(Un)Happy ou a polémica sobre roupa infantil

A colecção “Happy” de uma conhecida marca portuguesa de roupa infantil deixou “Unhappy” muito boa gente. Ora vejamos.

Esta mini-coleção é apresentada sob o slogan “Be you, be colorful, be free, be happy”. As roupas transpiram cor e versatilidade, desde logo possíveis pelo facto de não existirem “peças de menina” e “peças de menino”. Não existem peças com lacinhos e princesas cor-de-rosa para elas, nem peças azuis com piratas e dragões para eles. E, com isto, pede-se tão somente às crianças que sejam elas mesmas, coloridas, livres e felizes.

Ora, o problema está… não sei onde.

Para não me precipitar e falar sem saber do que falo, fui espreitar a dita coleção. Deparo-me com peças atraentes, leves e de facto bastante coloridas. Casacos e mochilas, t-shirts e acessórios. Qual o problema, então?

Parece que, para algumas pessoas, usar roupa unissexo fará com que as meninas fiquem lésbicas e os meninos fiquem gays. A menina adora ser menina e sente-se como uma menina. Mas basta vestir uma blusa às riscas e desata aos beijos a uma amiguinha. Por sua vez, o menino sente-se muito bem como menino e nunca lhe passou pela cabeça deixar de o ser. Mas assim que os pais, incautos, lhe vestem uma peça desta coleção, pensa imediatamente em brincar com bonecas (que, como todos sabemos, são exclusivas das meninas) ou, quem sabe, em transformar o seu pénis numa vagina.

Enfim.

Parece até que nunca antes isto aconteceu. Quem cresceu nos maravilhosos anos 80 sabe que nada disto é novo. Crescemos com a roupa colorida de marcas com nome de raiz tuberosa e roupa desportiva cheia de cores e (diria eu, agora à distância de uns aninhos) muito foleira. Mas ainda hoje isto existe. Os famosos ténis que remetem para todas as estrelas também são unissexo. E não levamos nós os miúdos rapazes aos cabeleireiros? É pelo toque da tesoura que, minutos antes, tocou na cabeça de uma miúda, que a transformação gay vai ter lugar?

A identidade de género (sentimento de ser do género feminino ou masculino) e a orientação sexual (o que cada pessoa pensa e sente sobre si própria e sobre a sua afectividade e sexualidade e por quem se sente atraída, afectiva e sexualmente) dos nossos filhos não é influenciada pelas cores da roupa que usam nem pelas brincadeiras que têm. Não, não é tão simples assim. Por isso, pensemos de forma prática e deixemo-nos de receios. Quem tem filhos rapazes e raparigas tem de admitir. Isto dá ou não dá jeito?