A terapia de casal não traz o amor de volta

Costuma dizer-se que o nascimento do casal é como uma fórmula matemática, embora incorreta. 1 + 1 = 3.
Cada algarismo 1 diz respeito a um dos elementos do casal, com a sua individualidade e especificidade, com a sua história e passado, as suas vivências e aprendizagens. Para que surja o casal, essa entidade que vai para além da mera soma de ambos os algarismos 1, é necessário que se crie uma identidade conjunta, um «nós». Trata-se de um terceiro elemento com características próprias, assumindo-se um compromisso com o novo sistema conjugal.

Mas viver em casal não é fácil e desengane-se já quem assim pensa. «Amor e uma cabana» é pura ficção e cada um traz sempre consigo uma bagagem. Mais ou menos complexa, mais ou menos problemática… mas traz. E conseguir um «nós», que integre ambas as bagagens, carregadas de histórias de vida, expectativas e receios, é mesmo um grande desafio. E este nem sempre é superado com sucesso.

Por motivos diversos, muitos encontram na terapia de casal a última saída. Seja porque se deparam com um padrão de comunicação disfuncional ou dificuldades em gerir os conflitos, em integrar a cultura e valores das respetivas famílias de origem ou os padrões educativos face aos filhos, seja porque existe insatisfação na esfera da sexualidade, gestão económica ou na conciliação (ou falta dela) entre a vida familiar e profissional, por estes ou outros motivos, a terapia de casal é sentida para muitos como a derradeira alternativa, a última oportunidade, depois de já terem tentado, por si mesmos ou com a ajuda de amigos e familiares, ultrapassar os problemas que sentem.

E é nesta fase tardia que muitos casais chegam até nós, os terapeutas de casal. Uns mais motivados do que outros sendo que, por vezes, um elemento é quase arrastado pelo outro. Ambivalentes, receosos, expectantes mas, também, esperançosos. Depositam no terapeuta a tarefa impossível de encontrar a solução mágica, aquela que fará com que tudo volte a ser como antes. Que a chama da paixão se reacenda. Que o amor volte. Que tudo seja resolvido.
Ora, é aqui que reside o grande problema.

Dito de uma forma muito clara, a terapia de casal não dá amor. A terapia de casal pode ajudar a identificar os problemas, abrindo espaço para uma comunicação clara e funcional. Refletir sobre o papel que cada um dos elementos do casal representa no problema mas, acima de tudo, o papel que cada um pode desempenhar na solução. Descentrar da necessidade em identificar um culpado, baixar os dedos esticados e acusatórios que apenas aumentam o nível de conflito. Abandonar a ideia de que a responsabilidade é apenas de um deles e tentar identificar alternativas para os problemas, encontrando soluções de compromisso.

Ajudar cada elemento do casal a olhar para dentro de si.
«O que sinto?»
«O que quero?»
«O que não quero?»
«O que posso fazer para que eu me sinta melhor nesta relação?»
Ao invés de dizer o que o outro pode mudar, o que o outro pode fazer…
É este o papel da terapia de casal.

O terapeuta é como um maestro, que ajuda e orienta. Dá pistas, encaminha, ajuda a pensar e a perspetivar de outra forma. Com a sua batuta, pode até assinalar o caminho e facilitar o processo de reflexão, mas nunca dar soluções, conselhos ou sugestões. O amor… o amor vai muito para além disto e não se consegue desta forma. Ou se sente ou não se sente. Não se impõe. Não se exige, Não se treina.

Pode o casal encontrar formas de o manter presente, eventualmente assumindo formas diferentes de expressão ao longo do tempo? Sim. Pode ser investido, cultivado, incentivado. Às vezes é feito de pequenos nadas, mas que são muito. Coisas pequenas que são, no fundo, gigantes. Uma palavra, um gesto, um reconhecimento. Um amor que pode mudar ao longo do tempo, surgir configurado de outra forma, mas que permanece na sua essência.

Pode o terapeuta ajudar a recuperar um amor perdido? Não.

Mas procurar ajuda mais cedo pode ser facilitador. Quando o conflito e a distância emocional não estão ainda cristalizados. Quando existe ainda espaço para manter e alimentar o «nós». Casais que procuram ajuda em momentos de crise e que apresentam, sem qualquer dúvida, um melhor prognóstico.

Isto do amor e das relações é, de facto, muito complexo. Não existem receitas nem fórmulas mágicas e, por vezes, os casais que «têm tudo para dar certo», não dão. E aqueles que parece que nada têm em comum…

Decididamente, as fórmulas matemáticas não servem para as relações humanas.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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