Olhà sardinha linda

Descascamos aqui o peixe preferido dos portugueses nos meses de verão. Para que saiba o que anda a comer.

Texto de Marina Almeida

BILHETE DE IDENTIDADE

A sardinha que anima as patuscadas dos portugueses é da espécie sardina pilchardus. Tem um corpo alongado, sub-cilíndrico, prateado com tonalidades entre o verde e o azul. Pode viver até aos 14 anos e atingir 27 cm de comprimento, mas na costa portuguesa são mais comuns os exemplares mais jovens (até 7 anos) e mais pequenos (até 22 cm). O tamanho mínimo de captura são os 11 cm. É uma espécie que se alimenta de plâncton. Como não é predadora, apresenta um baixo risco de contaminação de metais pesados como o mercúrio ou o cádmio. Mas tem predadores: os golfinhos (e o homem, claro).

Habitat

Desloca-se em família: os enormes cardumes podem ultrapassar 100 m2. Distribui-se ao longo de toda a costa portuguesa, sendo mais abundante a norte. Os juvenis e adultos jovens concentram-se em zonas mais costeiras, próximo dos estuários dos rios e rias (sobretudo entre o Porto e a Figueira da Foz e na região de Lisboa). Desde novembro do ano passado, há um aquário de sardinhas no Oceanário de Lisboa: uma forma de alertar para o risco da espécie, sensibilizando para o consumo sustentável.

Benefícios

A composição da sardinha varia consoante a época do ano. É entre o final da primavera até meados do outono que acumula a tão apreciada gordura, que lhe permite ter energia para se reproduzir. E é nesta altura que é mais rica em ómega 3, os ácidos gordos que são amigos do coração. A sardinha é ainda uma fonte natural de proteínas, zinco, ferro e cálcio e vitaminas D e B12. Apresenta melhores benefícios se consumida fresca. No entanto, as conservas são uma boa opção para os meses do ano em que não está disponível nos mercados. E atenção, as espinhas da sardinha em lata são uma importante fonte de cálcio: 100 g de sardinha em lata podem fornecer até 38 por cento da dose diária recomendada de cálcio para um adulto.

Na arte (popular)

 

Não falta iconografia alusiva à sardinha (nem provérbios). Bordallo Pinheiro fê-la em cerâmica fiel à cor, brilho e tamanho. Hoje a coleção com o seu nome já absorveu as variantes que saíram da imaginação dos artistas que têm desenhado as sardinhas das Festas de Lisboa. Há sardinha-pasta de dentes, sardinha-noiva (e muitas mais) entre os 60 exemplares deste cardume cerâmico. Todos os anos, a EGEAC estimula a criatividade dos amantes deste pelágico com o concurso para ilustrar os cartazes da festa. Desde 2011, já houve 43539 propostas, 57 vencedoras. Amália cantou-a em Fui ao mar buscar sardinha: «Sardinha que anda no mar/Deve andar consoladinha/ Tem água, sabe nadar,/Quem me dera ser sardinha!»

Comer

Faz-se em pataniscas, em sushi, em empadão. Em cuscuz, em paté e até em gelado. Mas é assada que a sardinha é rainha. Acompanhada com batata cozida e uma salada de alface, tomate, cebola e pimentos, servida sobre uma fatia de pão, dizem os verdadeiros apreciadores. É no grelhar que está o segredo. O peixe só deve ser salgado pouco antes de ir para a grelha, com escama e colocado sobre umas brasas bem fortes. Não esquecer a broa de milho…

Em risco

O alerta soou quando o Conselho Internacional para a Exploração do Mar sugeriu que a pesca de sardinha fosse proibida em Portugal e Espanha em 2018. Os governos ibéricos adotaram medidas de proteção para garantir a sustentabilidade da espécie – e a sua presença à mesa este verão. O defeso foi alargado até 21 de maio. A faina decorreu até 31 de julho mas com regras apertadas: só podiam ser capturadas até 4.855 toneladas de sardinha, com limites diários (em 2015, foram apanhadas 140,8 mil toneladas).

Fontes: FAO, DGS (Nutrimento), Conselho Internacional para a Exploração do Mar, IPMA, Ministério do Mar