Refugiados podemos ser todos nós

Fala-se sempre dos refugiados como os “outros”. Como aqueles que nada têm a ver connosco nem com a nossa vida, que vivem lá longe e que lá longe devem manter-se. Como aqueles cujas vivências são tão distantes que quase parecem acontecer numa realidade paralela. São “eles”, por oposição a “nós”.

Em representação da Ordem dos Psicólogos Portugueses, integro o Board on Human Rights, criado pela European Federation of Psychologists Associations. Entre outros objectivos, pretendemos reflectir sobre o papel da Psicologia na defesa dos direitos humanos. De todos os direitos humanos.

A psicologia social estuda estes fenómenos grupais há muito tempo e explica de forma clara a tendência que temos para ver os grupos aos quais pertencemos como heterogéneos, o que equivale a dizer que nos percebemos a todos como diferentes, cada um com as suas especificidades. No entanto, quando olhamos para um grupo diferente do nosso, tendemos a vê-lo como homogéneo, ou seja, são todos iguais. E quando a percepção do outro grupo é negativa então, todos os que fazem parte dele são também vistos dessa forma.

Eles são uns malandros, que não querem trabalhar.
São ladrões e criminosos.
Querem é entrar nos nossos países de forma ilegal.
Vêm roubar-nos os empregos.
E um sem número de outras percepções e atribuições.

Esquecemo-nos porque são pessoas refugiadas. Porque fogem dos seus países, deixando tudo e (tantas vezes) todos para trás. Porque enfrentam um profundo desconhecido, cheio de incertezas e ameaças. Porque entregam os seus filhos a uma sorte ou falta dela.
Catástrofes naturais que ninguém pode prever ou controlar. Conflitos armados. Ditaduras. Fome.

Pensamos nisto e que também nós poderíamos estar no seu lugar? Não.

Quando nos queixamos da chatice que é ter de fazer almoços e jantares a toda a hora, imaginamos o que é não ter nada para comer e ver os nossos filhos morrer à fome?
Quando andamos pela rua de um lado para o outro, imaginamos o que é fazê-lo ao som ambiente das bombas e dos tiros?
Quando trabalhamos o dia inteiro com a esperança de chegar a casa, imaginamos o que é não ter trabalho? Nem casa?
Quando levamos os nossos filhos ao médico, imaginamos o que é viver sem os cuidados de saúde mais básicos?
Quando nos chateamos com os professores dos nossos filhos porque mandam muitos trabalhos de casa, imaginamos o que é viver sem o direito à educação?
Quando postamos fotos nas redes sociais para que todos vejam o oceano azul infinito atrás de nós, imaginamos o que é estar sozinho nesse mesmo oceano?

Penso sinceramente que seriamos todos mais empáticos se fizéssemos estes exercícios de imaginação.
E se fosse eu?
E se fosse com as pessoas de quem eu gosto?
E se fossem os meus filhos?

Para acolher e incluir é preciso ter espaço para tal. Espaço mental, em primeiro lugar.