Quando os suplementos alimentares põem a vida em risco

A plastic bottle with several green tea extract capsules spilling onto a white surface.

Os suplementos alimentares são vendidos como uma poderosa ajuda para um estilo de vida mais saudável. No entanto, estão longe de ser consensuais e há casos como o de norte-americano Jim McCants – obrigado a fazer um transplante de fígado devido a problemas provocados pela toma de suplementos alimentares – que fazem pensar. E acendem a discussão.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Imagem de iStock

Jim McCants vivia uma vida tranquila. Não bebia nem fumava e, aos 50 anos, tinha decidido adotar um estilo de vida mais saudável. Comia melhor e fazia exercício físico regular. Começou a tomar suplementos de chá verde porque tinha ouvido dizer que fazia bem ao coração.

Tudo corria bem até que, dois ou três meses depois, sentiu-se mal, estava amarelo e os médicos confirmaram o pior: o fígado estava em falência. Por exclusão de todas as outras opções, os médicos concluíram que os suplementos de chá verde seriam a causa. Jim não era o primeiro caso. Cerca de 80 casos de doentes relacionados com estes suplementos foram reportados em vários países.

Uma investigação da Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar concluiu que as catequinas (nutrientes antioxidantes) existentes no chá verde são «seguras, de forma geral» mas em doses reguladas. Mais de 800 mg por dia «podem causar problemas de saúde».

Ainda assim, os estudos não são conclusivos e os suplementos de chá verde são regulados nos Estados Unidos e Europa como alimentos e não como medicamentos. Ou seja, os testes de segurança aplicados aos remédios não foram efetuados, daí que a relação com os problemas de saúde não esteja ainda cientificamente provada.

Jim: «A minha vida antes era bastante ativa e hoje em dia vivo em casa, cansado».

Ivone Mirpuri, médica e especialista em modulação hormonal alerta para o risco da toma de suplementos sem regulação.

«A suplementação alimentar deve ser adequada, personalizada e dada só quando necessário. Os suplementos são “uma faca de dois gumes” pois, se por um lado podem ajudar, por outro, especialmente se em demasia ou dados de forma desnecessária, ou na forma química inadequada, poderão causar danos à saúde. É preciso lembrar que existem interferências e que tudo vai ser metabolizado no fígado, e que se estiver em exagero pode causar uma sobrecarga neste órgão.»

«A maioria das pessoas pensa que por ser “suplemento” e não “medicamento”, não tem qualquer problema, mas estão sujeitos igualmente quer à toxicidade, quer às interações e efeitos acessório, diz a médica Ivone Mirpuri.

A médica lembra uma jovem paciente que tomava cerca de 40 suplementos diários e por isso teve uma hepatite tóxica fulminante. «A maioria das pessoas pensa que por ser “suplemento” e não “medicamento”, não tem qualquer problema, mas estão sujeitos igualmente quer à toxicidade, quer às interações e efeitos acessórios na sua maioria desprezados, por serem considerados substâncias “naturais”. Os 40 eram todos de “loja biológica e natural” pelo que na sua jovem cabecinha eram saudáveis.»

Jim não tem dúvidas. Depois do transplante de fígado, há quatro anos, a vida nunca mais foi a mesma. Para além de sofrer de fadiga que o obrigada a trabalhar de casa, teve complicações que o obrigam a fazer diálise e os médicos colocam a hipótese de um novo transplante, além de viver com dor abdominal crónica. «A minha vida antes era bastante ativa e hoje em dia vivo em casa, cansado».

Por tudo o que sofreu – e ainda sofre – Jim não quer que aconteça a nem mais uma pessoa. Por isso mesmo, colocou a empresa americana Vitacost (responsável pelos suplementos) em tribunal. «Quero que coloquem um aviso enorme em cada frasco e no site, em todo o lado, para que as pessoas saibam exatamente o que estão a tomar».