Se é para enganar, perguntem à vossa mulher como é que se faz

NA SEQUÊNCIA DO NAUFRÁGIO do navio de cruzei­ro, todos os passageiros e tripulantes morreram. Todos, menos dois. Agarrados a alguns destroços, deram à costa numa ilha deserta. Um homem e uma mulher. Ele, por­tuguês, de Macedo de Cavaleiros. Chamava-se Carlos. Carlos Antunes. Ela, alemã, natural de Rheinberg, per­to de Düsseldorf. Chamava-se Claudia. Claudia Schiffer.

PROCURARAM REFÚGIO, calor, alimento, forma de se manter vivos. E, confinados a um pedaço de terra cerca­do de água, aliaram-se na luta pela sobrevivência. Uma coisa leva à outra, tornaram-se amantes. Sem concor­rência e sem muito para fazer além de pescar, passavam o dia enrolados. De todo o azar que tinha tido – o homem quase morria afogado –, o bom do Carlos sentia que lhe tinha saído a sorte grande: sozinho numa ilha deser­ta com uma ex-top model só para ele. Quando quisesse. Na areia, na cabana, dentro de água, onde calhasse.

AO FIM DE UNS TEMPOS, porém, a frequência come­çou a diminuir. Carlos começou a desinteressar-se. Uma vez por dia. Três vezes por semana. De 15 em 15 dias… Claudia, que entretanto se apaixonara pelo português, resolveu confrontá-lo. «Já não gostas de mim», pergun­tou-lhe, a morder o lábio, olhos azuis quase em água. «É difícil de explicar», respondeu ele. «Mas há alguma coisa que possa fazer? Qualquer coisa. Tenho saudades tuas, Carlos.» O português olhou para ela, semicerrou os olhos em sinal de ideia brilhante e dis­se: «A sério que eras capaz de fazer uma coisa por mim? Não te importas?» «O que tu quise­res. Diz-me.» E ele lá lhe pediu o que andava a moer-lhe na cabeça há algum tempo. «Veste a minha roupa que se salvou. Pinta um bigode com carvão. Põe um ar masculi­no.» A alemã achou estranho e pensou que, privado de ci­vilização, Carlos desenvolvera algum fetiche e queria si­mular uma experiência sexual com outro homem. Mas fez-lhe a vontade. Com o que tinha à mão, disfarçou-se de homem e sentou-se ao lado dele. «E agora?», perguntou com voz grossa. «Vamos fazer o quê?» Carlos sorriu, es­petou uma palmada valente nos costados da desgraçada e atirou: «Ouve, meu, tenho uma coisa para te dizer. Nem vais acreditar! Tu sabes com quem é que eu ando metido agora? Estava mortinho por contar a alguém.»

É PARA RIR MAS PODIA SER REAL. Envolve a Cláudia Schiffer – podia ser a Irina Shayk, a Heidi Klum ou a Sa­ra Sampaio –porque foi com ela que me contaram a ane­dota, há muitos anos. E funciona com o Carlos de Ma­cedo de Cavaleiros porque um português torna a coisa mais próxima das histórias que conhecemos.

COMO ESTA, que me contaram há dias e que me leva a trazer aqui a piada dos náufragos: homem conhece mu­lher no Facebook. Pedido de amizade para lá, like para cá, tornam-se amigos, depois confidentes, finalmente aman­tes. Nada de novo. Mas com duas nuances: ele era casado, ela era uma brasa. Não era ex-modelo. Era modelo mes­mo. E conhecida. Quer dizer, eu nunca ouvira falar dela, mas quando me contaram fui à procura do nome e encon­trei – o nome, a cara, o corpo. Confirmo: uma brasa. Tão grande brasa era que aquilo estava a queimar a boca do desgraçado. E teve de contar. Contou a um, a dois, a três amigos. Que falaram entre si. E partilharam. Uma, duas, várias vezes. E o inevitável aconteceu: a história chegou à mulher dele. De vários lados. Chateada pela infidelidade e por toda a gente saber, menos ela, confrontou o marido, que admitiu. Já que era para ser apanhado, ao menos que fosse com uma modelo, talvez tenha pensado. Não sei. O que sei é que já ouvi algumas histórias do género – e até uma anedota. E nunca envolvem mulheres apanhadas por terem a boca grande. Apenas homens.

 

[Publicado originalmente na edição de 14 de dezembro de 2014]