Ronald Purser: “O mindfulness tornou-se um penso rápido espiritual, ao serviço do capitalismo”

A ideia é fora da caixa – o mindfulness como arma do capitalismo -, mas à medida que se lê McMindfulness – How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality a coisa começa a fazer sentido. Ronald Purser é professor de gestão na Universidade Estatal de São Francisco e foi ordenado mestre Zen Dharma pela ordem budista Zen Taego. Sabe do que fala. E nós falámos com ele.

Entrevista de Catarina Pires | Fotografia de i-Stock

O mundo está rendido ao mindfulness, de celebridades a médicos, de professores a jornalistas, de neurocientistas a psicoterapeutas, de monges a CEOs. Há quem mesmo quem já lhe tenha chamado revolução. Remédio para quase todos os males da sociedade moderna.

Ronald Purser tem outra opinião e ao longo de umas quantas centenas de páginas questiona se, em vez de estar a mudar o mundo, o mindfulness não se terá tornado uma forma banal espiritualidade capitalista que ajuda a evitar a transformação social e política necessária a que esses males sejam mitigados, reforçando antes o estado de coisas e tornando-se mesmo uma arma de controlo do sistema.

Questiona para concluir com uma proposta: pegar no verdadeiro potencial revolucionário do mindfulness e pô-lo ao serviço da sociedade como um todo. Para que acorde, em vez de adormecer.

Ronald Purser é professor de gestão na Universidade Estatal de São Francisco e autor do livro McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality.

O seu livro McMindfulness – How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality faz uma dura crítica a esta prática, que nos últimos anos tem vindo a ganhar o estatuto de remédio para (quase) todos os males. O que o levou a escrevê-lo?

Quis mostrar como os euro-americanos brancos e ricos criaram um movimento social de elite que pegou numa prática que tinha como objetivo a libertação espiritual em relação ao egoísmo e à ganância e a transformou numa técnica altamente individualista de autoajuda ao estilo Faça-Você-Mesmo. Quis explicar por que é que “mindfulness” se tornou uma palavra de ordem e uma prática popular. O livro é dirigido àqueles que tem um ceticismo saudável em relação às técnicas de autoajuda, à ideologia da felicidade e à mania do bem-estar.

Que reações teve ao livro?

Muita gente enviou-me e-mails a agradecer, dizendo que o meu livro abordava muitas das preocupações que tinham em relação à mercantilização e descaracterização do mindfulness. Se o Twitter servir de referência, pode perceber que muita gente se identificou com a crítica exposta no McMindfulness. Apenas aqueles que têm interesse financeiro em promover o seu negócio de mindfulness é que se manifestaram contra.

De onde vem o termo McMindfulness e por que é que o escolheu para título?

Vem de um artigo académico escrito por Miles Neale, um psicoterapeuta e professor budista ocidental, que também criticava a descaracterização da meditação budista. Escolhi o termo porque transmite as várias camadas de como o mindfulness se tornou um penso rápido espiritual.

De quantas sessões de “feche os olhos e foque-se na sua respiração” é que acha que Jon Kabat-Zinn [fundador do moderno mindfulness] precisou depois de ler o seu livro?

Não faço ideia… teria que perguntar-lhe a ele.

Existe um elevado custo político a pagar quando o mindfulness se torna um facilitador da manutenção das relações capitalistas.

Uma das ideias chave do seu livro é que o mindfulness é uma prática que, apesar de se anunciar como revolucionária, favorece o conformismo, ajudando a manter o status quo capitalista. Como assim?

O movimento mindfulness perfilha a ideologia de que é o indivíduo que precisa de aprender a adaptar-se às condições sociais, políticas e económicas e tem havido pouco escrutínio sobre como a ideologia neoliberal e os imperativos capitalistas influenciaram e exploraram a forma como o mindfulness tem sido utilizado para ajudar os indivíduos a adaptar-se ao status quo.

Claro, muitos dos que estão no movimento mindfulness concordam que existem grandes problemas no mundo em que vivemos, mas geralmente argumentam que o mindfulness é parte da solução e não do problema. Existe um elevado custo político a pagar quando o mindfulness se torna um facilitador da manutenção das relações capitalistas.

O mindfulness é aquilo a que Paulo Friere chama de “solução da aspirina”. É como dar aspirina a alguém que tem cancro.

“Os fanáticos do mindfulness acreditam que dar mais atenção ao momento presente sem julgar tem o poder revolucionário de transformar o mundo. Isto é pensamento mágico sob o efeito de esteróides “, lê-se no seu livro. Acha que acreditam mesmo nisso?

Infelizmente, sim. Se vir com atenção a retórica evangelizadora dos líderes do movimento mindfulness, perceberá que fazem declarações grandiloquentes de que só praticando mindfulness é que o mundo todo será salvo. Jon Kabat-Zinn acredita mesmo que o mindfulness vai acabar com as “fake news” e derrubará a vigilância de Estado.

Reconhece alguns benefícios do mindfulness para lidar com o stress, a ansiedade e outros problemas inerentes à vida moderna. Qual é o problema de encarar a prática como uma espécie de terapia?

Não estou a sugerir que não devemos cuidar de nós próprios ou que as pessoas não obtêm alguns modestos benefícios terapêuticos através das práticas de mindfulness. Cuidar de si pode ser um ato político radical. Mas estes são remédios muito superficiais para os problemas estruturais e profundamente enraizados que estão a levar as pessoas a virar-se para o mindfulness. Portanto, na verdade estou mais preocupado com a forma como o mindfulness foi desenvolvido para basicamente ajudar as pessoas a tolerar e sobreviver a sistemas de exploração. Nesse sentido, o mindfulness é aquilo a que Paulo Friere chama de “solução da aspirina”. É como dar aspirina a alguém que tem cancro.

O mindfulness é agora uma técnica Faça-Você-Mesmo, algo que um indivíduo isolado pode fazer para lidar com os desafios da modernidade.

Não deixa chegar à raiz da questão?

O problema não é que usar o mindfulness para a redução do stress não funcione… o problema é que funciona! Mas funciona ao serviço de quem e de que interesses? Tal como não há nada de errado em tratar a depressão… O problema é ao nível macro – os interesses corporativos, os interesses de mercado, como os da indústria farmacêutica que tem um claro interesse em manter a falsa narrativa de que a depressão é apenas uma disfunção do cérebro, um desequilíbrio químico. E a cura? Prescrever antidepressivos, claro!

Não é com o mindfulness que se resolve o stres, ou as suas causas?

O problema é que a indústria do mindfulness e os seus promotores têm interesse em manter o stress enquadrado na sociedade atual de uma forma estrita. O stress é visto como o resultado de más escolhas em termos de estilo de vida – uma falha na autorregulação emocional – e a cura a oferecer é meditação mindfulness.

O stress tem componentes ideológicos que raramente são reconhecidos pelos defensores do mindfulness no seu discurso. E este discurso joga com medos públicos – o stress é uma epidemia, é omnipresente, é inevitável. Portanto, depende de nós reagirmos de forma mindful e andar para a frente. É visto como um problema totalmente individual, divorciado de qualquer contexto histórico, social e político.

Isto é o que David Smail, um psicólogo já desaparecido, chamou de “voluntarismo mágico”: indivíduos sozinhos e descontextualizados são responsabilizados pelo seu stress e angústia, sem ter em consideração o ambiente económico e social em que vivem. E o mindfulness é agora uma técnica Faça-Você-Mesmo, algo que um indivíduo isolado pode fazer para lidar com os desafios da modernidade.

Dizer que os problemas estão todos na nossa cabeça e que depende de nós e da nossa vontade resolvê-los é um peso demasiado que o mindfulness põe sobre os nossos ombros? É isso que Lauren Berlant, investigadora citada no seu livro, chama de “otimismo cruel”?

O mindfulness tornou-se o mais recente estilo de vida – uma nova marca de lifestyle. É-nos dito e prometido que, ao praticar mindfulness, podemos ser o que quisermos. Sim, o mindfulness encaixa no otimismo cruel do capitalismo, que normaliza e naturaliza o stress. E depois os vendedores mindful têm a cura à venda que nos oferece a terra prometida de felicidade e bem-estar.

O mindfulness moderno foi (erradamente) confundido com budismo e meditação budista, o que é muito lamentável.

O facto de o mindfulness ter sido “aliviado” dos ensinamentos éticos budistas é, do seu ponto de vista, um problema. Porquê?

Temos que ver o mindfulness secular como uma invenção ocidental moderna que é basicamente uma técnica eticamente neutra. Não existe consenso, mesmo entre os professores e investigadores de mindfulness sobre o que significa, como é definido, ou praticado. O mindfulness moderno foi (erradamente) confundido com budismo e meditação budista, o que é muito lamentável.

Os ensinamentos e práticas do mindfulness budista sempre integraram uma uma estrutura de treino com três ramos, que incluía ética, concentração e sabedoria. O mindfulness moderno essencialmente foi buscar práticas de concentração simples que são eticamente neutras e que enfatizam o “não julgar” e a “aceitação”. Esta neutralidade ética e moral permite que o mindfulness seja desenvolvido em estruturas corporativas e militares, com objetivos e finalidades questionáveis.

Não diria uma ameaça [à democracia], mas um penso rápido psicológico que produz o sujeito neoliberal ideal, que não desafia o status quo. O mindfulness serve uma função ideológica, propagando uma espécie de amnésia social que desencoraja os indivíduos de refletirem sobre as causas políticas e sociais das suas angústias.

A utilização do mindfulness para fins militares é uma das que questiona de forma mais crítica no seu livro. Porquê?

Quando reduz o mindfulness a uma técnica, pode despi-lo da ética de não-violência e não-destruição. E isso foi o que aconteceu no campo militar. O mindfulness tornou-se uma arma e foi usado para treinar combatentes do exército norte-americano antes de serem enviados para o Afeganistão. O mindfulness está a ser usado no treino de preparação militar.

No entanto, penso que nem sequer devemos chamar o que estão a fazer de mindfulness – devemos encará-lo simplesmente como treino de “aperfeiçoamento da atenção” – que ajuda os soldados a serem melhores atiradores e snipers mais certeiros. Estamos a falar de programas que são concebidos para “otimizar a performance de combate”. E isso traduz-se em matar.

Considera que o mindfulness (MBSR) pode ser uma ameaça à liberdade e à democracia?

Não diria uma ameaça, mas mais um penso rápido psicológico que produz o sujeito neoliberal ideal, que não abana o barco nem desafia o status quo. O mindfulness (MBSR) serve uma função ideológica, propagando uma espécie de amnésia social que desencoraja os indivíduos de refletirem sobre as causas políticas e sociais das suas angústias.

As apps de mindfulness são a epítome do McMindfulness – como refeições de fast-food, são convenientes, acessíveis, baratas e oferecem uma solução rápida para as ansiedades do dia-a-dia. É precisamente por isso que são parte do problema.

Há um enorme negócio em torno do mindfulness. Livros, apps, conferências, workshops, cursos, retiros. Considera tudo isto irónico. Em que sentido?

No que diz respeito às apps de meditação, é bastante irónico que nos seja pedido que peguemos nos nossos smartphones para relaxar, quando na verdade são estas mesmas tecnologias digitais a principal causa de distração, stress e ansiedade. Estamos supostamente a ser mindful quando estamos a usar uma app enquanto sem pensar ignoramos a manipulação de massas da atenção, que é a raison d’etre das companhias de tecnologia digital.

As apps de mindfulness são a epítome do McMindfulness, a sua melhor síntese – como refeições de fast-food, as apps de mindfulness são convenientes, acessíveis, baratas e oferecem uma solução rápida, uma injeção de serenidade de baixa dosagem – apenas o necessário para pôr um penso rápido nas ansiedades do dia-a-dia. É precisamente por isso que são uma grande parte do problema.

Há uma séria da HBO – Silicon Valley – que caricatura de forma fantástica os donos das grandes companhias tecnológicas. Tudo o que fazem é para tornar o mundo um lugar melhor, mesmo quando estão a tramar-se uns aos outros. E há sempre por perto um guru de mindfulness. As grandes companhias como a Google, o Facebook, e por aí fora, são os principais clientes (e financiadores) do mindfulness?

Não vê programas de mindfulness a serem oferecidos na McDonald’s ou nos armazéns da Amazon, onde os trabalhadores ganham salários baixos. As elites tech de Silicon Valley são libertários imbuídos da ideia de “capitalismo consciente” e de que o trabalho pode ser um caminho para a espiritualidade. Steve Jobs era o exemplo perfeito.

A “elite mindful” no setor tecnológico usa o seu poder e riqueza para pintar uma determinada imagem de si própria: gurus empresariais benevolentes, que chegaram ao topo por mérito próprio. Usaram as suas competências empresariais para pôr a prática do mindfulness ao serviço de interesses corporativos.

A sua fachada hipster e pseudoespiritualidade corporativa vende o mindfulness como um atalho capitalist-friendly para a salvação individual. O take-over corporativo do mindfulness assegura que este nunca se tornará uma força contra-cultura ou um desafio ao capitalismo corporativo.

Os programas de mindfulness corporativo oferecidos aos engenheiros de software podem torná-los mais focados e concentrados de forma a que produzam estas tecnologias de distração e adição das massas. Não acha isto irónico?

E parece estar a funcionar.

Sim, o mindfulness corporativo nas empresas de Silicon Valley é também uma forma sofisticada de criar a ideia de virtude. Estes programas funcionam como eficazes ações de relações públicas, que anunciam que companhias como a Google se preocupam com o bem-estar dos funcionários e tratam-nos bem. Pequenos grupos de trabalhadores obterão alguns benefícios paliativos do mindfulness. Dito de outra forma, podem relaxar, lidar um pouco melhor com as exigências do trabalho, mas continuam a ignorar e subestimar a poluição digital que está a ser exportada por estas empresas.

Lembre-se, companhias como a Google e o Facebook são conhecidas pelas suas violações de privacidade. Os programas de mindfulness corporativo oferecidos aos engenheiros de software podem torná-los mais focados e concentrados de forma a que produzam estas tecnologias de distração e adição das massas. Não acha isto irónico?

Sim. Será essa uma das explicações para o tão rápido e enorme sucesso do mindfulness no chamado mundo ocidental e a atenção que recebe dos media?

Um ponto-chave das vendas e do marketing em torno do mindfulness é a ideia que a ciência “provou” que a meditação “resulta”, baseado nas “mais recentes descobertas da neurociência”. Muitos investigadores que estudam o mindfulness fizeram declarações empoladas, dizendo aos jornalistas que a prática do minfulness melhora o funcionamento do cérebro, o bem-estar e a felicidade.

Carimbar o mindfulness com o selo de qualidade da ciência é uma estratégia de marketing comum numa série de livros sobre mindfulness na lista de best-sellers do The New York Times. Existe uma crença errada de que o entusiasmo crescente pelo mindfulness é a prova da sua qualidade e durabilidade.

Colocar o mindfulness sob o manto da ciência não é assim tão diferente de como se promove uma nova tendência de fitness, sejam dietas hipocalóricas, sejam quaisquer novas manias de exercício físico. Os promotores da mais recente dieta ou do último grito em programas de exercícios distinguem-se pela divulgação de estudos à medida e pelo apelo à autoridade da ciência que reforcem as suas propostas, prometendo que podemos perder peso e melhorar incrivelmente a nossa vida em apenas algumas semanas. As suas soluções acabam quase sempre por não passar de modas de curta duração.

Questiona então a validação do mindfulness pela ciência e pela neurociência. Mas a verdade é que o mindfulness já é usado por professores, médicos, psicoterapeutas, entre outros. Estão todos a ser enganados?

As provas científicas dos estudos de investigação sobre o mindfulness estão agora a ser examinados com maior escrutínio. Existe um estudo meta-analítico muito citado sobre a eficácia da meditação mindfulness publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), Internal Medicine. O médico Madhav Goyal e colegas do John Hopkins University pesquisaram bases de dados usando uma série de termos chave com a palavra meditação. Obtiveram 18,753 citações, 47 das quais corresponderam ao seu critério de inclusão, como ensaios de controlo aleatórios.

Descobriram que o mindfulness era moderadamente eficaz no tratamento de uma variedade de problemas, mas não provaram que fosse mais eficaz que outros tratamentos ativos, como medicação ou exercício. Mais, o facto de apenas 47 estudos (entre 18, 753) terem sido qualificados como admissíveis deve dar que pensar.

O que fazem é inquestionavelmente bom, e está a “ajudar as pessoas”, por isso criticar ou questionar o seu trabalho é equivalente a uma blasfémia.

O mindfulness nas escolas é outra questão sobre a qual reflete no seu livro. Porque considera que pode ser perigoso este tipo de intervenção com crianças?

O mindfulness nas escolas, como nas empresas, tornou-se um negócio. Os prestadores de serviços anunciam os programas com testemunhos anedóticos e a publicidade do costume – que é baseado na “ciência” (especialmente, claro, neurociência), que é secular e não religioso, que está a ajudar a juventude desfavorecida a tornar-se mais resiliente e a lidar com o stress no meio da pobreza, do crime e da violência racial.

Isto está tudo a acontecer apesar da pesquisa limitada e de recentes avisos em relação à prática de mindfulness em crianças em idade escolar. O evangelismo do movimento é guiado por uma crença e convicção de que o mindfulness é bom, e é bom para quase toda a gente. Portanto, o que fazem é inquestionavelmente bom, e toda a gente tem que saber que o mindfulness está a “ajudar as pessoas”, por isso criticar ou questionar o seu trabalho é equivalente a uma blasfémia.

Mas quais são os riscos, então?

Os programas escolares mindful levam os estudantes a ver-se como sujeitos vulneráveis, que, para serem elementos de sucesso na escola e na vida, devem aprender a “gerir” as suas emoções com a ajuda de intervenções terapêuticas mindfulness.

O treino ensina as crianças a aceitar todas as suas emoções e sentimentos sem julgar, sem distinguir entre “bons” e “maus” sentimentos. Mas o que acontece se um estudante vulnerável experimenta um sentimento forte e difícil, talvez devido a um trauma anterior? Os professores na sala de aula raramente têm o treino psicológico profissional para responder a tais situações.

Estudos sobre os efeitos adversos da meditação mindfulness são normalmente varridos para debaixo do tapete ou ignorados pelos defensores da escola mindful, já para não falar da escassez de pesquisa empírica rigorosa sobre os efeitos nas crianças a quem a prática é ensinada. O ensino indiscriminado de mindfulness a todas as crianças parece-me não só arriscado como irresponsável.

Para o mindfulness ser verdadeiramente revolucionário, tem que ajudar as pessoas a perceber claramente como é que os seus stresses e ansiedade pessoais estão relacionados com realidades sociais, económicas e políticas.

Finalmente, na verdade, acredita que o mindfulness, bem conduzido, poderia ser usado para operar uma verdadeira revolução. Como?

Para que o mindfulness se torne uma verdadeira força no sentido ajudar a operar uma mudança política e social, tem que se libertar da sua cumplicidade com um ethos neoliberal e das limitações do paradigma biomédico. As intervenções baseadas no mindfulness ou mindfulness-based interventions (MBIs) fornecem um cuidado e bem-estar paliativos aos indivíduos, mas tais técnicas não constroem laços profundos de solidariedade e comunidades de resistência.

Libertar o mindfulness exige que viremos a crítica para as instituições sócio-políticas, assim como para os sistemas de poder interligados, que exacerbaram o sofrimento humano e o stress coletivo. Para descolonizar o mindfulness e cortar os seus laços com o mercado, é necessária uma nova praxis, que facilite a reflexão crítica sobre as causas do nosso sofrimento coletivo.

Como chamou a atenção o professor budista David Loy, que é um homem socialmente empenhado, os três venenos mentais – ganância, má vontade e ilusão – já não são apenas aflições interiores e causas de sofrimento pessoal. Estes três venenos mentais institucionalizaram-se e proliferaram na nossa sociedade, infetando os media, a política, a economia e a cultura.

E, como notou Rogers-Vaughn, os nossos “opressores já não têm rostos reconhecíveis.” Para o mindfulness ser verdadeiramente revolucionário, tem que ajudar as pessoas a perceber claramente como é que os seus stresses e ansiedade pessoais estão relacionados com realidades sociais, económicas e políticas. O mindfulness poderia assumir um alcance alargado e uma missão se integrasse a tensão entre a transformação pessoal e social.

McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality não está ainda traduzido para português [editoras, prestem atenção], mas pode saber mais sobre o autor e o livro aqui: https://www.ronpurser.com/