Rotina: o conforto de voltar à zona de conforto

Fala-se muito em más rotinas, rotinas monótonas, excesso de rotinas, contudo, para muita gente é um verdadeiro alívio retomá-las depois das férias. O que é que a zona de conforto tem que não nos deixa querer sair dela?

Texto Ana Pago

No regresso daquela viagem de férias à Turquia, Laura respirou fundo, aliviada. Foi uma semana assombrosa: Istambul, Pamukkale, Capadócia, Éfeso. Mas o melhor de tudo foi voltar. “Na etapa final já só pensava em chegar a casa, cozinhar uma bela sopa portuguesa e comê-la no sofá a ver séries na televisão em pijama, que basicamente é o que eu faço todas as noites”, conta a designer. Ia trabalhar no dia seguinte e nem isso era mau: “Suspirava, ansiava, desesperava pelas minhas rotinas.”

E é natural que assim seja, já que a rotina implica familiaridade e é tranquilizante em grande parte dos casos, explica o psicólogo clínico Vítor Rodrigues. “Para muitos as férias implicam uma sobrecarga devido à logística de se andar constantemente de um lado para o outro, às vezes com excesso de parentes e amigos atrás, pelo que é legítimo atividades normais proporcionarem um certo alívio”, diz. Vemo-nos a regressar ao que conhecemos melhor, o que se nem sempre é confortável, pelo menos é confiável. “Eu diria que todos precisamos de alguma rotina nas nossas vidas por nos dar uma certa impressão de estrutura e previsibilidade”, acrescenta o psicoterapeuta.

Nisso, a ida à Turquia foi providencial para Nuno, que considerava seriamente demitir-se antes da viagem: “Todos os dias discutia com o meu chefe, um tipo que acha que sabe tudo e saca dos galões se lhe mostram que não”, recorda o programador. Laura apoiou o marido, consolou-o, sugeriu-lhe apenas que não agisse levado pela fúria. “Na minha cabeça já tinha decidido que ia sair, sabe? Fui viajar numa de ganhar coragem para dar o passo.” Até que às tantas sentiu que não queria desacomodar-se, não ainda. “Ali, ao menos, tenho estabilidade. Sem ela estaria perdido.”

Para Vítor Rodrigues, trata-se de encontrar um sentido de que o mundo continua reconhecível e, em certa medida, previsível. “Para isso precisamos de repetições, nem que seja o Sol continuar a nascer ou as leis da natureza permanecerem imutáveis”, observa. Pelo caminho, também dá jeito que a casa, o emprego, a família e amigos continuem lá, e que por sua vez eles se repitam o suficiente para serem reconhecíveis. “Poeticamente, eu diria que as rotinas confirmam a memória que nos dá a tal sensação de estabilidade”, resume.

De resto, a noção de zona de conforto não tem necessariamente uma carga negativa. Na sua génese, em 1908, os investigadores Robert M. Yerkes e John D. Dodson, do Laboratório de Psicologia de Harvard, postularam que um certo grau de conforto resultará num desempenho estável, desempenho esse que só será melhorado se enfrentarmos algum stress – um fenómeno que ficou conhecido como lei de Yerkes-Dodson. No entanto, se o stress ultrapassar determinado limite, variável de pessoa para pessoa, a performance tende a piorar.

“Zona de conforto é um conjunto de atividades e comportamentos que fazem parte de uma rotina, um padrão que minimiza o stress e os riscos possíveis”, confirma Joana de São João Rodrigues, especialista em psicologia clínica e da saúde. Além de conseguir manter a ansiedade em níveis baixos, a nossa zona de conforto traz-nos segurança – e mesmo prazer – ao fazer-nos sentir que controlamos umas situações e evitamos outras causadoras de dor.

O problema é que “quando estamos dentro dessa zona confortável normalmente não há crescimento pessoal ou profissional, e então tendemos a resistir às mudanças e a novas perspetivas”, aponta a psicóloga. Razão por que merece a pena perguntar: onde se traça, afinal, o limite entre o conforto bom e a pasmaceira?

“Sem alguma repetição não conseguiríamos reconhecer nada nem ninguém, inclusive nós mesmos”, esclarece o psicólogo Vítor Rodrigues. Pelo contrário, rotina a mais pode fazer-nos sentir aprisionados e monótonos, sem abertura, horizontes, criatividade ou aprendizagem. “Seríamos um bocado mortos-vivos, de modo que eu traço aí o limite: rotina que dá estabilidade, confiança e certa previsibilidade, sim. Rotina que nos torna uma repetição de nós, sem centelha de vivacidade, não.” Sobretudo porque a felicidade está do lado do crescimento, o que significa que seremos menos felizes se esse crescimento sair minado em todo este processo”, diz.

No caso das crianças este equilíbrio torna-se ainda mais notório. Na escola, são as rotinas pedagógicas que ensinam os mais novos a ser, a estar e a fazer, facilitando a afirmação de regras e o máximo de liberdade para cada criança. E o melhor é que não é difícil desenvolver-se esta autonomia através das rotinas, diz Vítor Rodrigues. A seu ver, começa tudo por convidar as crianças a participarem nessa elaboração: “Depois da aventura, repouso em segurança; depois do crescimento, rever matéria dada; depois da iniciativa, retorno à estrutura. Aos poucos, fazemos que elas sintam o conforto do ninho e da previsibilidade, assegurando que são conciliadas com muitas oportunidades de crescimento”, diz o psicólogo.

Na dúvida, diz, há que ir aprendendo a aceitar o desconforto, certos de que todos temos o nosso porto seguro a que podemos voltar.


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