Férias com crianças aos gritos

Em tempo de férias temos mais tempo cheio de nada, tempo precioso em que nos dedicamos também a olhar em volta e observar o comportamento de quem nos rodeia. E, no que respeita ao comportamento das crianças, existem alguns locais de excelência onde podemos observar coisas muito interessantes. Falo da praia, do restaurante ou do supermercado (digam lá se não são locais de observação muito privilegiados?). Locais onde assistimos a gritos e birras com motivações diversas e que, por isso mesmo, exigem soluções diferentes.

Bastam alguns minutos de observação mais atenta e rapidamente ouvimos miúdos que gritam desalmados porque não querem sair da água, outros porque as batatas fritas acabaram e outros, ainda, porque querem um brinquedo que, obviamente, está exposto nas prateleiras mais baixas e acessíveis aos seus olhos espevitados. Temos ainda as crianças cujos gritos se relacionam com os horários a que os levam para debaixo de um sol escaldante, com as longas esperas em pé por um lugar sentado numa mesa ou com uma caixa aberta para pagar as compras.

Com muitas crianças, os gritos e as birras relacionam-se com a alteração drástica das suas rotinas. Crianças que passam 11 meses e duas semanas por ano em regime militar no que diz respeito aos horários de alimentação e sono e que, subitamente, sem qualquer pré-aviso, têm rédea solta para comer e dormir quando bem entenderem. Ou melhor, quando aos pais mais jeito der. Porque isto de comerem às 11h30 não dá com nada, aquelas educadoras são mesmo umas exageradas. E digam lá se o sol não é de facto muito melhor ali pertinho da hora de almoço? Aproxima-se o meio-dia e é ver os miúdos a chegar à praia ou à piscina já meio tostados, que é como quem diz, queimados, abrindo a boca em direção às bolas de Berlim. E depois é de facto uma chatice estar em amena confraternização com os amigos e ter de interromper tudo para a sesta da criança. E à noite… bem, à noite logo se vê até onde é que aguentam, porque com a animação de certeza que os olhos se mantêm abertos. E o mesmo acontece com as gargantas.

Para estas situações, apenas uma coisa a dizer: os miúdos não são robots e não se programam e reprogramam ao ritmo e bel-prazer dos pais e dos seus horários de férias. As rotinas das crianças podem ser ajustadas, claro, mas de uma forma gradual e com bom senso. Se queremos férias sem horários nem rotinas, então não podemos levar connosco crianças mais pequenas. É simples.

Assim, perante este tipo de gritos e birras, não vale a pena tentar ignorar ou castigar. Aquilo de que a criança precisa é de um abraço reconfortante e de alguém que satisfaça as suas necessidades. As suas, não as dos adultos.

Temos depois muitas outras situações em que as crianças gritam desalmadamente porque querem com isso obter alguma coisa. Seja mais tempo na piscina, três gelados seguidos ou mais trinta voltas no carrossel. Falamos de situações em que a criança pretende levar a sua avante, que é como quem diz, “vamos lá ver se fazes ou não fazes aquilo que eu quero”. O problema é que, muitas vezes, conseguem mesmo o seu intento, berrando cada vez mais alto, na certeza absoluta de que a cada decibel que sobe aumenta também a probabilidade de ganharem esta luta de poder.

Para estas situações, a solução é apenas uma: não ceder. Ser firme e ensinar à criança que “não” significa “não”. E que, por mais altos que os berros possam ser, a resposta parental não irá mudar. Doses gigantes de amor firme e com limites bem definidos é a solução mágica para ajudarmos as crianças a serem mais assertivas, autónomas, confiantes e com capacidade em regularem as suas emoções.
Sentimos as outras pessoas de olhos postos em nós quando os nossos filhos fazem birras em locais públicos? E o que interessa isso? Afinal de contas, estamos mais preocupados com o crescimento saudável dos nossos filhos ou com a opinião dos outros?