Adeus, pais

«Mãe, pai… quando lerem este bilhete, já não estarei convosco. Não estarei em casa, nem na escola, nem em lado nenhum. Porque hoje tenho na minha cabeça o plano certeiro. Sei que desta vez não vou errar, sei a dose certa que tenho de tomar, o lugar e a hora em que tudo vai correr bem. Desta vez não será como das outras, em que alguém me encontrou e salvou.

Não espero que compreendam totalmente o que sinto mas, mesmo assim, vou tentar explicar.

Sinto uma tristeza e uma dor sem fim nem tamanho. Maiores do que tudo, maiores do que o mundo. Sem qualquer esperança no futuro, tudo é muito difícil e assustador. Não tenho forças para continuar.

Às vezes, penso naquilo que me dizem, que a vida é mesmo assim, umas vezes melhor e outras vezes pior, e que tudo vai correr bem. Lembro-me também dos exemplos da vossa própria vida, em que tudo parecia mau e hoje, passado algum tempo, os problemas estão resolvidos.

Mãe, recordo, apesar de tudo, as tuas palavras quando me dizes, com os olhos rasos de água, que o tempo cura tudo e que na vida tudo tem remédio, menos a morte.

Pai, lembro-me também das coisas horríveis que passaste na guerra, quando ias em missões. A morte dos outros, e também a dos teus camaradas (é assim que se diz?), e como todos desejavam sobreviver ao horror.

Que é no meio da desgraça que se aprende a dar valor às pequenas coisas da vida, que afinal somos felizes e nem percebemos, porque passamos todo o tempo a pensar no que não temos ou no que não somos.

Mas eu não acredito que exista uma solução. Vejo tudo negro, só sinto dor. Imaginem um túnel apertado, cada vez mais apertado, como se fosse um funil. Sinto-me preso nesse túnel, sem conseguir sair. Estou preso na escuridão e com medo. Sim, tenho muito medo.

Sei que sempre tentaram ajudar-me, embora nem sempre consigam compreender o que se passa. Vejo a dor nos vossos olhos, quando percebem que me cortei outra vez. A dor dos cortes alivia durante algum tempo, mas depois volta tudo a ser como antes. A dor que sinto cá dentro é maior do que tudo e nem mil cortes podem ajudar-me.

Mãe, sei que choras quando vês o sangue nos meus lençóis, ou quando encontras a lâmina suja dentro do estojo. Limpas tudo sem me dizer nada. Tens medo que eu reaja mal, não sabes também o que deves dizer-me. E por isso te calas. Eu percebo isso.

Pai, sei que tudo isto te faz recordar as más memórias que gostarias de esquecer. Vejo nos teus olhos o vazio de quem revisita os piores cenários. Sei que perdeste bons amigos e que davas tudo para que estivessem vivos. Por isso gritas comigo, revoltado. “Tantos que gostariam de estar vivos e não estão!” Desculpa. Sei que também choras quando me pegas na mão, na cama do hospital. Que acaricias as minhas cicatrizes, quando pensas que ninguém vê e que eu estou a dormir, numa tentativa de as fazer desaparecer, como que por magia.

Não acredito numa vida para além da morte, nem no paraíso, nem em nada disso. Acredito apenas que será o fim do sofrimento… uma paz branca, um cenário de calma.

Por favor, nã….»
…..

«Encontrei hoje, perdido no fundo de uma gaveta, este papel meio amarrotado. Chorei ao relê-lo. De tristeza, por recordar o que sentia na altura. De alegria, por ter conseguido superar. De esperança, por acreditar que é possível reencontrar um sentido para a vida.

Quando me despedi dos meus pais e da vida, com este bilhete que deixei em cima da mesa da cozinha, via tudo negro. Era como se não houvesse mesmo outro caminho senão aquele. E tudo me empurrava para ele. Como se existisse uma força invisível que me fazia ir naquele sentido, braços que me agarravam e não me largavam. Sentia-me sem saída.

O bilhete ficou a meio. Acho que me faltou a coragem para terminar de o escrever. Como é que um filho se despede dos pais e da vida? O que é que se diz? Como se termina um bilhete destes?

Hoje sou adulto, sou pai e, quando releio este bilhete, apenas penso: o que teria perdido se tivesse levado o meu plano até ao fim… o que não teria vivido… os amores que não teria sentido… as alegrias que não teria experienciado. Tristeza, dor e angústia, também, claro. Mas fazem parte da vida. Ajudam-me a valorizar ainda mais o que tenho e quem tenho hoje.

Mesmo sem ver qualquer saída naquela altura, a verdade é que essa saída existia. O processo de ajuda que tive, o apoio dos meus pais e de todas as pessoas que gostavam verdadeiramente de mim. Afinal, é possível gostar de viver. Mesmo com as coisas menos boas que fazem parte da vida».

[Testemunho fictício baseado em relatos reais].

A depressão não é um problema residual. Em Portugal, estima-se que mais de meio milhão de pessoas sofre desta perturbação.

No entanto, é muitas vezes confundida com tristeza e acredita-se que passa com o tempo. Que é apenas uma fase.

Aqueles que estão próximos da pessoa deprimida nem sempre sabem identificar os sinais de alerta, que podem ser emocionais, comportamentais ou sociais, com alterações no seu funcionamento habitual. É preciso saber descodificar estes sinais e pedir ajuda.

É preciso ainda que sejam desenvolvidas estruturas de apoio especializadas, que possam intervir de forma célere e articulada.

Porque a depressão mata.

Mas existe uma saída. Encontre a sua saída.