Queres namorar comigo?

Ao longo dos tempos, as relações de namoro têm assumido diversos formatos. Desde o tempo das nossas avós, em que os casamentos ainda eram, tantas vezes, arranjados em redor das conveniências familiares e dos dotes que cada uma podia oferecer. Passando pelo tempo dos nossos pais, em que o amor era já palavra de ordem, embora não ainda de uma forma generalizada, pois a decisão final era quase sempre da família. E raramente coincidia com as ideias românticas de amor eterno.

Dos namoros na presença dos pais, passando pelas janelas e esquinas (ai, tantos beijos roubados e virgindades que se evaporaram…), passamos a outra geração, a nossa, em que é o amor quem manda e ponto final. Talvez por isso se assista, como nunca antes se assistiu, a uma taxa de divórcios tão assustadoramente elevada. Porque quando o amor já não reina, muitas pessoas vão mesmo procurá-lo noutras paragens. E ainda bem que o fazem, quando o que deixam para trás são relações tóxicas e patológicas que não trazem benefícios a ninguém.

Temos hoje à disposição um sem número de recursos para encontrar o amor. Passando pelos chats e sites de encontros, pelas famosas aplicações em que se escolhe alguém com um simples passar de dedo, os encontros ultra rápidos (porque os primeiros 5 minutos são decisivos!) ou, ainda (quem diria!) os programas de televisão em que se casam sem se conhecerem ou se conhecem à boleia de um carro. Também há quem escolha alguém pelas formas dos corpos nus (sim, é verdade) e só mais tarde lhes ouça a voz e tenha um primeiro encontro. Pois é, a realidade actual desafia a mais criativa das imaginações e sabe-se lá o que virá mais.

Mas no meio de tanta tecnologia e rapidez (porque a verdade seja dita, as pessoas não têm tempo para conhecer alguém, quando mais para cortejos e namoros), parece que persiste a ideia romântica de, um dia, se conhecer alguém especial. Alguém que nos faça disparar o coração, que não seja um mero «penso rápido» para a solidão e necessidade de companhia.

E essa necessidade parece evidente em pessoas de qualquer idade. É como se a questão geracional não tivesse aqui qualquer impacto. Por isso olhamos em redor e vimos pessoas mais velhas e mais novas, pais e filhos adolescentes, todos desejosos de um simples, mas tão profundo, «queres namorar comigo?» Daqueles quase «à filme».

Parece algo paradoxal. Por um lado, a ideia de encontros fast e escolhas quase por catálogo (recentemente, ouvi alguém dizer na televisão que procurava uma mulher «não muito alta, não muito gorda, de cabelo não muito curto») e, por outro, a ideia romantizada do namoro e do amor. Mas se virmos com atenção, não é assim tão paradoxal. Penso que, no fundo, assistimos apenas a uma mudança na forma de procurar e encontrar o amor. Na essência, as pessoas continuam a reconhecer a necessidade de uma relação afectiva como algo que as preencha. E fazem-no não porque estão vazias, mas sim porque é uma dimensão importante da sua vida.

Já não vivemos na época das cartas de amor e das serenatas, mas isso não significa que não se desejem relações de intimidade e cumplicidade. Independentemente da forma que estas relações podem assumir, no fundo, bem lá no fundo, parece que a maior parte de nós procura a mesma coisa.

«Queres namorar comigo?»