A paciência dos pais tem limites!

Os pais vivem sob uma grande pressão hoje em dia. A sociedade exige pais perfeitos, que ainda antes do nascimento do bebé já têm tudo previsto. Desde a conservação das células estaminais (porque mais vale prevenir…), à escolha da melhor creche ou ama, a quem são feitas entrevistas baseadas em estudos internacionais que indicam os requisitos a preencher. Roupas de algodão puro, o melhor carrinho de bebé (que concorre com um carro topo de gama em muitos aspectos!), os biberons mais anatómicos que existem, os brinquedos didácticos e previamente validados por especialistas…

E depois há o «Dr. Google», aos quais os pais recorrem a toda a hora, inseguros e com medo de errar, à procura de respostas validadas e receitas universais… é verdade que a investigação tem, naturalmente, um lado positivo, mas pode ter um efeito paradoxal quando consumida desta forma. Os pais perdem a sua espontaneidade e capacidade de aprender com os erros.

E esta pressão continua à medida que os filhos crescem. A roupa de marca (que deve estar bem visível), as festas de aniversário nos locais da moda, os bolos de cake-design que custam pequenas fortunas, as tecnologias cada vez mais caras (e parece que, quanto mais caras são, menos duram, pois há sempre um novo modelo a sair)… e mais isto, mais aquilo… ter, ter, ter. E aqui temos de dar os parabéns ao marketing infantil!

Pensemos agora nestes pais. Como se sentem? Porque exigem-se pais presentes na vida dos filhos e, ao mesmo tempo, excelentes profissionais a progredir nas suas carreiras. Duas realidades que nem sempre são fáceis de conciliar.

Como lidam os pais com toda esta pressão e exigência, que começa na própria sociedade e acaba na criança e no jovem?

Tentam manter uma aparência de pais-que-aguentam-firmes-e-sorridentes-e-felizes-por-estarem-presentes-e-dar-tudo-aos-filhos. Partilham nas redes sociais os feitos e conquistas das crianças. Orgulhosos, claro. Mas, muitas vezes e, acima de tudo, centrados na imagem que isso transmite aos outros. Quase uma projeção de si mesmos. Preocupados em validar aquilo que os outros esperam deles. Em mostrar que está tudo de acordo com as expectativas sociais.

Mas estes pais também sentem culpa.

Uma culpa tantas vezes escondida, negada, como se senti-la fosse em si algo horrível. Culpa pelo tempo que não têm para os filhos, e que tentam compensar, de alguma forma, com maior permissividade. Culpa por sentirem também emoções negativas face aos filhos. Por terem vontade de os ver pelas costas, nem que seja só por um bocadinho. Por sentirem alívio quando os entregam na escola ou nas actividades. Por fazerem contagem decrescente durante as férias… desejosos de voltar ao trabalho!

«Devo ser uma péssima mãe, por sentir necessidade de tempo para mim».

«Que raio de pai sou eu, que acabo o trabalho e faço tempo no escritório, sem necessidade, apenas para chegar mais tarde a casa… preciso de ter algum sossego».

Desabafos de pais cansados, extenuados, centrados em corresponder àquilo que a sociedade espera deles. E que nem sempre o conseguem fazer.

Neste contexto, sabemos que a paciência dos pais tende a esgotar-se. Pressionados de diversas formas, confrontados com filhos exigentes que querem tudo aqui, e agora, e já! Filhos com baixa tolerância à frustração, porque cresceram sem ouvir suficientes «nãos», com limites difusos e permissividade a mais.

E quando a paciência dos pais se esgota… sim, os pais «passam-se». Uso esta expressão, utilizada por tantos pais, por traduzir exactamente aquilo que ocorre. Os pais «passam-se», gritam, ameaçam, choram. Como se toda a pressão contida fosse libertada de uma só vez. De forma abrupta.

E sim, os pais têm o direito a passar-se. Porque não existem pais perfeitos. Porque a paciência tem, de facto, limites e porque a pressão sentida é, efectivamente, muito forte.

Se as crianças ficam traumatizadas por os pais se passarem de vez em quando? Não. As emoções negativas dos pais apenas poderão ter esse impacto na criança se forem crónicas (pais sempre irritados e zangados) e de elevada intensidade (pais mesmo muito irritados e zangados). Se se traduzirem em comportamentos maltratantes, seja de que forma for.

Caso contrário, não. As crianças não ficam traumatizadas.

Vamos lá retirar alguma culpa a estes pais, por favor.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, é usada a antiga grafia.

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