A saúde oral em Portugal é uma tragédia e «são urgentes medidas», dizem dentistas

Os dados do relatório anual da saúde oral dos portugueses mostram que as visitas ao médico dentista continuam escassas e que existe um grande desconhecimento em relação às patologias associadas à má dentição. João Braga, médico dentista da Best Quality Dental Centers e professor na Universidade do Porto, explica porque persistem os maus hábitos relacionados com a saúde oral e apela a medidas urgentes para mudar este panorama.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia de Shutterstock

O Barómetro de Saúde Oral referente a 2018, divulgado no início de janeiro, indica que mais de 30 por cento dos portugueses nunca visitou um dentista ou fê-lo apenas em caso de urgência. A juntar a isso, cerca de 70 por cento tem falta de dentes naturais.

A DN Life entrevistou o médico dentista João Braga, da Associação Best Quality Dental Centers, para perceber porque persistem os maus hábitos relacionados com a saúde oral em Portugal.

Confrontado com a insuficiência de visitas ao médico dentista, o especialista atribui fatores históricos, educacionais e informativos a esta falta de iniciativa. «Historicamente, a medicina dentária em Portugal foi durante muitos anos colocada em posição secundária, principalmente pelos decisores políticos», começa por dizer João Braga.

Mas há mais condicionantes: «a questão da educação também é fundamental. A população precisa de compreender que a prevenção é a arma mais eficaz e mais económica no combate às doenças orais, e que estas não se resumem aos dentes».

A juntar a isto, atribui também a «falta de informação, sensibilização e o alheamento do SNS na área da saúde oral» como fatores determinantes para as (poucas) visitas dos portugueses ao dentista.

«41 por cento não vão a uma consulta de medicina dentária há mais de um ano»

Mas, afinal, de quanto em quanto tempo devem as pessoas visitar o seu médico dentista? De acordo com o professor na Universidade do Porto, as visitas devem, de forma genérica, ser feitas semestralmente. Ainda que essa regularidade «deva ser decidida pelo médico em questão».

A perda total de dentes, designada por edentulismo total, afeta a saúde geral a vários níveis

«Poderão ser necessárias consultas mais regulares (trimestrais, por exemplo), dependendo do risco para a doença que o paciente apresenta e do nível de cuidados de saúde oral do paciente quer quanto à qualidade da higiene oral (uso de fio dentário e/ou escovilhões, escovagem e higiene da língua) quer quanto a hábitos de risco (consumo de bebidas alcoólicas ou tabagismo)», refere o médico.

Existem ainda doenças sistémicas que podem «justificar uma periodicidade maior».

«8,2 por cento da população portuguesa que não tem qualquer dente natural. E, entre aqueles que têm falta dentes, há 55,5 por cento que nada tem a substituir»

Os malefícios relacionados com a falta de dentes podem «condicionar a qualidade de mastigação e da digestão», bem como, levar a situações de isolamento, relacionadas «com razões estéticas, dificuldades na dicção e no controlo dos movimentos faciais e incapacidade de mastigação».

«Pode levar também ao aumento de doenças inflamatórias e fúngicas da cavidade (peri)oral e, embora a maioria destas condições se iniciem como benignas, têm o potencial de malignizar», acrescenta o médico.

«É imperativo que o SNS ofereça uma medicina dentária preventiva a nível nacional, em que a colaboração com as escolas será fundamental», diz João Braga

A perda total de dentes, designada por edentulismo total, afeta a saúde geral em vários níveis. Está comprovado que existe uma maior prevalência de obesidade, maior risco de doenças cardiovasculares e coronárias e um risco aumentado de distúrbios gastrointestinais.

A verdade é que as consequências podem ser ainda mais severas, já que foi encontrada relação entre a falta de dentes e a prevalência de cancro pancreático e de cancro do trato gastrointestinal superior», diz ainda Braga.

E as consequências não terminam por aqui. Segundo o médico, «a ausência de qualquer dente natural aumenta o risco de diabetes mellitus (não insulinodependente), de hipertensão, falência cardíaca, doença cardíaca isquémica, enfarte, esclerose da válvula aórtica, doença hepática crónica e apneia obstrutiva do sono», sendo que «tudo isto acarreta uma diminuição da qualidade da e esperança de vida».

O comportamento dos portugueses tem que mudar

«O mais importante é a educação da população quanto à importância da prevenção das doenças orais. É imperativo que o SNS ofereça uma medicina dentária preventiva a nível nacional, em que a colaboração com as escolas será fundamental», diz o médico.

Para que isso aconteça, reforça João Braga, é necessário «um investimento controlado» e «bem planeado», que conte «com o envolvimento dos médicos dentistas e não de pessoas puramente burocratas como sempre acontece».

«Outra medida eficaz seria a comparticipação de parte das despesas em saúde oral, podendo esta medida ser implementada de diversas formas», acrescenta o médico dentista. «Claro que estas medidas apenas teriam impacto dentro de alguns anos (o que é politicamente pouco atrativo), mas é urgente que sejam tomadas para mudar este panorama».


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