nesta área?

O ambiente, como a maior parte dos temas mais específicos, flutua na agenda dos media como flutua na agenda pública e política. Há picos de interesse e há períodos em que desaparece. Agora, o ambiente está na ordem do dia, não me lembro de os jornais e as televisões darem tanta atenção ao tema. Isto é positivo, porque cria uma maior tomada de consciência e informação sobre o assunto e cria um ambiente propício para as políticas avançarem.

Mais espaço à informação significa mais espaço à desinformação?

Como o assunto está na berra, suscita mais a contrarreação e aparecem mais os discursos alternativos em relação ao que é consensualmente aceite, mas não me preocupo muito com as fake news.

O que o preocupa, então?

É que deste pico de interesse sobre o ambiente e em particular sobre as alterações climáticas, que é o que está a puxar a carroça, fique alguma coisa. É importante que a comunicação social aproveite para criar competências dentro das redações sobre estas temáticas, dando-lhes mais espaço, mais tempo e não as relegando para um feudo, a cargo de um jornalista especializado. O ambiente deve ser transversal a todas as editorias: política, economia, cultura, desporto, sociedade.

Os plásticos estão em todo lado na nossa vida, são um tema que diz muito às pessoas e contribuíram muito para o aumento da preocupação com o ambiente nos últimos anos.

Foi o ativismo ambiental, sobretudo em torno das alterações climáticas, que mais contribuiu para trazer o tema para a agenda mediática?
Sem dúvida. O fenómeno de Greta Thunberg é contagiante e tem um papel muito importante de mobilização, mas penso que esta nova vaga de preocupação ambiental começou antes, com os plásticos, e um dos principais motivos foi um documentário de David Attenborough, que teve um impacto brutal.

O plástico é uma coisa que se vê e tem que ver com o nosso dia-a-dia. A poluição e os gases com efeito estufa, o dióxido de carbono (CO2), são menos visíveis e sobretudo mais distantes, dependem menos de nós. Os plásticos estão em todo lado na nossa vida, são um tema que diz muito às pessoas e contribuíram muito para o aumento da preocupação com o ambiente nos últimos anos.

Como vê o fenómeno Greta Thunberg?

Não sei se sei responder. Parece-me é que o palco estava ali, à espera de que aparecesse alguém. É uma miúda especial, com uma força de vontade incrível, uma presença forte e uma coerência inatacável. O palco estava ali e apareceu a Greta.

Se existir uma seca monumental em Portugal, não podemos atribuí-la às alterações climáticas, podemos é dizer que no futuro, tendencialmente, teremos mais episódios destes, aí sim, devido às alterações climáticas.

O CO2 é invisível, mas cada vez mais as pessoas sentem os efeitos das alterações climáticas, com fenómenos meteorológicos extremos a acontecer à sua porta. O que falta para o mundo passar à ação?

O mundo já passou à ação, mas não o suficiente para evitar o aquecimento global, e as pessoas estão a tomar consciência do problema. Há imensas ações e iniciativas individuais e coletivas, institucionais, nas empresas, nas universidades. Consciência já existe. Quanto aos efeitos do aquecimento global que referiu, a meteorologia varia e há fenómenos que não podemos dizer preto no branco que se devem às alterações climáticas. Se existir uma seca monumental em Portugal, não podemos atribuí-la às alterações climáticas, podemos é dizer que no futuro, tendencialmente, teremos mais episódios destes, aí sim, devido às alterações climáticas.

O facto de se projetar os efeitos no futuro não é o que leva os decisores políticos e económicos – que têm na mão o poder de fazer as mudanças necessárias para uma diminuição efetiva da emissão de gases com efeito estufa e do consequente aquecimento global – a adiar a ação?

Alguns dos efeitos das alterações climáticas são observáveis agora, o degelo dos glaciares, a subida do nível do mar, o aumento da temperatura, mas os efeitos que os cientistas apontam – mais secas, mais tempestades, mais doenças, menor biodiversidade – acontecerão daqui a 30, 50, 100 anos e é muito difícil tanto os governos como os cidadãos anteciparem.

É uma das dificuldades das alterações climáticas. É um problema do futuro, que exige medidas imediatas, mas de longo prazo, no entanto, os ciclos políticos são de quatro anos. Veja o que aconteceu nos EUA: o governo Obama estava alinhado na luta contra as alterações climáticas (entre aspas, porque o que os Estados Unidos se comprometeram a fazer no Acordo de Paris era muito limitado para resolver o problema das alterações climáticas). Terminou o mandato político do Obama, veio o Trump e saiu do Acordo de Paris.

Ter o segundo emissor [os EUA] fora do barco é problemático, pode levar outros países a querer sair do acordo [de Paris] e este colapsar como colapsou o Protocolo de Quioto.

Que consequências essa saída poderá ter?

Há vários cenários possíveis. Os Estados Unidos são o segundo emissor de CO2 do mundo, o primeiro é a China. Ter o segundo emissor fora do barco é problemático, pode levar outros países a querer sair do acordo e este colapsar como colapsou o Protocolo de Quioto. Sem os EUA, terão de ser outras forças a assumir o papel. Será que a China ou a União Europeia conseguem fazê-lo? Vamos ver. Infelizmente, o Brasil, que é o quinto ou sexto emissor do mundo, também está com uma posição completamente oposta à que tinha em relação ao Acordo de Paris e às negociações anteriores.

E o Brasil tem a Amazónia, que neste ano sofreu uma devastação enorme com os fogos.

Os fogos na Amazónia não aconteceram só neste ano, mas temos de olhá-los agora no contexto de um governo com uma posição abertamente antiambientalista e como resultado da política do Bolsonaro, o que é muito preocupante a longo prazo porque há uma inversão da tendência de redução da desflorestação da Amazónia, que vinha sendo seguida há pelo menos uma década.

Tudo o que os países prometeram no Acordo de Paris é insuficiente para manter a subida da temperatura global abaixo dos dois graus.

Um aumento de 2º C em relação à temperatura na era pré-industrial é considerado pelos cientistas o limite acima do qual existe um risco muito mais elevado de consequências ambientais perigosas e, eventualmente, catastróficas para o planeta e a humanidade. Daí que a meta seja os termómetros não subirem mais de 2º C. Dada a evolução a que temos assistido, será possível alcançá-la?

Vai ser muito difícil. O esforço para manter a subida da temperatura global abaixo dos 2o C em relação às temperaturas da era pré-industrial é brutal. Tudo o que os países prometeram no Acordo de Paris é insuficiente para a atingir. A trajetória atual das emissões de gases com efeito estufa aponta para algo em torno dos 3o C ou 4o C de subida de temperatura, por isso vai ser muito difícil. Para reverter esta trajetória, seria necessário reduzir as emissões de CO2 no mundo para taxas na ordem de 5% ou 8% ao ano, o que é muito difícil.

O que seria preciso fazer?

Para atingir as metas do Acordo de Paris e as conclusões do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), que significa chegar a 2050 com emissões neutras de CO2, seria preciso deixar de usar uma parte substancial dos recursos energéticos existentes: 80% do carvão, não sei se o valor é exatamente este, mas a ordem de grandeza é por aí, ficaria no solo. O petróleo a mesma coisa. O que hoje dá dinheiro e é um dos maiores negócios do mundo teria de ser abandonado. Isto é só um exemplo da escala de transformação necessária na sociedade.

O capitalismo não é verde?

É verde sempre que alguém ganhe dinheiro com as soluções.

O grande motor da mudança é o mercado e não a boa vontade das pessoas.

Pode ser a salvação: o ambiente e a luta contra as alterações climáticas tornarem-se um negócio?

E não há mal nenhum nisso. No sistema capitalista, as soluções só aparecem quando alguém ganha dinheiro com elas. As renováveis são um sucesso porque são um negócio. Não é por acaso que as empresas petrolíferas investem agora nas renováveis. Com a noção de que o planeta estava em risco, foi-se criando uma regulamentação ambiental enorme, a quantidade de normas, de regulamentos e de diretivas que qualquer atividade económica tem de cumprir para estar no mercado é incrível.

Tudo o que está a acontecer: o carro elétrico, as renováveis, a reciclagem, o tratamento do lixo, vem da necessidade de tomar medidas, mas também como resposta a uma conjugação de normas mais apertadas, que criaram mercados, em que as empresas prosperaram. O grande motor da mudança é o mercado e não a boa vontade das pessoas.

Aquilo que fazemos individualmente tem pouco peso?

Há coisas que não estão ao nosso alcance, mas cada pessoa deve dar o seu contributo, e a grande vantagem desse esforço para reduzir a sua pegada ecológica é pedagógico. Só quando tentar fazer alguma coisa é que vai ver a quantidade de obstáculos com que irá deparar-se. Implica esforço e a questão que tem de se pôr é se está preparado para mudar o seu modo de vida. Não adianta pensar se o seu contributo é mínimo diante do da indústria. Não podemos estar à espera do outro para avançar.

A adaptação será obrigatória, porque é muito pouco provável que a Terra pare de aquecer. O mundo vai ser mais quente e teremos de nos adaptar.

Os decisores políticos e económicos vão apostar mais em encontrar soluções tecnológicas que permitam às pessoas adaptar-se ao novo clima ou que diminuam a montante o aquecimento global, sem ser preciso mudanças tão drásticas como as que falou há pouco, as tais medidas mitigação, que por mais negociações e acordos e cimeiras continuam a ser insuficientes?

Terá de passar pelas duas coisas: mitigação e adaptação. Mitigação significa reduzir os fatores que estão a provocar o aumento da temperatura e, se nada fizermos, a temperatura vai aumentar de tal forma que será muito mais difícil, e mais caro, a humanidade adaptar-se. Mas a adaptação também será obrigatória, porque é muito pouco provável que a Terra pare de aquecer. O mundo vai ser mais quente e teremos de nos adaptar.

No meio deste cenário pouco animador, que desenvolvimentos positivos vislumbra?

Tem havido progressos incríveis. O ar que se respira é menos poluído do que há trinta anos, a qualidade da água melhorou, o tratamento do lixo e a reciclagem evoluiu, as renováveis estão a avançar e a tecnologia vai tornar-se mais barata e mais eficaz. Falta alcançar aquilo que deve ser a prioridade de qualquer política de gestão de resíduos, que é a redução. A redução do consumo é fundamental. E isso cabe aos consumidores. Quando falávamos do contributo individual, este é importante: reduzir o consumo e a produção de lixo.

São as novas gerações que vão salvar-nos?

Porquê?

Porque há mais consciência hoje dos problemas e das soluções. Não devia haver também uma aposta na educação ambiental?

E quem é que vai educar? A melhor maneira de educar para consumir menos, reduzir a pegada ecológica e fazer opções mais amigas do ambiente, é adotar também estes comportamentos. Claro que a educação ambiental é importantíssima, mas está aquém do que deveria ser.

Mas acho que a questão ambiental é transgeracional e temos é que pensar naquilo que cada um de nós pode fazer. Eu quero fazer alguma coisa? Pergunto-me todos os dias isto e acho que faço 1 por cento do que deveria e gostaria de fazer. Se as pessoas estão mesmo preocupadas com o ambiente não tentem encontrar desculpas nem escapatórias nem inimigos nem salvadores. Pergunte-se o que pode fazer para sentir que está realmente a contribuir.