António Vaz Carneiro: “As terapias alternativas são mágicas na sua génese, sem qualquer base científica”

António Vaz Carneiro

Escudado pela ciência, sem medo de dizer o que pensa por essa razão, António Vaz Carneiro faz tudo o que está ao seu alcance para acabar com os mitos e crenças na saúde. Incluindo escrever um livro com este nome para que médicos e pacientes façam as escolhas mais acertadas.

Entrevista de Ana Pago

A evolução científica alargou o conhecimento, no entanto continuamos a acreditar numa série de mitos que a própria ciência, muitas vezes, contribui para que se mantenham. Porquê?
Há aqui dois aspetos que me parecem fundamentais. O primeiro tem a ver com o facto de a maioria das pessoas não conseguir captar na sua plenitude o que são os estudos, um ensaio clínico, um teste de diagnóstico e etc., etc. Esse é um dos pontos: não há como simplificar uma coisa que é complexa e a informação, em si mesma, é complicada, o que dificulta a compreensão dom que está em causa. O segundo aspeto é mais maligno, mais grave à sua maneira: existe, hoje em dia, uma posição de tal forma anticientífica a nível mundial que leva a uma contestação direta do que é o papel da ciência e dos especialistas.

Ao ponto de pô-los em causa?
Sim. Dou-lhe o exemplo de um relativismo absolutamente grotesco do conhecimento: imagine que eu acabo de receber toda uma informação acerca desta doença X, mas entretanto li umas coisas na internet e portanto sei tanto como o médico sobre ela: vou ter tendência para contestá-lo. Um outro exemplo é o do presidente dos EUA, Donald Trump, que duvida das alterações climáticas. Ele não diz que aquelas provas objetivas, conhecidas e inequívocas estão mal, às tantas nem compreende aquilo que lá está. Mas depois sublinha que o seu “instinto natural para a ciência” é tão válido quanto os estudos científicos, pelo que vai fazer uma política baseada na opinião dele.

Isto também acontece com as pessoas que têm ideias relativamente firmes sobre a saúde.
Que são a maioria. Não entendem que a informação científica é o que me permite diminuir a incerteza, os fenómenos biológicos só podem ser apreendidos através de uma linguagem científica. Eu sei que não devo dar antibiótico num tumor cerebral porque sei o que são microrganismos e qual é a biologia da célula oncológica. Não estou a inventar, sei muito bem o que tenho de fazer aqui. E quando elas vão ao arrepio do que a própria ciência nos mostra, e em que o que lhes parece lógico não é confirmado por ela, há uma tendência para desvalorizarem a ciência e os experts da vida moderna em desfavor daquilo em que acreditam.

Ainda assim, como é possível haver estudos que comprovem simultaneamente uma ideia e o seu contrário? Como andar anos a dizer que o pequeno-almoço deve ser a principal refeição do dia e depois vir outro dizer que afinal não?
O número global de estudos que se contradizem é muito pequeno – não há por exemplo estudos que demonstrem que o colesterol não é um fator de risco. Não há. E nós baseamo-nos na produção de evidência científica para crer que uma coisa é verdadeira, como a de que ter o colesterol a 400 vai induzir doença cardiovascular. É apoiado pelos estudos, posso fazer essa afirmação. Mas depois há pessoas que o têm a 400 ou 500 e nunca manifestam doença cardiovascular, e outras com ele a 100 que a têm. Esta incerteza dos fenómenos biológicos, esta variação, faz com que a ciência política não seja uma ciência exata como a astrofísica ou a balística, em que eu sei sempre onde o projétil vai parar se souber a velocidade a que ele sai do cano da arma, as condições meteorológicas e a gravidade da terra. Tenho uma equação matemática que me prevê isso com 100% de precisão.

Os fenómenos biológicos não são assim…
Pois não, e para captar toda esta variabilidade do que fazemos em medicina só conheço uma metodologia, que é a científica. Se alguém estiver disponível para me apresentar uma melhor eu estou disponível para analisá-la, mas até lá é graças a ela que a possibilidade de encontrarmos estudos contraditórios a esse nível é muito rara. Aliás, a construção do conhecimento faz-se por passos sucessivos. Nós acreditamos que as coisas são verdadeiras quando muitos estudos, que procuram responder à mesma questão clínica, são relativamente consistentes nos seus resultados. Quanto mais consistentes forem, mais eu acredito que aquilo é autêntico.

“As pessoas ou não têm acesso à informação ou vão ao Dr. Google e acabam mal orientadas.”

E quando surge um estudo que contradiz?
Aí vamos ter de analisar muito bem se a intervenção foi feita com as mesmas doses, durante o mesmo tempo, se haverá uma característica tão particular nos doentes que dê resultados radicalmente distintos. O que sucede nos estudos é que eles dão gamas de resultados diferentes: um salvou a 30%, o outro salvou a 25%. Agora, um salvar a 30% e o outro matar a 30% a gente nunca vê, portanto os fenómenos biológicos são relativamente constantes. É uma questão de se ir buscar os estudos que são relevantes, bons do ponto de vista metodológico.

Só então vamos acreditar que aquilo é verdade.
Se eu tenho dez ensaios clínicos que me dizem que o tratamento da úlcera péptica melhora radicalmente com um medicamento antiácido, isso é muito mais seguro do que se tiver dez ensaios clínicos em que cinco me dizem que sim, três me dizem que não e dois não me dizem nem que sim nem que não. Em todo o caso, essas contradições são raras e habitualmente em áreas muito específicas, como a nutrição Nas doenças cardiovasculares não existem ou são absolutamente excecionais. E quando ocorrem são escrutinadas ao pormenor para se perceber o porquê de algo sair completamente fora do que as outras confirmam.

Então como é que chegámos ao ponto de achar que o leite de vaca é um alimento diabólico? Ou que beber café é mau para a saúde – duas crenças que desmistifica no seu livro?
Tem sobretudo a ver com a dificuldade de as pessoas terem acesso a informação de qualidade, que é a razão por que o site da Ordem dos Médicos tem uma ferramenta chamada Choosing Wisely Portugal, em que se pretende apresentar a melhor informação disponível, nas várias especialidades, para que médicos e doentes façam escolhas esclarecidas em saúde. Coisa que não acontece hoje em dia: as pessoas ou não têm acesso à informação ou, se têm, não sabem se aquilo é bom ou não – vão ao Dr. Google e acabam mal orientadas. O segundo aspeto é elas acharem mais interessante pensar nas tempestades como cólera de Deus do que como fenómenos elétricos (uma crença do século passado), da mesma forma que preferem considerar soluções mágicas para os seus problemas. São muito mais maravilhosas do que resumir tudo a uma abordagem sistemática.

Porque é que as pessoas acreditam em coisas estranhas?
Estranhas é eufemismo, muitas são verdadeiramente inacreditáveis. Dou-lhe o exemplo das terapias alternativas: todas elas são mágicas na sua génese. Excetuando a acupuntura médica utilizada em quadros de dor, que é já uma especialidade médica, nenhuma das outras tem qualquer base científica. Pensar-se que os copos de água da homeopatia podem curar um cancro da mama é mágico. O problema é quando a pessoa verifica estar enganada e já é tarde de mais. Aí é trágico.

O caso do Steve Jobs, fundador da Apple, é paradigmático.
Paradigmático e devastador, parece-me. Era um dos homens mais inteligentes que a humanidade já viu, um dos grandes líderes do século XX, que revolucionou tecnologicamente as nossas vidas. Então foi-lhe diagnosticado um tumor no pâncreas que até era muito favorável, dos raros que se curava com uma simples cirurgia de meia hora, e no entanto ele tomou a decisão colossalmente estúpida de fazer homeopatia, dieta e yoga. Quando quis ser operado já era tarde de mais porque o cancro tinha-se metastizado. Repare: estamos a falar de um homem ímpar, que os médicos devem ter tentado convencer por todos os meios ao seu alcance. E mesmo assim preferiu confiar nas propriedades mágicas de um conjunto de intervenções não provadas cientificamente.

Pagou com a vida essa crença.
Quem vai à medicina alternativa tem de saber que não há provas científicas da eficácia daquela intervenção. A mim não me choca nada que uma pessoa com dores no pescoço faça uma quiropraxia, que é uma espécie de massagem na coluna. São doentes que apresentam quase sempre problemas relativamente claros, envolvendo dores crónicas, com uma componente psicológica. Admito que possam sentir que o sistema clássico não tem resposta, ao passo que estes terapeutas passam mais tempo com eles, prestam outra atenção às suas queixas. Se estiverem informados ao que vão, não tenho nada a dizer sobre o assunto. Agora, quando procuram um quiroprático para tratar um enfarte do miocárdio, aí volta a ser trágico.

“Não é possível em 2019 alguém vir defender uma licenciatura cujo currículo tem o yin e o yang, três meridianos e quatro aquecedores.”

E se a pessoa sente uma melhoria efetiva, nem que seja pelo efeito placebo? É bom, não?
Temos que ver se existem efeitos adversos, a questão é essa. Muitas vezes o doente chega às nossas mãos numa fase bastante tardia, em que já devíamos ter começado com outro tipo de abordagem. Além de haver uma toxicidade inerente a algumas dessas intervenções, nomeadamente a fitoterapia: há pessoas que acham as plantas muito naturais, vão com certeza deixá-las melhor, e esquecem-se de que têm as mesmas moléculas ativas dos medicamentos, o que se traduz numa toxicidade direta nas coisas que nos fazem. Há sempre riscos envolvidos, pelo que temos de fazer sempre essa análise ponderada dos prós face aos contras.

Mesmo quando é a Organização Mundial de Saúde (OMS) a recomendar as medicinas alternativas? Em que é que uma pessoa fica perante isto?
É ignorar o que a OMS diz, até porque na minha opinião é uma organização que, pretendendo passar-se por científica, não tem uma credibilidade irrepreensível. Não é possível em 2019 alguém vir defender uma licenciatura em medicina tradicional chinesa cujo currículo tem o yin e o yang, três meridianos e quatro aquecedores. É patético! Aquele pessoal deve estar todo a gozar connosco. Isto é uma cedência clara ao politicamente correto que resulta dramática, instável. Não é lógica nem racional, nada. E as coisas não se fazem assim. Temos que ter a coragem de dizer que não é assim. Seria uma tragédia se nós não procurássemos convencer as pessoas de que têm opções que são eficazes. Lembra-se do que foi a gripe A?

Lembro. Um pandemónio.
O prestígio desapareceu com a epidemia de gripe A depois de a OMS a ter comparado com a pandemia da gripe espanhola de 1918, em que não só não havia antibióticos para tratar a pneumonia, como a população tinha saído da Primeira Guerra Mundial depauperada. Fazer uma extrapolação deste cenário para 2009 foi de uma grosseria e uma desonestidade intelectual absolutamente chocantes. É nesse sentido que para mim a OMS é, acima de tudo, uma organização política. O que dali sai vale o que vale. Muitas vezes acabam por pôr em causa a sua própria reputação e é isso que me parece dramático, quando estamos aqui todos a batalhar por uma saúde bem estruturada, preventiva, eficaz.

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Era também da OMS um relatório que relacionava o consumo de carnes vermelhas e processadas (salsichas, presunto, carne enlatada) com o risco de cancro no cólon – outro dos mitos que rebate no livro…
Disse que o risco de cancro aumentava 18% por cada 50 gramas de carne processada ingerida, sim, e no caso das carnes vermelhas apontava para um crescimento de 17% de risco por cada 100 gramas. Mas o que significa a frase “por cada 50 gramas ingeridos diariamente o risco de cancro aumenta 18%”? A resposta é: 18% da probabilidade de se ter cancro do cólon durante a vida toda. Uma vez que por cada 100 000 portugueses que nascem atualmente se calcula que 58 homens e 38 mulheres (96 indivíduos) venham a ter cancro do cólon – é esta a taxa de incidência cumulativa –, isso quer dizer que se cada 100 000 deixarem de consumir carnes vermelhas ou processadas, então 17 indivíduos (18% de 96) não contraem cancro. Os restantes 99 983 não beneficiam de nada. É perante isto que as pessoas devem escolher se comem carne ou não, entre outras decisões.

“Nunca temos certezas absolutas porque há sempre a possibilidade de um doente, ou uma célula, se comportarem de maneira diferente.”

Como a de os pais não vacinarem os filhos com medo de que lhes cause autismo? É daqueles casos que podem ter um impacto avassalador ao nível da saúde pública…
É verdade, e isso aconteceu em 1998 após ter sido publicado um estudo que sugeria – mal, como se confirmou – que a vacinação podia provocar autismo. Houve uma diminuição de 15% no total de vacinação do Reino Unido e um aumento dos casos de sarampo mortal e de todos os problemas decorrentes de uma subida de rubéola e papeira nas crianças não vacinadas, o que só vem reforçar a importância da vacinação preventiva. Aliás, isto nem sequer é um assunto: é um não-assunto comparando os benefícios clínicos incontestáveis de se vacinar com os riscos, que são mínimos. Há crianças com autismo que nunca foram vacinadas e crianças vacinadas – a esmagadora maioria – que não têm autismo.

Fala numa medicina baseada na evidência para se acabar com mitos e crenças. Isso significa que podemos ter certezas absolutas? Ou é algo que não existe nem mesmo na ciência?
Nunca temos certezas absolutas porque há sempre a possibilidade de um doente, ou uma célula, se comportarem de maneira diferente. Tenho dois casos na minha vida profissional, de um senhor e uma senhora idosos com dois cancros metastizados gravíssimos, um no estômago, o outro no ovário, em que ambos decidiram não se tratar e reverteram os respetivos cancros a zero. Nunca soube porque reagiram assim, são dois casos em milhares de doentes com cancro. Virei tudo do avesso para tentar atingir o que teriam de diferente dos outros 100 mil que a seguir vão morrer da doença. Quero dizer com isto que não se deve tratar os doentes? Óbvio que não, são situações absolutamente excecionais. Interessam-me do ponto de vista intelectual, não tanto do ponto de vista de base da minha prática. Aí, estatisticamente, posso sempre dizer que perante esta dada condição a probabilidade de um doente se curar é de 30, 40%, o que for.

Mas isso não significa que fica em aberto uma margem para a fé, a crença ou o que quer que lhe queiramos chamar?
Há uma margem de conhecimento médico que é um pouco obscura e nós temos de ter a honestidade, e também a humildade, de assumir que não a sabemos explicar. Várias pesquisas demonstram de forma consistente a existência de fenómenos muito estranhos, como aqueles a que chamamos de intercessory prayer, que é quando um doente está internado no hospital e tem alguém cá fora a rezar por ele. Aqueles que tinham essa intercessão religiosa de alguém, mesmo sem o saberem, apresentava melhorias.

Como é que interpreta isto?
Não sei como fazê-lo nem como poderia aplicá-lo na minha prática clínica. O curioso é que esses resultados de que lhe falo eram sólidos, tanto quanto o impacto da religiosidade na saúde das pessoas que acreditam em algo. Estudos indicam que mulheres mais religiosas do que outras, em que tudo o resto era igual, as variáveis rigorosamente controladas, morriam menos do que as que não acreditavam nessa força a ampará-las. Daqui interpreto que deve haver – e sabemos que há – uma relação entre a mente e o corpo. Não sei explicá-la ou utilizá-la, mas não nego a hipótese de que exista. E se passar no método científico não terei problema nenhum em mandar os meus doentes irem a Fátima rezar.

O AUTOR

António Vaz Carneiro é médico especialista em medicina interna, nefrologia e farmacologia clínica, além de investigador clínico voltado para as áreas das políticas de saúde e do aumento da literacia em saúde dos cidadãos. É professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde dirige o Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência (Cembe), o Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública, o Instituto de Saúde Ambiental e o Instituto de Formação Avançada. Diretor da Cochrane Portugal, que promove a tomada de medidas de saúde com base em revisões sistemáticas relevantes, trabalhou ainda para lançar na página da Ordem dos Médicos uma ferramenta de apoio à decisão – Choosing Wisely Portugal [algo como Escolher com Sabedoria] –, em que se disponibiliza a melhor informação referente a cada especialidade para que doentes e médicos atuem em consciência.

O LIVRO

MITOS E CRENÇAS NA SAÚDE
António Vaz Carneiro
Ed. Livros Horizonte
144 páginas
13,90 euros