Avaliação da parentalidade: não existem bolas de cristal

«É o pai/mãe competente para exercer a parentalidade?»

«Que tipo de vínculos afectivos estabeleceu o pai/mãe com a criança?»

«Existe algum indicador de que o pai/mãe possa não satisfazer todas as necessidades da criança.»

«Observa-se algum comportamento maltratante ou negligente por parte deste pai/mãe?»

Estas e outras questões são colocadas pelo sistema judicial em processos de promoção e protecção, processos de regulação do exercício das responsabilidades parentais ou mesmo em processos de inquérito.

Processos judiciais cujas decisões dependem, entre outros factores, da resposta do psicólogo a estas mesmas questões. Uma resposta que exige protocolos de avaliação rigorosos, orientados por guidelines empiricamente validadas, com recurso a diversas fontes de informação e diferentes metodologias.

Diversificar as fontes de informação revela-se fundamental para poder cruzar os dados recolhidos. Envolver, portanto, a rede formal e informal é crucial para a realização de uma avaliação holística.

Falemos agora das diferentes metodologias.

As entrevistas ou sessões de avaliação são a estratégia por excelência de recolha de informação. E refiro «entrevistas» no plural, de forma intencional, pois a realização de apenas uma entrevista não permite, nem recolher toda a informação relevante, nem avaliar eventuais situações de simulação ou dissimulação.

O recurso a várias entrevistas, orientadas por guiões semi-estruturados, permite uma avaliação longitudinal do sujeito, ao longo do tempo.

Embora as entrevistas permitam, ao mesmo tempo, observar o sujeito avaliado, não são suficientes para retirar conclusões fundamentadas. Porque estamos a falar em processos que envolvem a avaliação das dinâmicas familiares.

Sendo a família um sistema vivo e dinâmico, rege-se por princípios tão importantes quanto este: o todo é mais do que a mera soma das partes. Quer isto dizer que a avaliação individual de cada elemento da família (pai, mãe e criança) não corresponde à avaliação do todo.

1 + 1 + 1 não é = 3.

Porque da interacção destes três elementos emergem dinâmicas próprias e que vão para além da mera soma das avaliações individuais. Ou seja, se apenas avaliarmos cada elemento da família de forma individual, não podemos retirar conclusões sobre a forma como cada elemento interage com os outros. Não podemos porque, em bom rigor, tal não é possível.

Dito isto, várias perguntas se impõem.

Pode uma avaliação da parentalidade envolver apenas os pais? Não.

Pode uma avaliação da parentalidade envolver apenas os filhos? Não.

Deve uma avaliação da parentalidade envolver os vários elementos da família, em separado e de forma conjunta? Sim.

A avaliação de um indivíduo remete para uma dimensão intrapessoal. Podemos avaliar o seu funcionamento interno, saúde mental, as suas áreas problemáticas ou protectoras.

Devemos, ainda assim, tentar olhar para o indivíduo no seu contexto e na relação que estabelece com os outros.

Pelo contrário, a avaliação da parentalidade remete para uma dimensão interpessoal. E esta exige, necessariamente, avaliação de pais e filhos. E da interacção entre todos.

Neste contexto, se uma dada avaliação apenas envolver parte do todo e concluir sobre o funcionamento do todo, duvide. Questione.

Não esquecendo que as más práticas individuais têm um forte impacto nas pessoas, em particular, na sociedade, de uma forma mais geral e, ainda, no bom nome da Psicologia enquanto ciência que se afirma enquanto tal baseada nas evidências científicas.

Porque não existem bolas de cristal.