Triângulo amoroso

Parte I

Tenho uma relação há muito tempo. Não sei já há quanto tempo, mas acho que nem tempo de mais, nem tempo de menos. Penso que será o tempo certo.

Passámos a fase da paixão, acesa como só ela sabe ser. Mal respiramos, o tempo pára quando não estamos com quem queremos e voa quando estamos juntos. Chega a ser uma dor física, esta dor da ausência e da distância. Tudo é exacerbado e morremos «literalmente» se não estamos com a outra pessoa.

Essa fase passou, claro, como passa sempre em todas as relações. As águas turbulentas acalmaram, dando lugar às águas paradas e calmas do amor, do carinho e do companheirismo. O coração deixou de bater desenfreadamente e voltei a respirar normalmente. Estar longe da outra pessoa deixou de ser o fim do mundo. E o tempo voltou ao seu ritmo normal, com a cadência certa de quem sabe o que faz.

Sem pré-aviso, a rotina instalou-se. Chegou de mansinho e parece que veio para ficar. Os dias passaram a ser muito iguais. Demasiado iguais, atrevo-me a dizer. O trabalho, a casa, as compras. Depois vieram os filhos. Muito amor, é certo, mas muito stresse também. E desengane-se quem pensa que ter filhos são só rosas. Por mais desejados que sejam, acarretam sempre desafios a que nem todos os casais resistem.

Este processo faz parte da vida, penso eu. Se vivêssemos em permanente estado de paixão não faríamos mais nada do que dedicarmo-nos ao ser amado. Nada de trabalho, nada de família, nada de nada.

Acho que terá sido esse o nosso caso. Também os cuidados aos filhos passaram a ser parte integrante dessa rotina e os dias tornaram-se novamente iguais. O espaço e o tempo para nós os dois deixaram de existir, progressivamente, até desaparecerem por completo.

Um dia, também sem pré-aviso, o coração deu um salto e voltei a sentir o que há muito não sentia. A vontade em ver e estar com o outro, o desejo, a impaciência, os minutos que pareciam horas e os dias que pareciam anos. Senti-me renascer e tudo ganhou cor. Sim, estava novamente apaixonado, mas não pela mesma pessoa.

O caos instalou-se na minha vida, porque conciliar o desejo e a paixão assolapada com a culpa e o medo não é fácil. É um querer e um não querer. É estar com a pessoa com quem devemos estar e pensar na outra, com quem não devemos estar, mas queremos estar.
A mentira passou a fazer parte da minha vida. As reuniões inventadas, os telefonemas escondidos, as mensagens trocadas na casa-de-banho.

O meu coração dispara quando penso nesta pessoa que me invadiu a vida de uma forma totalmente inesperada. O seu cheiro deixa-me tonto. A voz, tudo nela me invade e conduz a uma pessoa que eu nem sabia que existia. Essa pessoa que agora descobri, ou redescobri, sou eu mesmo.

E sou um estranho para mim próprio.

Parte II

Tenho uma relação normal, diria eu. Namoro, casamento, filhos. Muito trabalho, é certo, que nos obriga a algum afastamento, mas faz parte da vida. Acho eu que é assim.

Os nossos filhos, apesar de muito desejados, não deixaram nunca de nos retirar tempo. O tempo que ambos tínhamos um para o outro e que, de alguma forma, nos unia.

Pouco a pouco, senti que nos afastámos. Deixou de ser aquela relação empolgada e ardente para ficar apenas morna. Deixamos de vibrar um com o outro, para apenas sorrir face ao outro. Ao fim de alguns anos, sinto que nos acomodámos a um tipo de relação que a sociedade exige e legitima. Uma relação tantas vezes sem sorrisos.

Mas agora sinto-o diferente. Vejo que os seus olhos brilham novamente, mas não é por mim nem para mim. Sinto que o seu coração salta e a respiração fica ofegante, mas não comigo. Sei que tem outra paixão, ou outro amor, quem sabe.

Não sei o que fazer nem como fazer. Grito e deixo a minha raiva explodir, devastando tudo à volta? Ou faço de conta que não vejo e que não sinto, que não cheiro o seu perfume e a sua presença? Ignoro a atenção constante face ao telefone e as saídas apressadas de casa, demoradas depois no regresso? Ou confronto e parto a loiça toda, deito tudo a perder e enfrento depois o desconhecido, o vazio… nem sei bem o que terei de enfrentar depois. E tenho medo.

Medo do que pode vir, medo de ficar sozinha.

Medo de não conseguir lidar com tantas mudanças.

Medo.

E este medo paralisa-me, faz com que, na prática, nada faça. Sei o que se passa e fecho os olhos. Sim, com alguma vergonha o admito, mas a verdade é mesmo essa. Fecho os olhos. Digo para mim mesma que será pelos filhos, pela sociedade, pela instituição chamada casamento. Mas em boa verdade penso que é por mim. Pela dificuldade que tenho em perder e em ficar só.

E assim vou levando a vida.

Parte III

Aconteceu-me o que nunca imaginei que me acontecesse. Aquele papel ingrato que todos conotam de forma negativa, a «outra», a «amante», aquela que «destrói casamentos». Essa sou eu.

Se me tivessem perguntado há algum tempo o que pensava sobre este tipo de situação, a minha resposta teria sido clara e inequívoca. Condeno e aponto o dedo. Sem sombra de dúvidas que condeno quem «se mete com um homem casado». E ponto final.

O problema é que as coisas, afinal, não são assim tão lineares. Não são a preto ou branco… não, e sem dar por isso vi-me de repente envolvida nesta situação. Mas que direito tem a paixão de aparecer assim, de repente, de nos assolapar e nos levar à loucura? Que direito tem o coração de nos toldar a visão e o pensamento, ao ponto de não vermos o que é óbvio e ignorarmos aquilo que deveria ser o mais importante?

Chorei muito, lutei contra o que sentia e contra mim mesma. Tentei fugir daquilo que sentia, e ainda sinto, porque é dissonante. Cria ruído cá dentro.

Vejo-me a fazer coisas inimagináveis. Encontros marcados em surdina, encaixados numa agenda alterada de forma a criar esses espaços. Eu encaixo-me e ajusto-me, carente de minutos de um amor roubado. Mas cada minuto conta, e é como se a cada encontro fugaz recebesse o oxigénio que preciso para sobreviver.

O que vou fazer com isto? Exigir uma tomada de decisão, ou eu ou ela, ou aguardar pacientemente que a vida dite o seu rumo? Criar a pressão de uma tomada de decisão, ou simplesmente deixar fluir?

Pois não sei. Porque tenho muito medo de perder, de o perder, e de me perder também. Porque é nesta relação, chamemos-lhe assim, que me reencontrei também. Sentindo coisas que não sentia há tanto tempo. «Cheiras bem», diz-me de olhos fitos em mim. «Sinto a tua falta», acrescenta. E ouvir isto vale por todas as mentiras do mundo.

Ouvir a perspectiva do outro… ou a capacidade de descentração

De uma forma impulsiva e irreflectida, condenamos muitas vezes estas situações. Condenamos quem mantém uma relação extra-conjugal, condenamos quem fecha os olhos perante este tipo de realidade e faz-de-conta que nada se passa e condenamos, ainda, quem se envolve com uma pessoa comprometida.

O dedo acusatório dos estereótipos surge também porque nem sempre conseguimos colocar-nos no lugar do outro. Olhamos as situações a partir da nossa perspectiva e dificilmente imaginamos o que pensa e sente o outro.

O exercício de nos colocarmos no lugar do outro é fundamental. Acaba por ser um exercício de empatia, que nos permite perceber o outro e a forma como sente. Podemos até não nos rever nos comportamentos alheios, mas compreender não significa concordar. Significa aceitar e não resumir o outro ao seu comportamento.