“Se não conseguirmos criar uma sociedade em que se envelheça melhor e com mais saúde, falhámos”

Patrick Bonnet é diretor do UK's National Innovation Centre for Ageing

Patrick Bonnet, diretor do UK’s National Innovation Centre for Ageing, é um dos convidados do primeiro Fórum Portugal – Reino Unido sobre Envelhecimento Saudável, uma iniciativa da Embaixada do Reino Unido, que decorre na manhã de terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian. Vai falar sobre os grandes desafios de uma sociedade em processo de envelhecimento. Ao DN falou sobre o NICA e as soluções inovadoras para viver mais tempo com qualidade de vida.

O UK’s National Innovation Centre for Ageing (NICA) é um projeto conjunto do governo britânico e da Universidade de Newcastle. Em que consiste?

Na construção de um novo centro de inovação que encoraja o envolvimento público com as questões relacionadas com o que significa envelhecer bem por mais tempo. No nosso novo edifício, chamado Catalyst, que partilharemos com o National Innovation Centre for Data, especialistas em inovação, académicos, centros de investigação e empresas, trabalharemos para criar novos produtos e serviços que contribuam para um envelhecimento saudável e ativo.

O edifício Catalyst, em Newcastle, a ser inaugurado em breve, será a casa do UK’s National Innovation Centre for Ageing.

A razão para estarmos em Newcastle é porque a universidade tem o maior conjunto de especialistas da Europa a operar em todos os aspetos relacionados com o envelhecimento, desde ensaios clínicos na área da demência a estudos relacionados com o isolamento social e a solidão e tudo o que está no meio, e isso inclui consumo, soluções habitacionais, soluções de transportes, etc. O nosso staff trabalha com empresas, especialistas e cidadãos para identificar quais são as necessidades não satisfeitas, o que precisamos para envelhecer bem por mais tempo e tanto quanto possível de forma autónoma e com qualidade de vida.

O NICA conta com a participação e colaboração dos cidadãos e da comunidade para encontrar soluções para um envelhecimento saudável, o que também é inovador. Como tem corrido essa experiência?

Trabalhamos com um grupo chamado VOICE, que faz parte da NICA, que nos oferece a sua experiência e capital intelectual. É um grupo voluntário de 15 mil cidadãos que nos ajudam no processo de pesquisa e desenvolvimento de produtos, ideias ou serviços, dizendo o que gostariam de ver no mercado para ajudar a envelhecer de forma ativa e saudável por mais tempo. Estamos a desenvolver grupos semelhantes noutros países, como Singapura, os países nórdicos e os países bálticos e gostaríamos de desenvolver também em Portugal.

Particularmente para as multinacionais, são importantes os insights de outros países porque o que é válido para o Reino Unido pode não ser para outros. Tiveram um papel fundamental em identificar necessidades para dois dos nossos projetos: a 4 Generational Kitchen e os bancos de jardim. O grupo é constituído por várias idades porque muitos destes desafios são multigeracionais. E há uma questão: fizemos um estudo em que perguntámos às pessoas o que é ser velho e percebemos que é sempre mais 15 anos do que a idade de quem responde. Ninguém se vê como velho e este é um dado interessante em termos de marketing.

Uma das principais razões que leva os mais velhos a perder autonomia é a dificuldade em viver em casa em segurança, porque as casas não estão adaptadas.

A ideia da 4 Generational Kitchen [Cozinha Quatro Gerações, traduzido à letra] é adaptar o espaço aos mais velhos, tendo em conta as suas possíveis limitações, com soluções inovadoras em termos de design e tecnologia. Mas isto tem um preço, que provavelmente não é acessível aos mais pobres. Como é que a questão da redução das desigualdades é considerada?

Qualquer produto de que façamos protótipo e levemos ao mercado é como o i-Phone, o preço acabará por descer, mas a razão por que estamos a desenvolver estas cozinhas, que funcionam por módulos, é que podem ser aplicados a muitas casas e a empresa que está a desenvolvê-las fez este investimento porque interessada em imaginar casas e cidades e novas formas de construção adaptadas a uma sociedade que está a envelhecer.

Uma das principais razões que leva os mais velhos a perder autonomia é a dificuldade em viver em casa em segurança, porque as casas não estão adaptadas. Se conseguirmos tornar as casas mais seguras isso ajudará as pessoas a manter a independência e significará uma redução de custos para o Estado em despesas de saúde e apoios sociais. O que se poupa pode ser aplicado em providenciar melhores condições de habitação ou de transporte adaptados aos mais velhos.

Uma das coisas que nos interessa muito é não estigmatizar a velhice, mas criar melhores produtos que funcionam ao longo de toda a vida e se adaptam à sua evolução, tenha oito ou oitenta.

O papel do NICA é encontrar soluções inovadoras, apontar caminhos?

Sim, também se trata de dizer ao mercado – olhem o que é possível fazer, olhem quais são as oportunidades e os desafios associados a uma demografia que tem cada vez mais pessoas mais velhas e encorajar a produzi-las. No caso de uma cozinha, se tiver as considerações de design corretas, se perceber as funcionalidades do equipamento, se pensar que quem a utiliza pode ter mobilidade reduzida porque tem 75 anos e artroses e não consegue chegar aos armários mais altos ou mais baixos, porque custa a baixar, pode aplicar as soluções a uma cozinha típica.

Trata-se de estimular a criação de melhores produtos, que sirvam melhor todas as gerações. Uma das coisas que nos interessa muito é não estigmatizar a velhice, mas criar melhores produtos que funcionam ao longo de toda a vida e se adaptam à sua evolução, tenha oito ou oitenta. Chamamos-lhes produtos de esperança em vez de desespero. E também achamos que não devem ser beges e aborrecidos, mas coisa que as pessoas queiram, desejam

Eu queria uma cozinha daquelas.

Outro exemplo interessante são os bancos de rua que desenvolvemos. Algumas das queixas que tínhamos de pessoas mais velhas, apontadas como uma das razões para a solidão e isolamento, prendiam-se com a dificuldade de usar o espaço público. Os bancos de jardim no Reino Unido não são desenhados a pensar nos mais velhos, são desenhados para desencorajar os sem abrigo de os usarem como cama.

Com a ajuda do VOICE, criámos bancos com cores diferentes, assentos individuais, material aquecido, com um espaço para apoiar a bengala… Já existem em Newcastle e temos observado que funciona bem não só para as pessoas mais velhas, como para famílias com filhos pequenos. São seguros e funcionam nas várias fases da vida e é sobre isso que estamos a tentar encorajar o mercado a pensar.

“Há estereótipos muito interessantes sobre o futuro que enfrentamos quando envelhecemos e eu penso que a ideia de que esse futuro é negro é preguiçosa e infeliz”, diz Patrick Bonnet.

O número de idosos nos países europeus está a crescer. Daqui a dez anos terão duplicado. As empresas já perceberam o potencial de mercado que estes novos (velhos) consumidores representam?

Algumas companhias sim, outras ainda os consideram consumidores menos sofisticados. Mas acho que o perigo é de ficarem para trás porque este é um mercado enorme, com consumidores informados, que sabem o que querem.

E que são muito diferentes dos idosos de há umas décadas.

Tem razão, as últimas pesquisas apontam para que cerca de 70 por cento das pessoas acima dos 55 anos afirma que nunca se sentiu melhor em termos de saúde e de forma física. Há estereótipos muito interessantes sobre o futuro que enfrentamos quando envelhecemos e eu penso que a ideia de que esse futuro é negro é preguiçosa e infeliz.

Não é assim que muitas pessoas o sentem nem é assim que querem viver as suas vidas e se não conseguirmos criar uma sociedade em que se envelheça melhor e com mais saúde, será muito negativo, porque nos afetará a todos. Se nós próprios não conseguirmos dar esse salto de imaginação – como é que eu quero que seja a minha vida aos 65 ou aos 70 – penso que falhámos.

O idadismo é um novo problema?

Penso que há preconceito, mas está a evoluir. A questão da sinalética é simbólica. Quando eu era miúdo, os sinais de passagem de peões perto de um hospital teriam um homem e uma mulher curvados com uma bengala. A imagem e simbolismo não era o mais feliz e apesar da evolução ainda há muito espaço para melhorar. Penso que é como a tomada de consciência em relação ao racismo ou ao sexismo, evolui à medida que as pessoas se vão apercebendo que não é correto, que não fala para elas.

Se combinar isso com os imperativos económicos e comerciais – se quem tem mais rendimento disponível são os mais velhos, que são em maior número, os negócios inteligentes, os serviços públicos inteligentes, as organizações inteligentes serão os primeiros a perceber isso e a ir ao encontro desse mercado e levarão os outros atrás.

Coisas que eram normais, em termos de linguagem, nos anos 1960 ou 70 em relação às mulheres ou às raças são hoje completamente inaceitáveis, Numa sociedade que está a envelhecer, o processo será o mesmo ou até mais célere, porque nos tornámos muito mais conscientes, em relação aos mais velhos.

Estivemos sempre muito conscientes de que o Catalyst tinha que ser o mais inclusivo e adaptado possível no que respeita aos mais velhos. Trabalhámos muito nas melhores práticas porque considerámos que o NICA devia ser uma referência. Outros decisores poderão adotar essas boas práticas.

As cidades, os serviços, os edifícios, já são senior friendly ou também aqui ainda há um longo caminho a percorrer, apesar de o envelhecimento da população não ser propriamente uma novidade?

Falei do Catalyst, o edifício onde funcionará o National Innovation Center for Ageing, e tem sido um privilégio meu de dirigir o design desse edifício nos últimos três anos e meio e estivemos sempre muito conscientes de que este tinha que ser o mais inclusivo e adaptado possível no que respeita aos mais velhos e também aqui o VOICE deu um contributo importante, não só com a sua experiência sobre o que significa envelhecer, mas também com as suas experiências profissionais, uma vez que o grupo com quem trabalhámos tinha arquitetos, engenheiros e gestores de projeto reformados. Aliámos a estética à funcionalidade e aplicámos e tem que ver com a iluminação, os contrastes do chão, a sinalética, o mobiliário…

Trabalhámos muito nas melhores práticas porque considerámos que o NICA devia ser eficaz e uma referência em termos do que faz e do que apresenta e outros decisores poderão adotar essas boas práticas e aplicá-las, em hospitais, em lares, em bibliotecas, em estações de comboios ou de autocarros ou em quaisquer edifícios públicos. Trata-se de equilibrar o que pode ser feito e o que deve ser feito.

É uma questão com a qual todos podemos identificar-nos, porque se tudo correr bem todos vamos envelhecer, mas é claro que leva tempo e tem custos elevados, por isso é um processo que não é imediato, mas o desafio é dar soluções e dar oportunidade aos membros mais velhos da sociedade de dizerem o que querem e precisam.

O design certo não funciona só para os mais velhos, funciona para todos. É muito simples e não é preciso alta tecnologia, basta ser sensível às necessidades das pessoas.

As novas tecnologias e o design são as melhores ferramentas para adaptar melhor as sociedades aos mais velhos e para lhes dar uma maior qualidade de vida?

O design certo não funciona só para os mais velhos, funciona para todos. Um dos exemplos simples que eu dou e que se aplica ao Reino Unido, não sei se em Portugal também é assim, é o da pasta de dentes recarregável que vem numas embalagens de plástico duras que, para abrir, é preciso quase recorrer a uma serra elétrica. Se achamos difícil na nossa idade não imagino o que será para uma pessoa de oitenta anos, com artrite e dificuldades de visão. E aquela pratinha que tem que se tirar quando se abre uma nova pasta de dentes? É muito difícil!

Este tipo de embalagem terá certamente uma justificação, mas tem que haver melhores soluções que possamos pôr em prática. É muito simples e não é preciso alta tecnologia, basta ser sensível às necessidades das pessoas. Não digo que podemos resolver tudo, mas este é um setor com o qual todos podemos identificar-nos. O envelhecimento diz respeito a todos.

O envelhecimento ativo e saudável diz respeito a todos, mas também depende de cada um individualmente. Como se coaduna a dimensão individual com a social e política?

Se eu soubesse a resposta a essa pergunta, provavelmente seria primeiro ministro.

Fazer exercício, manter-se intelectualmente ativo, fazer uma alimentação saudável. A prevenção resolveria tantos problemas. É tão difícil porquê?

É verdade. É importante ter mais exemplos do que significa envelhecer bem, seria de esperar que ajudassem a mudar comportamentos. Gosto muito de correr na montanha e o membro mais velho do nosso clube tinha 84 anos, mas aparentava estar nos sessentas. Saudável, em forma e muito ativo intelectualmente. Saiu porque não conseguia conciliar a corrida com o ciclismo e as suas outras atividades.

Não podemos evitar pensar que deve existir uma correlação entre o seu investimento no bem-estar, na saúde, na forma física, no cuidado com a alimentação e o brilhantismo deste cidadão nos seus oitenta anos. Temos que fazer mais para levar as pessoas a viver melhor por mais tempo.