O génio da lâmpada

Todos conhecemos a história de Aladino, um jovem adolescente que é descrito como imaturo e desobediente. Encontra, a dada altura, um feiticeiro que lhe promete muito ouro e riquezas em troca de uma lâmpada maravilhosa, que se encontra dentro de uma caverna profunda.

Aladino aceita o pedido do feiticeiro e entra nessa caverna. No entanto, desconfiado das intenções deste, recusa-se a entregar a lâmpada e acaba preso no fundo da caverna. Acidentalmente, esfrega a lâmpada e um génio mágico aparece, concedendo-lhe três desejos. Aladino pede para sair da gruta e, posteriormente, para desposar a princesa, filha do sultão. Já governante do seu reino, Aladino conta com a ajuda preciosa deste génio para ultrapassar todas as provações e adversidades.

Ora bem. Falemos então deste génio.

Quando pensamos sobre esta história, é inevitável o desejo que sentimos em possuir uma lâmpada maravilhosa e sermos os amos de um génio que, de uma forma mágica e imediata, nos concederia todos os desejos. Mas sabemos que tal é impossível e conformamo-nos com a nossa mera existência real.

Neste contexto, há uma questão que se impõe. Sabendo que este génio mágico não existe, será que não existe um outro tipo de génios? Génios reais e que nos ajudem também a realizar os nossos desejos e a lidar com as dificuldades?

Uma vez li esta história a uma criança mais velha que, céptica, olhou para mim e disse, num tom de voz muito afirmativo: «Esse génio não existe, é apenas uma história. Não acredito nisso. O génio que realiza os meus desejos sou eu».

Esta frase é muito sábia. Não existem génios mágicos dentro de lâmpadas douradas, mas existem génios dentro de cada um de nós. Génios que se chamam autoestima, resiliência, capacidade em olhar para os problemas e encontrar soluções alternativas, capacidade em antecipar as consequências das acções. Génios que nos ajudam a regular as emoções que sentimos e a ajustá-las às diversas situações. Génios que nos fazem ser persistentes e não desistir, mesmo perante ameaças e obstáculos.

E este menino depressa percebeu isso.

Mas para que estes génios existam dentro de cada um de nós é preciso que sejam cultivados desde cedo. Semeados ainda em tenra idade, regados ao longo do desenvolvimento, incentivados e reforçados no seu processo de crescimento. O que equivale a dizer que, desde cedo, as crianças devem ser ajudadas a identificar as suas competências e capacidades.

Ao invés de lhes dizermos «não faças isso, não consegues» ou «isso é muito difícil para ti», devem ouvir mensagens que as ajudem a tentar, a persistir e a não desistir. E quando não conseguem, de facto, fazer ou alcançar algo, deve ajudar-se a interiorizar a ideia de continuar a tentar e que o erro faz parte do processo de aprendizagem. Mas acreditando sempre que não existem impossíveis.

As crianças devem também ser ajudadas a evitar processos de atribuição externa. O que significa que devem acreditar que os recursos para conseguir algo estão também dentro delas. Se eu consigo, ou não, qualquer coisa, não depende apenas dos outros. Depende, acima de tudo, de mim. E só este processo de atribuição interna me ajudará a chegar mais longe.

Voltemos então à história do Aladino. Mas agora, à nossa maneira.

Aladino desceu à caverna profunda e viu uma lâmpada dourada, muito bonita. «Traz a lâmpada para cima!», ordenou o mágico com uma voz firme. Mas Aladino, desconfiado e receoso, nada fez. Pegou na lâmpada que, de tão brilhante que era, reflectia a sua imagem, como se de um espelho se tratasse. Aladino viu o seu rosto magro e assustado, os olhos muito abertos e vigilantes. E pensava, «o que faço agora? Como saio daqui? E se o mágico me faz mal?» Ouviu então um barulho estridente e olhou para cima. O mágico tinha-o fechado na caverna. Estava sozinho, entregue à sua sorte.

Sem saber o que fazer, desesperado, começou a chorar. Olhou novamente para a lâmpada, que ainda segurava com ambas as mãos, e viu novamente o seu rosto reflectido. Lágrimas grossas invadiam a sua face, os olhos vermelhos acusavam o medo que sentia. Foi então que se lembrou das palavras que a sua mãe tantas vezes lhe dissera. Após a morte do seu pai, sozinhos no mundo, era com a mãe que muitas vezes conversava. E havia algo que ele recordava claramente. A forma como a mãe se negava a resolver as coisas por si e lhe dizia, mais do que uma vez, que «és tu quem tem a chave para resolver os teus problemas».

«Eu tenho a chave», pensou. «Mas qual chave?»

Tentando acalmar-se, sentou-se no chão, em cima de uma pedra, e foi então que percebeu que as pedras estavam soltas. Quase rebolou e foi assim, desequilibrado, olhando para um ângulo que, até então, não tinha visto, que percebeu que as paredes da caverna eram rugosas e cheias de cavidades. O brilho amarelo da lâmpada iluminava um pouco o ambiente à sua volta, e percebeu que, empilhando as pedras soltas conseguiria chegar às cavidades das paredes, que treparia em escalada. Com medo, é certo, mas também com a vontade imperiosa de encontrar uma saída, assim fez. E devagarinho alcançou a saída da caverna, tapada por uma pedra que, também solta, rebolou e lhe mostrou a luz do sol.

«Eu tenho a chave», pensou. E tinha mesmo.